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sexta-feira, julho 29, 2011

Pendência

Por Karina Lima
Tenho que vencer nessa vida, é urgente. Conhecer o mundo, sacar belas fotografias, degustar os sabores mais exóticos, manejar a agenda cotidiana com o talento de uma malabarista circense, alimentar essa minha sede doida pelo constante movimento. Isso tudo sem deixar a vida passar despercebida. Assobiando e chupando cana.

Tenho que ter um lindo e amplo escritório com um frigobar retrô e um baleiro das antigas, ornando com decoração off-white, futurista, moderninha, inusitada. Para isso, trabalho desenfreadamente: penso no prosecco, em tudo o que ainda tenho que fazer, nas minhas ambições,  e me lanço, confiante. Escolhi empreender, dar risada do risco, calculá-lo todos os dias, conquistar, persuadir. Optei por uma profissão pela qual tenho paixão, e paixão é um lance que te leva até as últimas conseqüências.

Tenho que ser uma máquina de criatividade, é urgente. Para isso, devoro livros e revistas, armo a agenda para passar manhãs em livrarias, alimentando meu ímpeto por criar algo novo, reinventar o que há. Para isso, olho o mundo sempre com a intenção de capturar o evento, guardar uma boa sacada, trazer uma inspiração no bolso. Mal descanso: ando acordada demais, é o que dizem por aí.

Tenho que estar próxima dos entes e amigos mais amados – para isso, me desdobro em 1000 para saudar nos aniversários, escrever um recado carinhoso em Post-It, mandar um cartão natalino, passar uma noite fazendo escândalo num karaokê, planejar uma viagem incrível, promover uma roda de chopp ou de pizza pra multidão. Pelo meu eleitorado, não durmo, e vale a pena cada pedaço de sacrifício. 

Tenho que ponderar minha absoluta sinceridade: talvez ela até tenha um quê ingênuo em vários momentos, porque insisto em botar fé no mundo bem-intencionado, que valoriza a verdade nua e crua, sem pó compacto e nem corretivo.

Tenho que me exercitar, mesmo quando tudo o que queria era só dormir. Meu próprio organismo já nem se encosta por muitas horas: vive como o bombeiro que, a qualquer momento, pode ser acionado para apagar o fogo em uma esquina qualquer. Claro que sou uma criatura levemente alucinada, que acorda cantando, mas moram em mim um coelho e um bicho-preguiça que se engalfinham todo dia – desde algum tempo,  o coelho anda em séria vantagem nessa pancadaria sem fim.

Tenho que encontrar minha metade, é urgente. Para não ouvir minha avó dizer que já estou madura demais, para não ficar a mercê de circunstâncias, para não sentir a mais profunda solidão acompanhada na balada: pra lá, só vou se a vontade de ‘dançar como se ninguém estivesse vendo’ me invadir. Caso contrário, me deixo envolver pelo pijama e as minhas pantufas do Homer Simpson.

Tenho que ser a melhor filha do mundo, é urgente. Nada mais justo que retribuir todo o empenho, amor e sacrifício feitos em meu nome, um dia. Em busca disso, espremo meus horários, levo meus pais para provar comida nova, e me delicio ao assistir suas pequenas descobertas, e o brilho nos olhos deles por fazer isso em família, por ter sua prole por perto, rindo de bobagem, lembrando do que já se foi. Eles protagonizam meus melhores momentos.

Tenho que fazer mais pelo próximo. Nada me traz mais novas energias do que isso. A cada hora dedicada aos meus pequenos no hospital, penso em poder, um dia, doar muito mais: sou eu quem mais ganho, ao final das contas. Doar-se gera, hoje sei, um divisor de águas na vida.

Tenho que escrever pro Mulherices, um projeto pelo qual carrego todo o carinho, que me transformou em cronista por acidente. Nos últimos dias, a @lilianbuzzetto tem enlouquecido geral com o fim do Mestrado e o trabalho insano, a Stella Benevides se deu férias porque acaba de catar mais uma penca de filhotes de gatos de rua, e está lá na fase mais devota da adoção, tomando porres diante da Remington sem um sulfite ou texto novo sequer. Ela vive em outro ritmo, o tempo dela passa mais devagar, a véia já não corre mais, e me chama de nerd lunática. Fico cá matutando com meus botões se não sou mesmo a louca desvairada nessa história...

Tenho que ter tempo livre. Pra desenhar bichos pra minha afilhada com giz de cera, pra deixar o tempo passar em frente a uma temporada inteira de série de TV, pra chorar com filme água com açúcar, pra adormecer num fim de tarde, bater papo no bar, ler um livro bem, mas bem bocó.

Tenho que tomar um porre pra esquecer metade das coisas anotadas na minha mente burocrata.  É urgente.   :-)

sexta-feira, junho 10, 2011

O tal do 12

Por Karina Lima

Eu me arrastava com revistas, minha bolsa feminina do Mcgyver, iPod e mochila do notebook: chegar até o assento no avião seria, claro, uma missão tão perigosa quanto desarmar uma bomba-relógio. Mas cheguei. Ao meu lado, no assento  11A, um moço de uns 35 anos, daquele tipo que joga Angry Birds 24 horas ao dia no iPhone, fazia caras e bocas falando com alguém:

- Aham, é. Volto tarde. Nem me espere. Tchau.

De uma doçura que me lembrava chá de boldo ultraconcentrado... Quando ele desligou o aparato eletrônico vi, com minha visão Raio-X-Fuxiqueira, uma foto de criança na tela do telefone, enquanto ele criava seis rugas na face pra fazer uma expressão de reprovação, cochichando:

- A patroa...

Esbocei meu sorriso amarelo-padrão, e me pus a pensar porque as pessoas viviam juntas pra agir assim, feito ilustres desconhecidos, nessa secura toda. Acho que até sei a resposta -- tinha visto, no noticiário, que mulheres do Japão buscavam casar-se depois das últimas catástrofes naturais por lá, pra se sentirem mais apoiadas na ocorrência de novos tsunamis. Se o bicho está pegando nesse nível e se o desespero globalizou, tudo é possível, ponderei.

Ele voltou a jogar, e eu iniciei meu corriqueiro massacre mental. Como era quinta, dia 09 de Junho, iminência do Dia dos Namorados, já tinha me rendido boa cota de piadas, prosas e teorias infundadas. Eu estava ali, sozinha, já pensando no que fazer na próxima noite de sábado, mas de algo eu sabia: queria estar em qualquer esquina do mundo, mas não na pele daquela esposa.

