quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ignorava e era feliz!

Por Lilian Buzzetto, cronista convidada






Domingo à noite, musiquinha do fantástico...

Estou com minha cerveja, meu cigarro, meu gato e o futebol na TV. Daqui a pouco voltarei para o meu tricô (e tenho 24 anos, apenas). Não saí esse fim de semana e estou sozinha. Não vou mais a bares porque não posso fumar. Não posso beber uma cerveja (com meu peso, nem um copo) e voltar dirigindo pra casa. Não posso fazer barulho, cantar, bater papo nas calçadas. Lá fora, eu não posso... Está muito difícil conviver com a sociedade. Mas, contradizendo tudo o que me ensinaram e o que esperam de mim nessa situação, não me sinto miserável, deprimida, solitária ou abandonada. Estou leve e feliz.


Esta manhã, eu peguei meu café, meu cigarro e fui para o sol, com meu jornal (daqueles de papel, antiquados, desatualizados e sujos). E na manchete das três primeiras matérias achei expressões como “veto”, “proibição” e “aumenta o risco de”. Tudo pelo meu bem e pelo bem do conjunto da obra de Deus.



O mundo aí fora me pareceu chato e perigoso. A Califórnia vai afundar depois de um grande terremoto. Nápoles será soterrada quando o Vesúvio quiser brincar de Pompéia. A África vai ser devastada por uma variedade estranha de vírus ou por leões famintos que invadirão as cidades, graças à destruição de seu ambiente natural. Não que eu vá para a qualquer lugar longínquo: alguém já viu a poluição que cria um avião a cada vôo? Um asteróide, o aquecimento global, uma nova gripe, uma supernova, um buraco negro construído em laboratório... de acordo com meu jornal, o mundo corre sérios riscos, o tempo todo...


Cogitei viver uma vida saudável: sem cigarro, sem bebida, com uma alimentação decente e no calor, porque o frio triplica o risco de enfartes. Mas segundo meu jornal, carboidratos e gorduras vão entupir minhas artérias. Presunto, salsichas e salames aumentam o risco de câncer no intestino. Peixes estão contaminados com mercúrio e os vegetais cheios de agrotóxicos nefastos. Sobraram os ovos! Mas ah... os ovos são muito, muito confusos. Nunca entendi os vários tipos de colesterol, em mim e no ovo. Só sei que um deles, ou todos, causa demência. Está no jornal.



Resta viver de luz, de sol (tomando, regularmente pílulas de cálcio, para evitar osteoporose)... Mas e se eu desenvolver um terrível câncer de pele? Estou ficando nervosa e com medo. E tenho que me acalmar, porque segundo meu jornal, estresse aumenta o risco de uma porção de coisas horríveis. Quase tomei um copo de água com açúcar. Graças a Deus, me contive. Açúcar dá cáries. Melhor assim, não poderia escolher entre um poluidor copo descartável ou um pouco do malvado detergente que eu usaria pra lavar o de vidro. Não sei mais como tomar água.


Vou largar o jornal. Estou ficando com dor de cabeça! Dormiria um pouco pra passar, mas não sei se posso. Quantas horas devo dormir para ser saudável? Se passar do limite eu morro do quê? Faltou isso no meu jornal. Um chá quente? Dá câncer no esôfago. Um leitinho? Aumenta o risco de Parkinson em homens e eu comi uma manga. Melhor não arriscar. Um bom banho! A manga pode dar congestão? Tomaria um analgésico, mas li que seria irresponsável, sem orientação médica. E pode ser contra-indicado em caso de suspeita de dengue. Aliás, deixa eu ir, porque tenho que tirar a água da chuva das plantinhas para não dar mosquito.










Mais de Lilian Buzzetto no blog "Cigarro Aceso"


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Algo Sobre as Mulheres do Século 21...

Por Fábio Pegrucci, cronista convidado Amanhece.

O despertador toca e eu pulo da cama, decidida e cheia de vigor. Escova de dentes, escova de cabelo, maquiagem, café, bolsa, rua! Sei muito bem quem sou e para onde vou. Óculos escuros, partida no carro. Sou forte, sou segura, sou bela e sou moderna! Independente e auto-suficiente – eu me basto! Tenho muita coisa na cabeça, muita coisa pra fazer, pouco tempo pra perder.

Nem me lembro de você – às vezes nem sei se você existe mesmo! Não me lembro do seu nome, nem do seu cheiro e nem da sua voz. A propósito, não me ligue, eu não tenho tempo! Tenho que trabalhar, o dia será cheio. Não me amole com seu sentimentalismo e nem me venha falar da sua carência. Eu tenho pressa. Eu tenho objetivo. Eu vou estudar, eu vou crescer, eu vou pra Europa! Dá licença, não me chame, não me interrompa e sobretudo não queira saber aonde estou: eu não estou nem aí pra você!

Telefone, agenda, compromisso, corre-corre. O chefe, o chefe do chefe e o chefe do chefe do chefe, todos me solicitando – e eu sou uma só! Que dia, que dia! Ainda bem que eu sei bem quem sou, o que quero e de nada sinto falta – ainda bem! Pausa para um chá, deixa eu respirar. Deixa eu suspirar... Deixa? Ai...