Eu podia me gabar da recente solteirice, da minha nova liberdade publicamente anunciada, dizendo que posso viver de esbórnia, fazer pole dance na balada ou colecionar affairs alternados pelos dias da semana. Mas não. Podia também me lamentar, dizendo que até minha avó de 94 anos já professou, há um mês, que estou “bem madura” e na hora de pensar em casar, ter 7 filhos viris, um cão Labrador e uma casa com varanda. Seria ainda pior. Podia fazer o triste papel de moderninha que se gaba dizendo ser independente, decidida, descolada e empreendedora, do tipo que “assusta” os pretendentes, mas ainda tenho alguma preguiça, graças a Deus, de passar por esse ridículo. Que um boi me lamba se eu perder a sanidade, peço humildemente. Muito menos vou sair por aí esbravejando que homens são debilóides que só pensam em vídeo game, pornografia, cerveja e vadias: fim de carreira está anunciado pra quem estiver nesse estágio de autoflagelação.

É óbvio que vejo comédias românticas que me idiotizam. Lógico que me desmancho por completo quando vejo um cara ter tato com crianças, projetando-o como pai. Claro que tenho doces memórias de dias e noites passadas a dois, colecionando bobices e delícias comuns, típicas de gente enamorada. Me amarro nessa partilha, aliás. Mas também é verdade que rezo pra nunca ser sozinha, tendo suposta companhia – quer dividir sua vida com alguém? -- tenha admiração real, suspire, perca o fôlego por esse bendito, ou então, esqueça. Não faça, pelas caridades, feito as japinhas que querem esposo só pra agarrar alguém na hora do tsunami. Conheço um montão de gente assim, lamentavelmente.

Já dizia Pessoa que para viver a dois, é necessário aprender a ser um. Me empenho na carona para esse barco: conviver comigo e com os outros, serena e tirando o melhor do que o momento reservar. Assim seguirei até o belo dia em que eu mais tenho ‘dó’ de mim mesma: quando alguém conseguir fazer essa pessoa supostamente articulada, fria, calculista e compenetrada, virar uma pata choca e mongol, do tipo que derruba os potes do galheteiro e troca as palavras falando ao telefone.

Até lá, vou deixar os casais congestionarem as ruas dos motéis sem praguejar a performance sexual futura de ninguém, e vou levar na esportiva as cantadas de pedreiro que espero receber amanhã, enquanto danço com a companhia mais sexy do momento: o meu copo de Mojito

domingo, maio 01, 2011

Stella

Por Karina Lima
O Príncipe William e a Kate subiram ao altar, o combustível aumentou a largos passos, mas minha nada-mole vida segue na mesma rotina Aiai-meu-Deus: fila imensa de faróis, são 20h00, não consegui me desvencilhar do caos tipicamente paulista e, para o meu pesar, cotidiano. Panturrilhas em frangalhos, passar marcha é a minha academia compulsória diante dos vinte e tantos quilômetros que separam a Avenida Faria Lima do meu Lar, Doce Lar.

Ligo o rádio. Desligo. Tenho siricotico, vocês sabem. Olho para o lado, e observo os outros sabores de solidão nos carros ao meu redor: o cidadão que faz faxina nas narinas em público, o outro que se agarrou ao Blackberry como última esperança, o mongol que colocou o pescoço para fora assim como faz um cachorro de estimação, tentando especular se alguém pode ser esculhambado ou culpado pela pouca agilidade para acelerar nos semáforos... tem de tudo, e de mais nada eu duvido a essa altura do campeonato.

Maquiagem derrete, roupa incomoda, impaciência que não me sai: eu mesma não me aguento. Num momento de devaneio, penso longe: “Feliz é a Stella Benevides, que nem ao menos liga um DVD. Eu aqui, debilóide, querendo salvar o mundo equilibrada num scarpin...”. Naquele dia, talvez essa tenha sido minha suposição mais coerente.

Permitam-me, aliás, um parêntesis a esse respeito: costumo dizer por aí que minha vida se divide em a.S e d.S – antes e depois de encontrar Stella Benevides em um supermercado [quem não lembra pode se atualizar no texto “Prazer, Stella Benevides”]. Com Stellinha, assim como eu a chamo carinhosamente, aprendi uma penca de coisas, e presumo que o mesmo tenha ocorrido com vocês.

Foi com essa senhôura que eu me convenci, de uma vez por todas, que opinião é bandeira para hastear todos os dias, e não só para os feriados nacionais. Ostento, ainda, a minha incorrigível face de relações públicas do blog, mas me vi nos últimos tempos saindo do alto do muro, um recanto que eu dificilmente abandonava em nome da paz mundial, e da ameaça de conflitos. Sem perceber, comecei a dizer o que achava com muito mais freqüência e firmeza, e muito me agradei disso.

Foi com ela que aprendi a valorizar muito mais um “vá se foder” dito autenticamente e com eloqüência, ao invés de me contentar com uma meia-resposta vaga, falsa e carregada de politicagem. A doideira dela me faz crer, hoje, que palavrão é sábio verbete, quando utilizado devidamente. Minha fama de puritana vai me perseguir pra sempre, bem sei... mas que esse segredo fique, então, aqui entre nós.

Stellinha me ensinou que a boa música, via de regra, está em vinis que fazem mal às minhas zil alergias respiratórias. Ela ainda me odeia porque sei de umas letras bregas e de gosto duvidoso, mas trouxe para o meu iPod inúmeras faixas de Caetano, Bethania, Chico, Elis. Graças a ela, passei a olhar com muito mais atenção para mendigos, cães e gatos de rua. Sem nem mesmo ir ao médico, coisa que detesto, mais saudáveis ficaram os meus olhos e ouvidos, que passaram a funcionar em sintonia muito mais clara e limpa.

Com essa mulher que vocês bem conhecem, aprendi uma penca de lições sobre o meu maior emaranhado: o dos relacionamentos. Nunca me esqueço de quando ela me disse, sem nem me olhar muito e com aquele ar blasé de todos os dias, que romance não é opção: é falta dela. Eu, que sempre preenchia um questionário de 164 itens antes de comunicar o meu coração que eu podia me apaixonar sem restrições, passei a enxergar que o cara ideal não é, necessariamente, quem mamãe me diz ser o Príncipe montado num cavalo com trança embutida. E que romance não precisa de checklist. Caramba, como Stella me fez sentir burra!

Aquela véia maluca não me ensinou, felizmente, a me afeiçoar por whisky e cigarros – continuo surfando bem longe dessas ondas, mas ela é meu maior recibo de que a gente pode ser muito diferente de alguém, mas mesmo assim enxergar um mundo de coisas admiráveis nessa pessoa, e se sentir gigantemente orgulhosa pela sorte grande de tê-la conhecido um dia.

O melhor de tudo é ver, afinal, que com ‘acidentes’ feito esse, a gente larga mão da mania besta de presumir o valor de um presente só porque viu que a embalagem é bizarra, tem selo de inflamável, e cheira fortemente a álcool.

Ah, e tiete é a sua vovozinha, antes que eu me esqueça.   ;-)

sábado, fevereiro 26, 2011

Carnavalizo

Por Karina Lima

Podem me recriminar, mas assumo pra quem quiser ouvir: eu carnavalizo. Sou ré confessa, e com minhas lentes super-poderosas vejo poesia e beleza nas mil-cores das avenidas tomadas pela massa, sou grata à quase obrigação de ter uma data marcada pra diminuir a carga medonha que a vida exerce, e até me emociona sentir a percursão que ecoa forte a ponto de vibrar dentro da gente.

Você pode torcer o nariz, mas eu carnavalizo.

Por muitos anos, talvez por 25 dos meus vinteeset...oops, vinte e poucos de vida, passei carnavais inteiros no melhor dos estilos alternativos: lagartixando na piscina de um sítio, vendo DVDs de animações da Pixar, dormindo por algumas horas a mais numa rede. Sem culpa nenhuma, nem me gabando por deter uma pseudo-intelectualidade, ou torrando a paciência e cuspindo opiniões preconceituosas aos amigos foliões. Digam o que quiserem, mas vejo a Ivete Sangalo embalar multidões e admiro o magnetismo e energia que nela moram através dos ritmos vibrantes que arrastam o povo todo. Letra? Tem não, meu rei. É só pra pular mesmo. Não há intenção de imprimir inteligência nesse lance. Certo, depravação é outro assunto, vulgaridade também é. Mas não sejamos tão radicais ou, pelo menos, que sejamos só às vezes.

Você vai caçoar que no meu iPod deve tocar “Vounão-queronão-possonão”, mas eu carnavalizo.

Uso tiaras de pluma, chapéus de lantejoula, gravatas borboleta, cartolas de mágico. Me amarro nessa licença poética que só o Carnaval permite: você pode se fantasiar de quem ou o que quiser. Só há aqui um detalhe importante: ninguém deixa de ser quem é, só por conta dessa festa prolongada toda. No Carnaval, Natal ou Páscoa, não concordo que se deva barbarizar, tratar a outros de maneira leviana ou deseducada, infringir regras do bom convívio ou bancar o adolescente imbecil submongolóide.

Você vai me chamar de tia-chata-e-careta, mas eu carnavalizo.

Sambo no pé sem esquecer da contenda do aumento de R$5 no salário mínimo, ainda tendo nojo absoluto do machismo ignorante e ridículo do juiz Edílson Rodrigues, que proferiu zil absurdos sobre a Lei Maria da Penha, acompanho diariamente o processo caótico no mundo árabe, ainda sinto tristeza e náusea com a tosquice sem limites dos reality shows, e acho profundamente bizarra a onda dos emos-coloridos-sei-lá-que-raio tocando suas musiquinhas com timbre e harmonia de uma pobreza que é da Etiópia... mas procuro compreender o movimento atual dessa juventude fosforescente.

Você vai me lembrar que o carnaval tem sua face muito feia, mas eu carnavalizo.

Vou pra avenida mesmo lamentando que a prostituição de todas as idades ganhe ainda mais força nessas datas, e ciente de que muitos gringos só buscam aqui os “pandeiros” da mulherada que vive a mercê de seus corpos. Sei que o mesmo morro no Rio que batalha pra construir carro alegórico com aqueles temas a ver com a Sereia Iara e as águas do Amazonas vive sob a lei do traficante e encara outras barbaridades. Sei que Salvador fica depredada com o Carnaval mal-planejado e focado no lucro a curto prazo, também.

Você vai sentir tristeza ao pensar nesse assunto, mas eu [ainda] carnavalizo.

Vou brincar no Carnaval pra celebrar a vida, e não pra ameaçá-la. Triste é a sina de quem se aproveita da válvula de escape carnavalesca pra beber todas e aí lançar mão da chave do carro, e lamentável é o comportamento daquele fulano que se droga até enxergar o Darth Vader cantando no trio com o Bel Marques, levando pra casa o abadá e a amnésia.

Você vai dizer que tomei umas antes de escrever esse texto, mas eu [ainda assim] carnavalizo.

Sou gamada na bela desculpa que vem de carona com esse feriado pra dar a pausa que [acho que] mereço pra aliviar a frenesi absoluta que reina na maioria dos dias do meu pobre calendário. Vestindo alegria, fitilho no cabelo, sorriso no semblante: uma pausa consciente, necessária e bem-vinda. Pra falar bobagem, ver o sol nascer, dançar até os pés pedirem pinico.

Quem quiser me julgar, vá falando: mulheres são bichos multitarefa. Enquanto isso, arrumo as malas e separo os badulaques...

sexta-feira, janeiro 21, 2011

[Mais] Feliz

Por Karina Lima
Perguntem a 10 pessoas o que elas querem da vida, e preparem-se para uma resposta clichê e unânime: todo mundo quer ser feliz. Sem demagogias ou explicações, a tal felicidade é conquista mais cobiçada do que par de sapatos Loubotin, mais desejada do que ala VIP no show do U2. Curiosamente, essa gente toda podia querer uma infinidade de coisas, trabalha duro para dominar o mundo, e no final só deseja aquilo que os contos de fadas prometiam: o ‘felizes para sempre’.

Em uma das minhas 4.752 reflexões existenciais dessa semana, mirando o trânsito da Marginal Tietê brincar de estátua, eu retrocedia a um tempo que não vivi: nos modelos anteriores de sociedade, a grotesca força das tradições e da religião criava grandes mordaças que impediam a manifestação mais pura e marota da felicidade. A repressão era tanta, que todo ser só tinha forças pra se angustiar e sofrer. 'Fase mais cretina', pensei alto.

Hoje é absoluta-e-totalmente diferente. Ou não, convenhamos.

A nossa modernidade trouxe iPhones, reality shows, redes sociais, micaretas, tendências fashion, modas, tribos e outros recursos incríveis para preencher um amplo galpão: o nosso bom e velho vazio existencial da pós-modernidade. A pressão é tanta, a necessidade de parecer um ser bem sucedido, resolvido e relacionado é tão aterradora, que com toda essa globalização e avanço costumo dizer que retrocedemos a largos passos. Conheço gente de todo tipo de pedigree social que só leva o tempo em se consolar e se deprimir. Mas esperem: a liberdade é tanta, a neura com a saúde é tão surreal... que todo mundo deveria ficar super feliz com essa perfeição toda, certo? Errado. Conhecemos o reino da felicidade paradoxal: ter tudo nas mãos mas, lá no fundo, não ter coisa alguma. Para uns, tristes são os tempos modernos.

Conheço bem dois novos vilões desse milênio: a piscina e o SPA – todo mundo cultuando o próprio corpo, olhando só pro umbigo e aplicando botox até nos cotovelos. Vejo gente por aí que tem a cara igualzinha ao solado de um tamanco de madeira: aquela coisa lisa, artificial, bizarra. A vida é tão dura, o peso dela é tamanho, estamos tão esmagados pela dor do atraso de quem está sempre em beta, a rotina é tão maçante, que é normal precisarmos de auto-recompensas: compramos desenfreadamente como se o amanhã não existisse, consumimos chocolates como se calças jeans fossem super elásticas, malhamos como se tivéssemos que queimar as calorias presentes em um boi inteiro e sedentário de trocentos quilos. Fazemos yoga pra calibrar o espírito, vamos à terapia e somos ultra conectados. Aham. Tudo isso ao mesmo tempo e agora, sem necessária ordem, razão ou lógica.