Ai, que estranho, me deu uma coisa... Uma coisa esquisita, uma saudade não-sei-de-quê! Não deve ser nada, só cansaço, só isso. Que bobagem, vai passar, vai passar... TPM, deve ser TPM ... mas já? Ai, que vontade de chorar! Que coisa estúpida, que besteira é essa? Não sei o que me deu, mas tô com vontade daquelas coisas que só você sabe me dar... Ai, me dá, me dá? Faz daquele jeito que me deixa que nem criança? Ai! Que bom que é! Você pode me abraçar e me mimar?

Eu quero, eu quero!

Quero que você brinque comigo, eu quero ser criança! Me leva na padaria e compra pra mim aqueles docinhos coloridos em forma de bichinho? Compra, compra?? Ai, cuida de mim que eu gosto... Pega um DVD de desenho e assiste comigo comendo pipoca? E se eu pegar no sono, você promete que me pega no colo e me leva pra cama, mesmo que eu não queira ir? Faz lanche pra mim, faz café da manhã? Compra chocolate, pirulito, jujuba? Ai, que delícia que é...

Quando eu estou saindo do banho, você pega uma toalha limpinha e coloca nas minhas costas, me embrulhando! Você nem olha pro meu corpo nessa hora, nem olha! Sabe? Eu nunca te falei, mas eu acho isso uma coisa tão linda... E quando eu estou com um chiclete na boca e não tenho onde cuspir, você coloca a sua mão em forma de concha, bem debaixo do meu queixo!

Ai, que bom que é estar nesse seu mundo! Poder ser menininha, usar camisolinha e pantufas, nada de gloss, de rímel, de scarpin! Poder fazer pirraça, dizer “não, não, não!”, se você quiser alguma coisa e “sim, sim, sim!”, se não quiser – só pra contrariar! Só porque é gostoso – e porque, de uma forma ou de outra, você vai olhar pra mim com aquele seu olhar amoroso e ligeiramente paternal, vai me segurar com aquelas mãos firmes de quem sempre sabe o que fazer, vai me tratar com aquela sua paciência oriental. E eu não preciso pensar em nada, porque você faz isso por mim. Eu aceito, me aninho no seu peito e, por um instante, até penso em te pedir desculpas pelo tanto que te faço sofrer... Mas nem isso eu preciso fazer, porque você já me desculpou antes que eu peça!

Ai, ai, ai ... Que saudade!
Onde está você? Por que não me manda um torpedo engraçado, porque não me escreve um e-mail cheio de palavras doces? Por que não me liga, por que?? Será que não percebe que agora eu fiquei com saudade? Como você pode ser tão insensível???

Ah! Se sacode, mulher! Para já com isso, tanta coisa pra fazer e você aí, viajando na maionese dessa fantasia boba! Não dá certo, não dá – isso não serve! Isso é tudo perda de tempo e o tempo é curto: tenho um relatório pra entregar, tenho que estudar para as provas – ai, as provas! Daqui a pouco tenho que pensar no TCC, ai que pavor!

Ainda bem que eu sou auto-suficiente! Ainda bem que eu não dependo de nada, de ninguém! Ainda bem que eu sou assim equilibrada, centrada, controlada, ainda bem! Minhas vontades eu controlo muito bem, ta? Você que nem ouse invadir meu pensamento com esse seu corpo de homem, com esses brações torneados, com essa barriguinha marcada... Hoje não! Hoje eu não quero! Não vou neeeeem lembrar dessas suas coxas peludas e dessas curvinhas nas suas costas, não vou! Muito menos vou me lembrar dessas suas mãos cheias de dedos me pegando e me apertando, dessa sua boca roçando minha nuca e dessa sua voz me falando aqueles absurdos no ouvido! Não, não e não ... não vou! Pode sumir do meu pensamento com essa sua língua quente e, sobretudo, leve pra bem longe daqui essa sua “coisa” dura porque hoje eu não quero!

Eu vivo muitíssimo bem sem isso, viu? Se digo que não preciso é porque não preciso e, a propósito, minha calcinha não está molhada, é apenas impressão!

Seu maldito!

Quando eu te pegar, vou te mostrar quem é quem! Sou muito mulher pra te jogar na cama e fazer do MEU jeito! Eu SEI fazer! Eu te seduzo, te amoleço, te desarmo e te mato de prazer! Te faço de objeto, uso esse seu corpo pra me satisfazer e pronto! Sexo é sexo e eu sou MULHER o bastante pra não perder o controle!

Eu te controlo! Eu te domino! Eu te escravizo!

Isso, isso, isso ... Isssso!Me bota de quatro, me pega, me segura, de DOMINA, porque é tudo o que eu mais quero!! Faz com força, me possui! Me faz tua fêmea, tua cadelinha! Me bate, me xinga, me humilha, mostra quem é que manda aqui! Porque quem manda aqui é VOCÊ, meu dono, meu rei, meu macho... e eu QUERO assim! Safado, cachorro, filho-da-puta! Eu gosto é ASSIM, e você sabe disso!