Temos pressa. De quê, eu sinceramente não sei. Dos nossos novos absurdos, o melhor deles é a felicidade virtual: na internet, há uma avalanche de alto-falantes da turma do “alooou, sou feliiiiiz pra caramba!” – eu me pergunto por que felicidade virou obrigação social, ou cortina de fumaça pro exato contrário na vida real. Dou até risada de umas mulinhas que dizem ser invejadas pela sua alegria irritante e plenitude de vida, provocando uma certa platéia-alvo covardemente. É de procurar a faquinha de Pão Pullman pra cortar os pulsos, não?

Quem me dera se toda gente por aí simplesmente praticasse o bem, sorrise, mentalizasse o bom, agradecesse o que há pra agora, usasse da gentileza e desativasse a vitrine do desfile de felicidades mal-fabricadas, aquelas que vieram do Paraguai. Essa onda já passou, ficou démodé, cansou.

Tendência e moda são, acreditem, ser gente de verdade: com remelas, tropeçando, sentindo medo, preguiça, fazendo tolices, acordando com o cabelo do Rei Leão, tentando acertar, olhando nos olhos dos outros, encarando a vida de frente. Nesse quesito, a minha coleção primavera-verão 2011 já está aí, na passarela mais próxima de vocês.

Penso que o jeito é 'fazer carão' todos os dias e desfilar minha felicidade que vez ou outra apresenta alguns sintomas de mau contato, mas que é 100% real e garantida quando se revela, da maneira mais natural.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Um 2011 e um Cappuccino

Por Karina Lima
Na Avenida Ipiranga, choviam mil litros. Meus scarpins de cor chocante suspiravam com os pingos gelados e poças, silenciosamente pedindo abrigo seguro. Mas eis que, no alto do meu desespero pluviométrico, ouvi uma canção há tempos gravada pelo John Lennon sair da loja de CDs:

“A very merry Christmaaaas / And a Happy New Yeeeeear!”

Contrariando a minha conduta [quase sempre] hello-kíttica, pensei: ‘se Papai Noel topasse comigo aqui, nesse minuto, juro que chutaria a canela dele com todo o vigor’. Creiam: meu surto de marginalidade crônica passou rápido, assim como as chuvas de verão se vão – suspeito que seja culpa da minha intemperança ariana. Quando os neurônios voltaram a fazer as sinapses do bem, comecei a refletir sobre o inevitável: temo que 2010 vai acabar. Acabar com a gente. É sério.

Pense comigo: quando o ano começar a se despedir, teremos a obrigação social de injetar alegria irritante nas veias: parado aí, você tem a incumbência de ser muito feliz, e eu também, e é pra já. Não importa que os políticos sejam canalhas, que os preços dos produtos estejam pela hora da morte, que os barbeiros resolvam dirigir adoidado pelas ruas, que seu chefe carcamano planeje tirar férias em dezembro só pra te tirar a paz. Quem não sorrir mostrando seus 64 dentes nessa época vai ouvir um “cadê teu espírito natalino, hein?”. Escove seus dentinhos regularmente, sua arcada vai ser bem requisitada logo mais.

Nessa época, teremos a missão de ser sociáveis: participaremos dos Amigos Secretos da Associação de Moradores do Bairro, da Turma do Pré III de 1988, da empresa lotada de jararacas que reparam no nosso figurino todos os dias só pra achar um deslize fashion. Não nos esqueceremos de responder, uma a uma, todas as mensagens [várias são automáticas] de felicitações recebidas no email, no Orkut, SMS, no Facebook, no Sonico, no QuéPasa, no Linkedin, no HiFive, no Twitter, no RaiQueoParta, em tudo quanto é canto.

[Verdadeiros cartões de Natal são raros, mas tão raros... que quando recebo um de pessoa física, escrito a mão, só pra mim, realmente fico emochocada e me sinto especialíssima.]

Quando o ano vai dar tchau, fazemos check up médico. É bom, até porque muitos desses profissionais desaparecem das tocas nas férias de verão: melhor garantir a integridade da lataria e prevenir chatices. Também é necessário reduzir dimensões corpóreas – o plano verão, o projeto biquíni, a operação vestido branco. Faz sentido: dezembro é um mês repleto de confraternizações, drinques, farofas, chesters, sorvetes, nozes e nutellas. Depois, não esqueçamos da dieta pós-orgia-alimentar, já que comeremos como se o amanhã, esse desconhecido, simplesmente não existisse.

Pra 2010 virar bem, você precisa estabelecer metas – vale desde o painel de ‘O Segredo’, até fazer um Balanced Scorecard. Fica feio contar o que a gente empurrou pro ano que vem, lembre-se disso. Ah, é fundamental treinar o discurso sobre como você se realizou pacas esse ano, aliado a como suas super metas te levarão ao infinito e além em 2011. Cansei de ouvir pessoas dizendo que ganharam 34,80% mais grana, tiveram 40,54% mais êxito, fizeram 52,76% mais sexo – nota: o terceiro indicador é, geralmente, bem arredondado para cima.

Falta algo? Claro! As listas: presentes para Deus e o mundo, itens para viajar, ingredientes para a ceia, penduricalhos e guirlandas. Tudo isso pode ser adquirido em locais tranquilíssimos como shoppings, mercados e a 25 de Março: uma paz que contagia, um silêncio de templo budista e amplos espaços de estacionamento livre. Se resolver comprar, vale inserir a lista das mandingas: as romãs, as lingeries coloridas, a lentilha, as uvas, especiarias, sal grosso, oferendas, mel de abelhas. Não tem choro e nem vela: todas as viradas são iguais, as pataquadas perduram, tem show do Roberto Carlos e come-se panetone. Sempre assim.

Se pudesse pedir algo, pediria trégua.

Meu desejo em meio a esse quase ataque da serra elétrica, é que o ano vire logo. Que, no decorrer dele, a gente sorria sem obrigação, renove as esperanças, faça planos inéditos... mas que, acima de tudo, pensemos que apenas um ciclo se fecha, ou um contador reinicia no dia 31. Continuaremos sendo os mesmos, e não há mágica que mude essa condição cruel, ou divina.

Pra 2011 ser incrível, minha sugestão verdadeira é de que você e eu ajudemos uma instituição beneficente pelo ano todo. Que sejamos gentis no trânsito sempre que possível [quem conseguir, me dê dicas]. Que tenhamos tardes livres pra visitar nossos avós ou um asilo. Que encontremos casa pra um cachorro abandonado, desses que o @o_colecionador recolhe por aí. Que sejamos bacanas com garçons. Que consigamos andar descalços vez em quando. Que tenhamos o desafio de aprender três coisas novas por dia, todos os dias. Que consigamos desfrutar do luxo de tomar um cappuccino ao ar livre e sem pressa. Que sobrem os surtos de entusiasmo, pintem sombras e águas frescas, chova alívio pros perrengues, haja mangas pra arregaçar. De janeiro a janeiro.

[Tá certo: se quiser me presentear, vá em frente. Mas escreva um cartão a tinta, combinado?]

sexta-feira, novembro 19, 2010

Se eu fosse Presidenta

Por Karina Lima
Se a Festa [Obrigatória] da Democracia tivesse me brindado liderança absoluta nas urnas, estou certa de que ainda não teria pregado os olhos direito por nenhuma noite inteira. Só de pensar no reboliço que isso poderia representar na minha-nada-mole-vida, minhas tripas ameaçam enroscamento geral, curto circuito e pane generalizada. Confabulei a respeito dessa pauta há pouco e quase fundi meu pobre cérebro tentando construir um plano imaginário de governo -- pairou até cheiro de queimado na varanda da sala de estar. O jeito foi compartilhar aqui só o que sobrou assim que desisti -- claro -- dessa tarefa. Não há remédio, isso é o que temos para hoje.

Conto que um dos meus primeiros pensamentos sobre o assunto, olhando para um cursor piscando na folha pálida do Word, foi: se eu fosse presidenta, investiria pesado em educação para o máximo de pessoas, incluindo o Tiririca. Abrangência integral: desde a cartilha com a lição da pata que nada até o ensino profissionalizante e a graduação, porque deliro para ver na ativa uma usina de cabeças que brilhem no mercado de trabalho, que mostrem o pensamento além do cafezinho da firma. Organizações que empreguem gente que queira mais que enganar o patrão no horário comercial.

Se eleita, eu posicionaria o sistema prisional como a principal via para a ocupação de mentes perigosas: se detentos produzissem zilhões daquelas cadeirinhas de bebê obrigatórias no país, quem sabe assim não pararíamos de receber trotes lá de Bangu, né? Essa gente anda ociosa demais. E olhe lá que trotes são pouca coisa dentro do que esses garotos malvados ‘produzem’ enquanto vêem o sol nascer quadrado, se é que vocês me entendem.

Se eu ocupasse o cargo mais alto na nossa política, não escaparia do estigma de combater a sede e a fome – é duro admitir, e a Madame Mayara Petruso não aprovaria isso de modo algum, mas aqui no nosso chão há uma série de urgências: às vezes, em meio à caatinga ou em um barraco modesto, não há tempo de esperar que uma criança aprenda a tabuada do 6, para depois alimentá-la com tutu de feijão. Encantaria-me representar uma nação que tivesse apenas fome de saber, fome de justiça, fome de inovação... mas não poderia, de modo algum, fechar os olhos para a fome latente de panela, brutalmente presente, cruel vilã que ainda ceifa tantas vidas, todos os dias.

Se eu fosse essa autoridade exemplar, investiria primeiro nos leitos e na infra-estrutura de Hospitais Nacionais, de responsabilidade do Governo Federal, para em seguida fazer valer o conceito de Humanização Hospitalar: quem dera contar com locais onde corpos e mentes fossem curados, todos os dias. Um sonho, uma nova fronteira – a saúde iria fazer valer o seu próprio significado, produzindo novos sorrisos.

Governando o Brasil, daria nele um choque de gestão empresarial, porque a Máquina Nacional está com as pilhas bem fracas. Meus ministros, por exemplo, seriam escolhidos por headhunters -- nessa vida, não há milagre sem prévia romaria, certo? Na Segurança, buscaria incessantemente profissionais com a bagagem moral e a fibra do Capitão Nascimento – dentre os materiais de escritório, sacos plásticos teriam grande estoque. Só por precaução.

Conduzindo um país, criaria um vestibular para pré-aprovar deputados e senadores – seria o fim da ditadura dos submongolóides. Para aplicar no processo de candidatura, seria mandatório saber estruturar projetos, falar com coerência, comprovar experiência, não ter o ‘sobrenome’ de alguma fruta, não ser cantor do KLB, não ter ganho visibilidade por ter agredido mulheres. Ah, não menos importante: bigodinhos safadjeenhos a la Sarney, nunca mais na história desse país. [Alô CQC, Pânico e Trupe dos Cassetas: com isso, suas pautas precisariam urgentemente de alguma novidade, a fonte secaria... né?]

Se eu fosse presidenta, procuraria um personal stylist e usaria gloss nos lábios. Tenho ciência, aliás, de que barba cinza e nove dedos são as tendências para o momento no cenário pop, mas eu tentaria inovar e quebrar esse tão forte paradigma. Ah, e se eleita, daria um Nintendo Wii pro Serra se ocupar e adquirir hábitos mais, digamos, vivos. [Oká, cessaram as minhas maldades. Parei por hoje.]

Uma vez aclamada chefe de governo, cortaria o barato de toda a corja que planeja mil patifarias com as obras superfaturadas nos estádios de futebol para a Copa. Ah, e no meu governo, o Corinthians jamais teria sequer menção na pauta “abertura dos jogos”, não mesmo [não coloquem minha mamãe no meio, xinguem só a presidenta]. Empenharia-me ao máximo para impulsionar o Brasil em seu momento de maior plenitude e evidência através desses incríveis eventos -- a briga seria feia, mas muito válida, estou certa.

Se eu ganhasse a corrida presidencial, não incluiria o rosa choque nas cores da bandeira nacional, e nem sairia por aí bradando a vitória suprema feminina, independente, arrojada e purpurinada. Não é preciso ter muito esclarecimento para saber que homens e mulheres possuem habilidades distintas, e que competência, meu povo, é bênção assexuada: você é aquilo que pratica. Esse papo feminista me dá uma preguiça...

Governando lá em Brasília, ouvir o Hino Nacional me causaria ainda mais comoção – veja lá que hoje meu pobre coração já acelera só em escutar os primeiros acordes dessa melodia, hein? Eu poderia ter zil desejos de realização e um número sem-fim de desafios, mas talvez um sentimento maior fosse dividido com vocês: de que minha luta diária seria em prol de desmanchar o nó na garganta que está aqui, mantido graças a um sistema injusto, covarde e mesquinho, que castiga quem faz a lição de casa e beneficia encapetados que se comportam pessimamente mal.

Só valeria a pena virar Presidenta sendo, mesmo, excelentíssima.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Eu, vilã

Por Karina Lima
Em um [nada] belo dia, acordei com um revólver apontado para a minha face, fixamente. Por trás da arma suja e fria, estavam dois rapazes que, sutilmente, me puxaram os cobertores e pediram que eu me retirasse do [meu próprio] quarto sem fazer barulho algum, para que eles pudessem executar seu trabalho sem empecilhos. Enquanto isso, um outro cidadão já estava firme e forte na tarefa de desplugar ou desparafusar toda sorte de aparatos eletrônicos que estivessem no raio de sua visão, aqui em casa, cômodo a cômodo. A eternidade, nesse dia, media uma hora e vinte minutos – tempo esse que durou a tal visita indesejada que tivemos recentemente.