Ai, que droooooooga!!!

Olha o relatório, nem comecei! Ai, ai, ai ... Ta bom, passou! Lavo o rosto, mais um chá, um copo dágua!

Chocolate, chocolate, eu preciso de chocolate!! Quem pegou aquela trufa que estava na minha gaveta?? Ih, eu já comi?!

Pronto, pronto! Já passou, já passou!
Tenho que trabalhar. Olha o telefone tocando. Alô, pois não, um minutinho! Cadê minha agenda? A que horas mesmo é a reunião? Ah, que bom, estão reconhecendo meu valor por aqui! Vou me formar, me pós-graduar, que maravilha! Vou pra Europa, vou ganhar muito dinheiro, vou comprar um apartamento, um mooooonte de roupas, de bolsas, sapatos, uhú! Viva eu, viva eu! Não preciso de ninguém! Mas será mesmo que eu comi aquela trufa? No fim de semana ligo pras minhas amigas, vamos sair por aí e falar muita bobagem, principalmente vamos falar mal dos homens, todas elas falam, acho que vou falar também! Ah, que bom, que bom! Depois vai cada uma pra sua casa dormir sozinha e daí? Sou independente, auto-suficiente e super centrada! Sei muito bem o que quero e acho essa história toda de “amor” uma patetice que só atrasa a vida da gente, ta? Eu acho MESMO, ta? Não duvide!

Mas... sabe?
(Ih, quem é essa agora?)
É que de vez em quando ele fala sobre ter um projeto em comum, de ter uma casa com quintal gramado, uma piscina e um cachorro! Eu acho bonitinho às vezes. Só às vezes, mas acho... Será que a gente podia ter uma rede na varanda, pra namorar no fim da tarde? Será que podia ter jardim? Com rosas, será? E a gente podia convidar nossos amigos pra comer pizza e jogar buraco no sábado à noite?? E aí, depois que eles fossem embora, a gente namorava um pouco, dormia junto, abraçado, que gostoso! Assim, esposa, marido... Com aliança no dedo e tudo!

Nossa casa, nossas coisas, tudo nosso!

Um dia a gente teria um bebê! Sim, um bebê. Tanto faz se menino ou menina, tanto faz... Ele quer, não é lindo??? Quer ter um bebê comigo! Geeente! Já pensou, eu GRÁVIDA, quanto esse homem vai me mimar??? Há há há! E ele pede pra eu só IMAGINAR o QUANTO ele vai amar um filho meu... Ai, que lindo... Ai, que vontade de chorar...

Ele gosta de uns nomes “clássicos”, assim tipo “Francisco” e “Beatriz”, “Tomás” e “Clara”... Ah! Eu não gosto, não quero colocar nome de velho no meu filho! Tá vendo, a gente não dá certo, não dá, não tem jeito!!

Ainda bem que eu não to nem aí pra isso! Eu sei MUITO bem o que quero, sou independente, auto-suficiente e suuuuuper equilibrada! Olha o telefone tocando de novo!! Cadê minha agenda? Ih, esqueci a hora da reunião! Eu tenho certeza de que não comi aquela trufa, não comi!

Meu Deeeeus, ainda não são nem onze horas??? Minha analista, eu preciso ligar AGORA pra minha analista!!






Mais de Fábio Pegrucci no blog O Colecionador de Histórias



quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Casamento

Por Rafael Colombo, cronista convidado

















O período de preparação para um casamento é extremamente complicado. É muita coisa pra lembrar, marcar, provar, esquecer, desistir. Docinho, convite, música, etc.

Exige dos noivos fôlego de maratonista, elasticidade de ginasta e paciência de enxadrista. Eventualmente também o jogo de cintura do craque de futebol que dribla o mais temido dos zagueiros. Para escapar das enrascadas que vão surgir na longa trajetória até o altar. Situações que vão causar altas doses de constrangimento e vergonha como a que conto a seguir.

Minha angústia mais profunda era decidir logo onde fazer a festa. Afinal, queria um espaço bonito, charmoso, barato, acolhedor. Só isso.

Então, digitei no Google "locais para festa de casamento em SP". Apareceram umas mil respostas. De todos os buffets sugeridos, marquei visita em uns 20.


Mas, só fui mesmo em uns 5 ou 6. Deu uma preguiça imensa.

Entre os buffets que visitei, há um em que espero jamais aparecer novamente. Foi um caso de antipatia imediata. Sabia que aquele não seria o lugar assim que estacionei o carro na porta. Sei lá. Era só um sentimento que se confirmou assim que a porta abriu.

Fomos recepcionados, eu e minha noiva, por um rapaz muito educado. Mas muito educado mesmo. Sabem aquelas pessoas chatas, pegajosas, que pensam que estão agradando?

Era um desses.

Tudo o que eu não precisava àquela hora da noite, com fome e cansado após um longo dia de trabalho. Mal chegamos e o mala que guardava uma espécie de enciclopédia debaixo do braço começou a falar como uma máquina:

- Bem vindos à Vila Bizuki. A Vila Bizuki é um espaço que tem 80 anos. O piso é de madeira Batapuã, da Amazônia. Usamos no banheiro lavanda de rosas da França. Nossos funcionários são treinados no Centro de Treinamento da Vila Bizuki, de onde saem deliciosos quitutes.