Pouco antes, meu pai fora rendido por esse lépido trio, quando saía para trabalhar. Sem escolha e sob ameaça, ele guiou os meliantes até a casa onde, antes das seis da manhã, nós todos dormíamos tranquilamente. Não me recordo de ter sentido tanto medo na vida, ou de, ao mesmo tempo, ter acumulado tanta vontade de ver três pessoas serem moídas em moedores gigantes de carne. Eles nos amordaçaram, fizeram ameaças, pressionaram, barbarizaram. Invadiram o nosso forte: estávamos ali, vulneráveis, em pânico e a mercê das circunstâncias. Saindo pelas portas, eu assistia a ciranda de vários itens de valor material ou sentimental que se despediam. Naquele momento, meu maior temor era pelos amores que estavam ali, deitados e paralisados pela angústia: meus pais e meu irmão dividiam comigo uma cena que eu só julgava típica das telas de cinema, ou de telejornais daqueles bem carniceiros.

Perdão pelo mau jeito: creio que ainda faltem algumas referências sobre os moços dessa história -- esses três elementos são, segundo os profissionais de Direitos Humanos, pobres páreas de nosso cruel sistema. Coitadinhos, vítimazinhas. Para eles, tudo: a paciência, a complacência, a tolerância – a lei está ao lado deles, e eles sabem manejá-la tão habilmente quanto um advogado diplomado.

Convenhamos: vilã sou eu, certo? Eu sou a representação da contramão nesse negócio. O Policial disse que gente como eu e você é que temos culpa por incidentes como esse: se um mau elemento me assalta a casa, é por conta do chamado ‘vacilo do civil’: vacilei, abri o portão, fui displicente. Por aí. Culpa minha. A culpa não é do marginal, que possui uma ferramenta que tem alto poder pra fazer as pessoas se moverem, chamada revólver. Mais fácil mexer comigo, não é mesmo?
Meu pai é vilão: foi reconhecer um dos criminosos, e soube que os acusados têm acesso a 100% das informações sobre quem os acusam. Para vítimas, insegurança pouca é bobagem.

Acreditem quando digo: eu é que sou um verdadeiro perigo em potencial. Um dia após esse ocorrido, saí com o carro e esqueci completamente da Lei do Rodízio Municipal – alguém tem dúvida de que eu fui punida com o devido rigor da lei? Sou eu: contraventora, a seu dispor. Manejei o carro sem minha Carteira de Habilitação, levada por aqueles filhos da pátria. Se eu sou surpreendida sem ela, imaginem vocês...

Pergunta que não cala: já que sou direita, tenho mais direitos ou deveres? Sou eu a presa mais fácil para esse mar de regras? Me cai bem esse papel imbecil?

Quando fui tirar meus novos documentos, reconfirmei que era tudo culpa minha mesmo: pago novamente todas as taxas para recuperar papéis que me foram subtraídos, à exceção da carteira de identidade. Quem mandou vacilar, não é? Poderia ficar trancada em casa a vida toda, sem abrir o portão nem pro carteiro ou os testemunhas de Jeová aos domingos, e estaria segura – ou aí sim, estaria mais presa? Pensando bem, eu é que devo ficar trancafiada, afinal... lugar de vilã é atrás das grades.

Se sabemos que meu trabalho tem 40% do resultado financeiro destinado aos cofres públicos – isso ocorre com você também, amigão -- talvez não fosse pedir demais ter mais respaldo e menos omissão. Posso me considerar roubada por essa gente engravatada, então? Sem dúvida, a nossa era é do combate ao mais frágil: bombardeiem o fumante individual, e não a Cracolândia. Penalizem a cidadã direita, mas não mexam com o bandido, que sabe se defender infinitamente melhor, e que é mais forte, ainda.

Ah, não disse tudo: os três meninos também levaram todo o acervo e todos os backups do meu trabalho – se eu atrasar com compromissos, se não tiver tempo hábil nem pra respirar, faço o quê? Conformo-me. Só abro exceção da conformação em uma hora do dia: lá pelo horário nobre, dou uma trégua nesse sentimento. É exatamente quando ouço os candidatos às eleições prometerem uma série de coisas que não me atingem ou beneficiam, e quando falam visceralmente sobre essas utopias nacionais todas, com uma teatralidade de fazer inveja. Vai ver propaganda partidária é ‘pros bonzinhos’, o que não é o meu meu caso, obviamente. Parem esse brinquedo, porque quero é descer dele.


segunda-feira, julho 26, 2010

365 dias

Por Karina Lima
Era uma vez, em um reino muito distante, um cavaleiro audaz e muito intrépido, chamado Lórde @o_colecionador [há quem diga que no documento de identidade ele atendia pela alcunha de Fabio Pegrucci, mas há zil controvérsias a esse respeito].
O Lórde @o_colecionador era figura aclamada e notória em todo o majestoso reino de Twitterland. Ele cutucava todo tipo de onça real com varas curtas, proferia comentários mais azedos que limão, desafiava as autoridades dos reinos vizinhos, e fumava mais que uma chaminé workaholic – e com orgulho, muito orgulho. Durante as madrugadas, na solidão da torre em que vivia, ele escrevia para toda a população da região -- arrobos e arrobas de todas as idades e localidades, uma platéia de pelo menos 2.000 expectadores.

Um belo dia, em meio às conexões de bits e bytes diariamente feitas por essa figura real, o Lórde @o_colecionador teve a brilhante idéia de apresentar duas arrobas serelepes e fagueiras: @karilima e @vanessapinho, alegando que ambas possuíam traços comuns, e argumentando que elas fariam uma bela dupla escrevendo em um blog, onda moderninha que invadia as fronteiras do reino – pela boa indicação e por idealizar os primórdios dessa história, nós o promovemos a Editor da nossa trupe... e foi aí que surgiu o Mulherices! No calendário, a folhinha marcava o nobre dia 29 de Julho de 2009, data em que o texto ‘Nossas Preliminares: sejam bem-vindos!’ foi postado, falando sobre o propósito do tal do blog. Há quase um ano, vejam vocês...

Sem pestanejar, @karilima acreditou nas palavras do @o_colecionador, já que a farofada...oops, a estrogonófica população do reino quase o tinha como um oráculo, e o ouvia com grande atenção. A @vanessapinho, Princesa do Condado de Florianópolis, tornou-se num piscar de olhos uma grande amiga de @karilima: de excelente astral, ela era a comédia em forma de pessoa, viva, empolgada, saltitante. Ela detinha o costume de escrever crônicas sobre assuntos bem cotidianos, mas com um discurso especialíssimo: parecia mesmo uma conversa sincera, despretensiosa. Relacionamentos, filhos, visões, música... o que ela escrevia, virava hit: todo mundo se identificava e se via nessas tramas.

As mulheres do Mulherices já eram bem felizes, mas não contavam com um evento que mudaria em definitivo o rumo de suas histórias: a ‘chapa ficou quente’ quando a @karilima conheceu Stella Benevides, uma polêmica ambulante viciada em gatos, cigarros e whiskey – aliás, a trama desse memorável evento está publicada no texto ‘Prazer, Stella Benevides’. Vocês se lembram?