Sem que pudéssemos respirar, ele olha para o teto e dispara:

- Vejam esse lustre. É uma espécie de talismã para nossa família. Era do meu tataravô, Giuseppe Bizuki, que veio da Europa...blá, blá, blá, blá.

Naquele instante, o único desejo que passava pela minha cabeça era ver aquele lustre desabar no chão.

-Vocês terão agora o prazer de conhecer a Vila Bizuki!

Novas portas foram abertas, observo dezenas de casais sentados em uma série de mesas. Era a chamada noite de degustação, em que todos os interessados em fazer o casamento são convidados para conhecer a casa. Ao mesmo tempo.

Pois bem.

Sentamos na nossa mesa. Docemente constrangidos sem saber o que esperar, quando o chato começa a falar sobre comida:

-Nossa cozinha possui o requinte da alta culinária do Mediterrâneo. Terão o prazer de conhecê-la. Depois de visitarem todos os nossos ambientes.


Com fome, passei uns 50 minutos visitando salões, corredores, sacadas. Vendo diferentes opções de decoração para cadeiras, diferentes formatos de velas.

-Vejam como fica a pista de dança com luz azul! Verde. Amarela. Roxa. Branca. Rosa.

Uma hora mais famintos, voltamos para a mesa.

-Agora vão conhecer as opções de serviço.

Começou a vir a comida. Salgadinhos, pratos quentes, doces.

- Enquanto degustam, vejam imagens de festas já realizadas aqui.

Ficaram na nossa mesa duas pequenas enciclopédias.
Com umas 500 fotos cada.

Terminamos a degustação.

O vendedor reaparece com um notebook.
Mas antes, diz em tom ameaçador:

-Daqui a pouco vamos testar a pista de dança.

O que será que ele quis dizer? Como será esse teste? pensei comigo.

-Vamos ver mais algumas fotos?

Recomeçou todo o sofrimento. Ele nos mostrou em um notebook dezenas de imagens de noivas saindo, noivas entrando, corredores com luz acesa, luz apagada, com flores jogadas no chão, sem flores jogadas no chão.

Bom, naquele dia conheci até o depósito de lixo da Vila Bizuki. Mas, o pior estava por vir.

-Vamos para a pista! – ele gritou um pouco empolgado demais.

Não acreditei no que estava vendo. Fiz duas ameaças de deixar o recinto, mas fui demovido pela minha noiva.

Com as mãos no bolso e um peso imenso nas costas provocado pelo sentimento de derrota que me atingiu subitamente observo que todos os outros casais estão olhando pra mim.

De pé, no centro da pista, ficamos eu, o chato e minha noiva.
Ao nosso redor, uns 10 ou 15 casais com cara de "vergonha alheia".

O DJ começa a tocar um som de discoteca. E eu com as mãos no bolso. Pregado no chão. Olho para o lado e o chato está dançando com os ombros. Tive vontade de agredi-lo.

Pedi para parar. Disse que já estava bom, mas ele queria mais.

Me fez atravessar toda a pista para encostar a mão na caixa de som e sentir a "vibe". Caixas que também vieram da Europa, segundo o chato que, por misericórdia, me deixou voltar para a mesa.

Estava suado.
Como se tivesse sido submetido a uma sessão de tortura.

Para encerrar bem a noite, ele faz um orçamento equivalente ao preço de um apartamento. Mas disse que podia negociar. Claro, um cara tão legal, tão bonzinho. Prometi avaliar e entrar em contato mais pra frente.

Nunca mais apareci.

Mas, como bom chato passou a me ligar insistentemente.
Até um dia em que disse que não haveria mais casamento porque havia sofrido um acidente e o dinheiro reservado para a festa seria utilizado para comprar duas pernas mecânicas.

Nunca mais me ligou.
Chato!







Mais de Rafael Colombo no blog RETRATO PAULISTANO


domingo, 13 de dezembro de 2009

Um brinde a abril

por Katiany Pinho, cronista convidada.

Quer coisa mais nonsense do que as pessoas tendo a obrigação de serem tomadas pelo espírito natalino?

Dezembro. Lá vai você comprar tralhas barulhentas pras crianças, perfume da Natura pra sua avó e algo melhorzinho pra sua mãe. Sem esquecer o esfoliante de canela da madrinha. É isso que você faz com o tão esperado fim de ano: passa os dias sob o ar-condicionado do shopping riscando nomes na listinha.

E ainda sai de lá com disposição pra ser natalinamente feliz nas 317 festinhas de confraternização. Seu nome está confirmado em todas. Longe de você parecer uma insensível, que não entra no amigo-secreto da turma do pré-2. É Natal. Emocione-se já.