Com muito mais idade, escracho e experiência, a Rainha Stellinha tem encabeçado excelentes discussões e comentários com as postagens que escreve. Um texto dela sobre Elis Regina, por exemplo, rendeu comentários elogiosos até da Maria Rita! [Psiu, o texto é ‘Elis’]. Com Stella, o buraco é [muito] mais embaixo: os temas são políticos, de questionamento, de contraponto. Ela não está aqui pra agradar, sabe como é... estranheza chegou e parou: ela escreve com uma máquina de datilografar, ingere doses cavalares de álcool, não está nem aí pra modernidade. Balaio de gato? Pois é...

Em Abril desse ano, outra trombeta do apocalipse soou: a afável donzela @lilianbuzzetto chegou para assegurar que a desordem seria status freqüente no Mulherices. Por princípios fraternos, ela tem um [gigante] excedente de doideira, e o partilha com quem quiser, sem miguelagens. Assim como a Stella, ela não escreve sobre flores: não simpatiza com crianças, é aficionada por esportes, cola figurinhas em álbum da Copa e cultiva um mal humor congênito que, curiosamente, traz a todo mundo pra ainda mais perto dela – sabem um lance assim, meio mulher de malandro? A gente fica assim com a @lilianbuzzetto.

Em suma, somos desse jeito: nada a ver umas com as outras. E era exatamente o que buscávamos... que as diferenças enriquecessem [e quiçá tumultuassem] o contexto e a produção. De lá pra cá, cronistas de parafusos razoavelmente soltos escrevem sobre verdades inescapáveis, discussões sobre atualidades, pseudo-filosofia, assuntos mulherzinha, insights, mazelas, confidências: no nosso caldeirão, todo ingrediente literário é aceito de bom grado.

Nossas temáticas são aleatórias, de escolha livre das cronistas. Essa semana, eu falo sobre macarrão, semana que vem Lilian pode falar sobre Revolução Industrial, na outra a Vanessa pode abordar uma cena cotidiana, aquela que já envolveu você, um conhecido, uma conversa e um sorvete de casquinha. Bem por aí – o que costuma surpreender é exatamente isso: nunca se sabe o que está por vir nessas bandas!

Blogar talvez seja o melhor verbo para conjugar nesse balaio: para cada postagem que vai ao
ar, nos reunimos virtualmente para escolher fotos, tecer comentários, manejar o Twitter, definir divulgação, tumultuar, rir, discutir... dá pra imaginar o pandemônio que isso causa? O processo criativo do Mulherices para a publicação das pautas é a parte mais divertida nesse projeto tocado a várias mãos, prestes a completar 01 ano de vida, nosso motivo de muitíssimo orgulho, sim senhor. De olho na Matemática: são mais de 600 seguidores, 4000 acessos ao mês, inúmeras menções dos leitores e, o principal: um mundo de novos laços graças ao que teclamos, semanalmente. É pra ficar bem feliz, assim como já estamos. A vocês, nossa gratidão: vida longa, indeterminada e próspera ao Mulherices, já que seria demasiado clichê desejar o caminho para o ‘felizes para sempre’!

Você sabia?
  • Nesse período, homenageamos três grandes mulheres: Greta Garbo, Elis Regina e Zuzu Angel;
  • A crônica mais ‘barulhenta’ foi ‘Homem que é Homem’, da Lilian Buzzetto: um enxame de 50 comentários em míseras 24 horas;
  • Nosso texto mais comentado e famoso foi ‘Zuzu’, de Stella Benevides, com 99 menções -- o recente texto 'Elizas...', da Lilian, se aproxima muito dessa marca, com 96 comentários;
  • À exceção de @karilima e Stellinha, ninguém no Mulherices se conhece pessoalmente – é, um espanto, no mínimo;
  • Os acessos ao blog cresceram 100% no último semestre... e quase 400% em 01 ano!





segunda-feira, junho 28, 2010

Gostar de gente

Por Karina Lima
Falem o que for, mas com todas as catástrofes bípedes que circulam por aí, eu ainda consigo gostar de gente. Um belo dia escolhi trabalhar lidando com pessoas e me declaro apaixonada por isso, tenho família de origem nordestina e [é claro] numerosa, sou filha de comerciantes, cresci convivendo com muitos vizinhos, era representante de classe no colégio, sempre freqüentei grupos numerosos de amigos... mesmo que quisesse muito, só virando ermitã para fugir das minhas próprias multidões.

Isso posto, faço aqui minha ressalva: gostar de gente não que dizer gostar indiscriminadamente de toda a gente possível – essa tarefa ficou pra Deus, que considera todo mundo parte da prole, mesmo com os defeitos mais escabrosos. Eu, como pecadora e errante, posso lá ter as minhas predileções e preconceitos, certo? Pois bem.

Gosto de gente que sorri, por padrão – creio que a vida já é demasiado complicada pra aturar criaturas que parecem ter tomado chá de boldo, e tem mais: penso que não custa nada cultivar um semblante leve, evitando rugas e economizando Renew 25+. Também gosto muito de gente que, ao negar comprar chicletes ou guarda-chuvas no semáforo, sorri para o vendedor que toma o não e perde a venda – já experimentaram agir assim? A retribuição do sorriso é certa, talvez porque a outra pessoa se sinta um pouco mais humana em sua condição: às vezes acho que esses ambulantes crêem ser invisíveis ou imperceptíveis diante de tanto ceticismo e de tanta antipatia de nossa parte, mesmo que de forma inconsciente.

Gosto, mas gosto muito mesmo, de gente que trata com dignidade o trabalho e a figura de frentistas, manobristas e seguranças: conheci uma vez uma bruaca desprezível que chegou a um dos meus antigos trabalhos fazendo pouco caso de um porteiro gente boníssima, nordestino e analfabeto, do tipo que não sabia identificar nem quando as letras estavam de ponta-cabeça em um envelope de carta. Ela entrou no escritório com seus cabelos Cassandra-do-Sai-de-Baixo, com roupa de tecidos finos, perfume do bom, implante dentário que parecia original e dizendo: “Que dialeto aquela criatura ali fala? Cruzes!” – ela bem que se esforçou pra ser simpática-Hebe-me-chamando-de-gracinha, mas era impossível engoli-la depois daquilo, Zagalo. Não mais consegui desde então. Nem com muita fraternidade ou esforço.

Diria que também gosto um tantão de quem divide a mesa com sua diarista ou empregada doméstica na hora de almoçar – eu tenho vizinhas tão mesquinhas, mas tão mesquinhas, que as cretinas escondem o Nescau e reclamam quando as funcionárias comem um pão francês a mais no café da manhã. No dia em que pão francês valer muito dinheiro na Bovespa, aí eu repenso essa questão, prometo a vocês todos. Aliás, aqui não é valor monetário: é pequenez de espírito, mesmo.