Dezembro nos obriga a reencontrar tanta gente das antigas que fica impossível marcar com os amigos do dia-a-dia naquele boteco de sempre. Até porque eles também estão tentando cumprir a agenda de confraternizações. Ninguém está em casa, e o celular de sua melhor amiga não pega na ilhazinha em que ela foi passar o fim do ano se autoconhecendo entre os mosquitos. Ainda tem essa. Reflexões. É preciso fazer a famosa listinha de resoluções. Tá cumprindo a sua? Boa menina. Integrada ao grupo, com listinha de ano-novo e tudo.

No réveillon, a responsabilidade em ser feliz aumenta. Contagem regressiva pra palhaçada: champanhe no cabelo, bagos de uva entalados na garganta, aquela coisa toda. Ah, e os fogos de artifício. Fica todo mundo emocionado com o espetáculo de luz e cores. Esse ano foram 17 minutos de show. Que show, gente? Experimente ficar 17 minutos olhando nos olhos de alguém. Brilha muito mais.

Depois vem janeiro. Ninguém voltou pro corpo ainda. Fevereiro nem se fala: ziriguiduns e alalaôs ecoam até de sua gaveta de talheres.

Nada se compara ao prazer do meio do ano. Abril. Adoro abril. Julho, que lindo. Tá todo mundo em casa. Pode ligar: seus amigos atendem até o segundo toque. Só no meio do ano dá pra relaxar tomando um vinho descalça e ouvindo o Willian Bonner tagarelar de fundo. Você não está atrasada pras 317 confraternizações. Não tem a obrigação de ser ardentemente feliz e documentar tudo no Orkut. Um Miojo borbulha no fogão. Finalmente vai dar pra experimentar o Hot Sabor Barbecue. Que maravilha. Férias das férias. Ninguém precisa fazer pose comendo petit gâteau em restaurantes da moda. Ninguém precisa estar bronzeado, emocionado, entusiasmado. Em agosto, com sorte, se esbarra até em um grande amor. Aquele que você procurou em vão entre as sungas estampadas na praia. Salgada ilusão. Tá achando que os grandes amores não confraternizam?

Mas em agosto, não. Eles estão no trabalho, nas locadoras, nas salas de espera, nos bares, sentados em mesinhas da Coca-Cola.

É a vida acontecendo novamente.

Feliz meio do ano-novo pra você.





Mais de Katiany Pinho no site JORNALIRISMO


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mulherices recomenda: Dorotéia

Por Karina Lima


Respeitável Público, o Mulherices foi ao teatro: soldado Karina Lima destacou-se para o Teatro Gil Vicente, situado à sede da Uniban [Geyse, não!], para ver “Dorotéia”, do imortal Nelson Rodrigues. Para falar sobre ele, arriscamos que o tom anárquico de Stella Benevides cairia como uma luva: ela tem tudo a ver com Nelson, aliás...


“Dorotéia” deve ser, fica aqui a aposta, a obra mais ‘avestruz’ no rol de Nelson Rodrigues. Com ele no comando, um punhado de devaneios, sátiras, amarras e de medos pode morar em uma mistura brilhante e homogênea, com ajustada convivência. Por sua complexidade e irreverência, poucos corajosos se atreveram a montar peças com esse texto em especial, que é muito do lunático. Mas eis que Eloisa Vitz, na direção do Grupo Gattu, ousou e foi muito feliz nessa empreitada, senhoras e senhores.


Em poucas palavras, aqui o cenário para a peça: um denso pesadelo psicanalítico de repressão sexual – o fio da meada está no fato de que uma família de mulheres sofre, geração pós geração, de uma náusea que inibe seus desejos carnais. Um vôo panorâmico sobre um terreno de penumbra como a sexualidade feminina é algo que dá, certeza, pano para a manga!


Basicamente, a trama se forma com três viúvas que dividem o mesmo teto e vivem em luto: vestes escuras a la saco de estopa, aparência judiada, faces escondidas atrás de leques, dureza e pesar. Essas mulheres não dormiam para não sonhar com temas libidinosos... pode isso? Aquelas típicas tiazonas que incriminam o que os outros fazem de errado, que vivem em vigília, com suas escopetas mentais prontas pra atirar naqueles que saem dos trilhos socialmente aceitáveis


[qualquer semelhança com sua vizinha de muro pode não ser mera coincidência].



Em um belo dia [pelo menos lá fora], uma prima delas chega à casa: ela é Dorotéia – serelepe, periguéte, cheia de curvas e de pernas, vestindo vermelho, a cara da luxúria e da volúpia. Socorro, chamem a Polícia: Dorotéia quer morar com a família-já-morreu!



Dorotéia, em contraste com as primas recatadas, é o estopim para uma reflexão louca feita em 1949, mas que não poderia deixar de ser mais atual e, certeza, atemporal. Explico o porquê: naqueles tempos, e também nos nossos, reprimir desejos e viver o sofrimento e a clausura de forma ‘heróica’ são, ainda, comportamentos presentes na vida de quem quer se manter puro, saltitante, politicamente correto e livre do que é pecaminoso. Toneladas de sarcasmo acompanham uma montagem corajosa que prova por A + B que muitos se cercam daquilo que só adoece para não se permitir a audácia de sentir-se bem – náusea é culpa, é mal-estar condicionado, é medo declarado de perder estribeiras.