Definitivamente, eu também gosto muito de gente que não se abala com patentes ou com mordaças sociais, e que usa essas circunstâncias como reais alavancas: meu pai, por exemplo, mal fez o ensino primário e discute política com muito mais propriedade que eu, reconheço. Muito humildemente, ele sempre repete aqui e ali que aprende com os filhos, a TV, os amigos.

E por falar em apreço, gostar é pouco para o meu sentimento para com um grande amigo nosso, que faleceu muito precocemente no ano passado, aos quarenta e poucos anos. Ele era absolutamente a síntese do que eu mais gosto em matéria de gente: barulhento e espirituoso, do tipo que jamais passava despercebido no boteco. Excelente pai, aquele que comprava Toddy pra pôr na mochila do filho mais novo logo cedo, que acordava a esposa e a filha com café na cama, que chorava e se emocionava com o Palmeiras perdendo no Palestra, que abraçava e beijava a todos os amigos, sem mesquinhagens, bobagens ou machismos. Que adorava crianças, e organizava sacolinhas de Natal pras famílias carentes dos nossos arredores, movendo a todos os amigos nessa causa. O principal incentivador do time de futebol do bairro – formado só por pais e filhos dos nossos vizinhos. Ele me chamava de Boneca e tinha, para cada amigo ou conhecido, um apelido ou gozação bem particular. Bradava palavrões nos jogos da seleção canarinha, preparava picanha e vinagrete nos churrascos de domingo, comemorava o aniversário dos amigos com um bolo Pulmann e uma vela – de 7 dias, rá! Fazia o melhor macarrão ao alho, óleo e lingüiças do mundo – palavra de quem ganhava um prato pra provar a iguaria, por vários sábados em que tive a sorte de me sentir embalada por toda aquela gentileza.

Na última vez em que o vi, buzinei com vontade passando de carro pra assustá-lo enquanto ele, palhaço que só ele mesmo, pulava de maneira acrobática para a calçada mais próxima, fingindo o maior pânico do mundo. Essa foi a minha despedida com o Paulo, meu tipo favorito de gente nesse mundo.

Disso, sei bem: enquanto existir gente assim, feito o nosso eterno Paulinho... é certo que eu ainda vou gostar, e muito, de gente!







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domingo, maio 30, 2010

E então, fim do mundo?

Por Karina Lima
Botecar é uma bela arte. Até aí, não apresento novidade alguma. Pra ser bem sincera, toquei nesse assunto porque, meus caros, foi em uma prosa despretenciosa de bar que tive um dos papos mais cabeça dos meus últimos tempos de existência errante. O álcool, como é sabido, nos leva aos mais diversos caminhos, e um deles é o da verborragia. Há outros, como o da conduta estúpida – esse também tem um quê bem divertido. Tem o da telefonia celular descabida, que rende uma penca de arrependimentos posteriores quando a gente telefona pra quem não deveria nunca mais, nem sob hipótese de tortura chinesa. E tem o da Perda Total, também. Ah, isso dá é pano pra manga...

Sem perder muito o foco – no Mulherices, a gente adora isso – lhes conto o que d
izíamos naquela ocasião: que em tempos super modernos, vemos claramente duas visões bem distanciadas para quem vive nesse mundo doido: uma delas é a do hedonismo [do grego, ‘prazer’ ou ‘vontade’]. Aquele tal negócio: nossa cambada valorizando o presente, a busca da realização, a felicidade plena. Do hedonismo, há quem diga que para uns a conduta descamba para a alienação -- fechar os olhos para aquilo que é ruim e desagradável. Essa última é a corrente da vida da filósofa Hello Kitty, muito referenciada neste blog em que vos falo. Ou o jeitão da Poliana, também.[Trocando em miúdos, sabe aquela gente que faz de tudo com a desculpa de que temos que viver como se o amanhã não fosse chegar? Pois é. Esse tipinho aí.]
A outra corrent
e, na contramão da primeira, é a da visão do fim, do caos, do apocalipse, do nada, do negativo. Olhem pros cinemas e pro Youtube pra comprovar o quanto essa forma de pensar tem gerado cifras e gente interessada. A produção mais recente nesse sentido é o filme ‘2012’ com a marcante imagem do Cristo Redentor despencando e um número sem-fim de dilúvios, queimadas, choro, suor, lágrimas, sangue e mimimis. O ano de 2012, que será bissexto, está carregado de crenças voltadas à mudança: tem gente que acredita até que ETs virão dar o ar da graça por aqui – a gente bebe, e esse povo é que se desorienta com idéias esdrúxulas. Eu, pelo menos, acho isso.

Minha humilde e estrogonófica opinião: o mundo já está acabando há muito, e sinais destacados em canetas marca-texto me mostram, todos os dias, que nossa partida é breve e inevitável. Uma dessas revelações foi a aparição do Luan Santana, o moço que canta a música do ‘Meteoro da Paixão’ – quando essa catástrofe atingiu meus tímpanos, comecei a me despedir desse mundo vil e cruel. Essa bossa de AimeuDeus só se agrava: é Restart, Sonia Abraão, NXZero, Fiuk, escalação do Dunga... ei, você, consegue captar a corrida e caminhada atlética pro abismo? Ô geral, aviso: salve-se quem puder.

Se o fim é inevitável, a próxima pauta que veio à tona antes do outro chopp foi: o que fazer, se o dia fosse o último, e se nada mais restasse? Aí, minha gente, surgiu de tudo: cenas de cinema [ver o pôr do sol no cais, ir à praia com o namorado – imaginem o trânsito pro litoral], sandices [correr pela Paulista pagando peitinho, dar o calote na Daslu], devaneios bêbados [passar a noite na Praça da Sé, com uma garrafa de whisky e um cão vira-latas], logísticas tortas [voar pra Nova Zelândia – morrer voando?], safadices reprimidas [encher a cara e pendurar a conta, ir a casas de swing, fazer strip-teases, protagonizar atentados violentaços ao pudor], nonsense [vestir-se de Darth Vader, mandar a tia fofoqueira com regata de viscose ir tomar nos fundilhos, provar churrasco grego com suco de R$0,50]. Quanto mais chopp, mais idéias extravagantes surgiram. A noite foi regada a gargalhadas sonoras, interação com estranhos que queriam opinar no fórum, e pela presença de garçons boa-praç
a que acompanhavam os pitacos enquanto deixavam, vagarosamente, os petiscos e bebidas sobre a mesa.

Confesso que estava sóbria [salvo em raríssimas exceções não-motorizadas, costumo terminar as noites assim pra guiar a salvo pra casa]. Manobrei o carro subindo a Rua Melo Alves pensando em algo curioso: o mundo precisa mesmo acabar para que todo mundo se livre de um peso muito óbvio, mas real – o de arcar com o julgamento que pode surgir quando o pecado de permitir-se acontece. Pra exercer a tal da liberdade, é preciso mesmo ter a garantia da queda do tal meteoro?

(Billy Brandão – Paulinho Moska)

“O Último Dia”


 

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