[as próprias tias puritanas são umas maníacas enrustidas, não se enganem!]


Enquanto o texto original apenas incluía mulheres, o palco do teatro tinha sensualidade de sobra – homens e mulheres transpiravam expressão, vida, voz e movimento. Em cena, os atores tiravam proveito até mesmo do espaço da platéia, abusaram de recursos sonoros, sutilezas de ambientação, reflexos e de luz – verdadeiros criativos fazem absurdamente muito com bem pouco, estejam certos.


Em um espetáculo repleto de adaptações inovadoras, releituras e licenças poéticas, algo muito genuíno se manteve bem vivo: um narrador totalmente espirituoso diz várias rubricas originais do texto: é a voz de Nelson Rodrigues imperando e dirigindo as falas e interações – o real equilíbrio entre o criado e o reinventado, uma sacada genial.


Contrastes entre o puro e o profano, o pesar e a leveza, a hipocrisia e a transparência: “Dorotéia” é o tipo de ‘interrupção’ que rende pensamentos inquietos por dias inteiros. A trupe do Mulherices faz reverência ao Grupo Gattu, e se alegra por ter vivido essa experiência, orgulhosamente compartilhada.


[Ah, e aqui vão os aplausos.]



Dorotéia, de Nelson Rodrigues, com Grupo Gattu

Direção de Eloísa Vitz

Teatro Gil Vicente

Av. Rudge, 315 - Campos Elíseos - São Paulo

Ingressos (preço promocional): R$ 10,00

Sábados, 21h - Domingos, 20h

(até 13 de dezembro)

Informações: (11) 3618-9014

www.grupogattu.com.br







Todas as imagens que ilustram este artigo são de Lenise Pinheiro e foram retiradas do site do Grupo Gattu.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ruanda

Por Stella Benevides

As meninas me contaram que meu texto contando a história da Zuzu Angel foi recorde de audiência no Mulherices. Eu não sei se acredito nisso, mas, se for verdade, até que fico contente. Eu não penso muito antes de falar ou de escrever, não. Acho que isso deve estar claro. Olhei pra minha felina-filha na noite do apagão e lembrei. Foi só.

Aliás, olhar para animais pode nos explicar muita coisa do mundo.

Você tem um gato aí? Não? Bom, eu tenho oito. E eu olho para eles e percebo que eles têm os olhos bem na frente do crânio. Os olhos dos gatos apontam para frente. Você tem uma vaca aí? Não, sua vizinha não serve. Uma vaca de verdade, tem? Uma capivara? Uma anta? Não? Bom, procure nessa tal de internet, acho que tem tudo aí. Olha bem pra vaca. Reparou? Os olhos dela são dos lados da cabeça! E por que isso?

- O personal stylist deles é diferente, Stellinha?


Não, imbecil. É porque o felino é predador e a vaca é presa. O predador olha pra frente porque é à frente que ele tem que ver. Porque ele ataca. A vaca tem os olhos dos lados da cabeça para ver melhor em volta. Para fugir dos predadores. O que fez isso acontecer foi a evolução das espécies, como explicou aquele senhor barbudo, que era a cara de Dom Pedro II.


- E daí, Stellinha?

E daí que eu acho que, se Darwin estava mesmo certo, em breve isso vai acontecer com as pessoas. Alguns vão continuar com os olhos apontando pra frente. Mas a maioria, pouco a pouco, com o passar das gerações, vai passar a ter os olhos apontando dos lados da cabeça, exatamente como as vacas, as capivaras e as antas.

Os grandes predadores mesmo, os que sempre tiveram e sempre terão os olhos apontando bem pra frente, são os que estão no poder. E vira e mexe, de acordo com os interesses que eles têm, eles dividem o povo, fazendo um lado acreditar que é predador e ou outro, presa.

Pra conseguir isso, é bem fácil.

Primeiro eles têm que se certificar que o lado que eles querem que acredite ser predador é a maioria. Eles têm métodos pra descobrir isso. Depois, eles enchem a cabeça dessa maioria, dizendo que eles são melhores, são superiores, são o orgulho da nação. E que os outros são degenerados, desonestos, ladrões, filhos-da-puta e que transmitem doenças. Pra isso vale tudo. Se eles têm rádio e TV então, fica facinho. Incitam, promovem confrontos, estimulam delações. Fazem um vizinho entregar o outro.

Se fizerem a coisa bem feita, fazem até a minoria acreditar que são mesmo uns fracassados nojentos e que merecem ser as “presas”.

Isso é fácil de fazer porque o povo quase sempre é idiota. E idiotas adoram ganhar de seus “líderes” um distintivo, uma medalhinha, uma besteira qualquer que mostre que eles são “bacanas”, que eles são melhores que os outros. Psicologia infantil, basicamente.

Quem usou muito bem essa engenharia foi aquele senhor alemão chamado Adolf. Olha bem pra cara dele. Se você acha que a única inspiração que ele deixou para as gerações futuras foi um modelo de depilação, está enganado! Canalhas de toda parte do mundo, mesmo os que parecem muito bonzinhos, aprenderam direitinho as lições desse alemão baixinho com cara de buceta.


Você pode achar que isso é coisa muito antiga e que não acontece mais no mundo. Acontece, sim. Você já ouviu falar em Ruanda? Não? Eu te mostro.

Essa é a África

Aquele pontinho vermelho é Ruanda

Ruanda é um paisinho de merda, que não produz merda nenhuma e fica encravado no meio das montanhas, sem saída pro mar. Durante a maior parte de sua história foi colônia da Bélgica. Os belgas, espertos como tio Adolf, pra controlar melhor o povo miserável de lá, os dividiram em duas castas, duas etnias inventadas: hutus e tutsis. Inventadas? Sim, inventadas. Não são divisões tribais, nem nada disso. Simplesmente separaram os que tinham a pele menos escura e os narizes menos largos e disseram: vocês são mais legais, vão ajudar a gente a governar e explorar esse povo miserável, vocês são “tutsis”! Os outros, viraram “hutus”, o povão, a galera. Um dia os belgas foram embora e Ruanda virou país independente, com os tutsis no poder.

Claro que isso ia dar merda.

Depois de duas décadas de quebra pau, a maioria hutu, liderada por uns abilolados, resolveu que solucionar os problemas do país era simples: era só eliminar todos os tutsis. Dominando a TV e as rádios locais, estimularam um tal “orgulho hutu”, bem do jeito que eu expliquei lá em cima, e incitaram a maioria a aniquilar a minoria. E eles saíram matando. A tiro, facada, machadada, paulada. Uma maluquice de vizinho matando vizinho. Grupos armados entravam nas vilas e massacravam todo mundo, inclusive velhos e crianças. Havia orientação especial para matar crianças, para que a “raça inferior” não continuasse. Mulheres tutsis, antes de serem mortas, serviam de brinquedo pras “tropas” hutus. Apurou-se que praticamente todas as mulheres tutsis sobreviventes foram estupradas. As cidades viraram necrotérios a céu aberto, com gente morta empilhada por toda parte.

Você, meio desligadinha, acha que eu estou contando uma história muito antiga, da época medieval? Não. Isso aconteceu em 1994, há apenas 15 anos, quando o presidente americano era Bill Clinton e até já existia internet.

A carnificina durou três meses. E em três meses, calcula-se que foram assassinadas um milhão de pessoas. Isso num paisinho daquele tamanho, onde, antes dessa história, viviam pouco mais de oito milhões de almas.

Então você deve estar pensando: ué, mas onde estavam os mocinhos, a cavalaria, a ONU, os marines, eles que se metem em tudo que é treta que acontece pelo mundo?

Pois é.

Americanos e ingleses não quiseram saber daquela merda, não. Nem se mexeram. Além de não terem se mexido, ainda fizeram tudo o que puderam para que a opinião pública mundial não soubesse o que estava acontecendo naquele cu de mundo. Atenuaram as notícias pra que parecesse só mais uma guerrinha num país miserável. Tentaram vetar a expressão “genocídio” nos noticiários.

E a dona ONU, com seus soldadinhos de capacete azul, fez o que? Fez uma operação relâmpago para tirar dali bem rapidinho, todos os estrangeiros. Hã? É você pensou certo: todos os brancos. E deixou Ruanda que se fudesse.

Ruanda não tem petróleo, nem nada de muito valor. Além do que, lá só vive uma gente preta e pobre. Quem liga pra Ruanda, né? Foi mais ou menos assim que eles pensaram.

Só pra você ter certeza: sim, a ONU é aquela entidade cheia de pompa, que gasta zilhões em campanhas mundiais de combate a coisas como o cigarro, a bebida, a obesidade e o consumo de açúcar. É de lá que saem essas leis idiotas que pipocam por toda parte e que os políticos pilantras de cada país dizem que foram eles que fizeram. Porque pra dona ONU é muito importante zelar pela saúde das pessoas, desde que sejam uns americanos gordos, umas velhinhas inglesas, uns canadenses branquelos, uns franceses viados. A ONU quer que essa gente viva muito e que gaste bastante dinheiro em remédio.

Ruanda?
Ah, foda-se Ruanda!

Um americano gorducho e hipocondríaco vale quantos ruandeses pretos, analfabetos e miseráveis? Hein, dona ONU? Uma vida não deveria ter exatamente o mesmo valor de outra vida?

E você, pensa o que disso? Você pensa com a sua cabeça ou aceita ser pau-mandado, agindo exatamente como esperam que você aja? Pense bem com que tipo de coisa você anda concordando, porque enfiaram na sua cabeça que era a coisa certa.

Você é tutsi ou hutu?
Você é predador ou é presa?
Tem certeza?

Por via das dúvidas, olhe no espelho todo dia de manhã, com bastante atenção.
Você sabe: pra ver se seus zoinhos não estão indo pros lados da sua cabecinha.



Dois ótimos filmes, foram produzidos sobre o "genocídio de Ruanda". Se você quiser ver, colocamos abaixo trailers dos dois.

"Hotel Ruanda" ("Hotel Rwanda" - Reino Unido/Itália/África do Sul - 2004)



"Tiros em Ruanda" ("Shooting Dogs" - Reino Unido/Alemanha - 2005)



domingo, 29 de novembro de 2009

Escuta essa!

Por Vanessa Pinho
Desde que o mundo é mundo [essa frase eu inventei agora] a música faz parte da vida da gente. Elas entram em nosso subconsciente e fazem misturas com o nosso dia a dia. Quem já não teve o [des] prazer de escutar Latino cantando festa no apê e ficou pro resto do dia cantarolando esse inferno? Se você não canta, você pensa, ou pelo menos bate com os pezinhos no chão. Quem já não pensou em cortar os pulsos escutando “Fiquei sabendo por outras pessoas que você não vai ficar comigo... Que pra você tudo acabou, fim de caso, fim do nosso amor. Então volta, e acaba de vez com essa angústia, e diga pra mim, pois não custa, que sempre vai me amar!” do falecido grupo Raça Negra? Isso é coisa que se diga? Se você recém-levou-um-toco de alguém, taííí o motivo que precisava pra amarrar a corda no pescoço e chutar o banco.

Fecho com Lulu Santos quando ele diz que Assaltaram a gramática, assassinaram a lógica!” Mas acho que ele se passa quando diz algo como “Eu falo com você, mesmo quando você não está. E mesmo sem te ouvir eu já conheço a resposta”. Brabo de ouvir uma coisa dessas depois de passar a noite esperando um filho de uma boa puta ligar, e, nada! O próprio Lulu viu que fez merda, e logo seguiu dizendo “Que filme mais antigo, que novelinha mais sem fim, que texto ruim!” Mas enfim, todo mundo tem seu momento “Me sinto só, me sinto só, me sinto tão seu!” Até Cazuza já cantou pro mundo suas dores contando que “Depois da última noite de festa chorando e esperando amanhecer, amanhecer...”

Música é tudo! Isso é fato. Mas é preciso tomar cuidado com o que se ouve. A música tem o poder de induzir a gente. Ok, talvez só eu ache isso. Lembro quando namorava o Edu e morria de medo quando tocava aquelas tralhas do tipo “Agora estou solteiro e ninguém vai me segurar, daquele jeito” ou “Sou praieroOO, sou guerreiroo, tô solteirooo, quero mais o quê ê ê!”. Era nesse momento que arrastava o coitado pra qualquer canto que não fosse possível ouvir com nitidez aquela merda ou puxava um bom assunto até a música acabar. Lembro também de quando terminamos, e os chatinhos do Papas da Língua começavam como aquela baboseira de “Eu sei, tudo pode acontecer, eu sei, nosso amor não vai morrer”. Eu sentia um buraco gigantesco dentro do estomago e todos os defeitos do Edu se tornavam tão pequenos diante dessa música. Mas aí vinha Ana Carolina e dizia “Hoje eu to sozinha e não aceito conselho, vou pintar minhas unhas e meu cabelo de vermelho” enquanto Martinália cantarolava no meu IPod “Não, não te quero mais. Agora eu que decido aonde vou. Ainda mais agora que eu vou viajar e me livrar de você. Não quero mais ser seu amigo, nem seu inimigo, NADA!” Ok, vocês estão certas! Não volto pro Edu. E pra ele mudar minha cabeça “Há! Vai ter que rebolar, rebolar e rebolar” Né não, Sandy?

E aí, quando já estava em cima do salto, pronta pra dominar o mundo, vinha Rita Lee e soltava “Ando meio desligada, eu nem sinto meus pés no chão. Olho e não vejo nada, eu só penso se você me quer” Pronto, agora fudeu, e eu já tinha de novo um bom motivo pra começar a amargurar a vida e sentir frio na barriga no domingo à noite, no caso.

Mas algo me fez ficar esperta [há quem diga que isso não aconteceu] e comecei a questionar certas coisas. Dona Ivete Sangalo, por exemplo. Muito cuidado com o que ela diz.Lembra aquele papo todo de “não precisa mudar, vou me adaptar ao seu jeito e blá blá blá”? Pura fraude. Ivetinha que me perdoe, mas essa música é mais mal contada que último capítulo de novela da Globo.

Não precisa mudar, vou me adaptar ao seu jeito. [Claro que precisa! Além do ronco, das músicas bregas que você costuma ouvir e do jeito de apertar a pasta de dente, precisa mudar também esse corte de cabelo que não fica muito bem pra você].

Seus costumes, seus defeitos. [O futebol de sexta feira com os amigos é a primeira coisa que entra em questão depois de passar a fase namoro de portão e McDonald's no sábado à tarde. Afinal, você prefere que seu namorado fique rodando igual um peru de natal com você por ai, não? E sobre os defeitos... O que você diria sobre toalha de banho molhada, jogada na cama depois do banho?].

Seus ciúmes, suas caras, pra que mudá-las. [Odeio quando você faz essa cara de idiota quando encontro com o Paulo. Ele é só um velho amigo. E o fato dele ser lindo, inteligente e carismático, não te dá o direito de ficar desse jeito].

Não precisa mudar, vou saber fazer o seu jogo, saber tudo do seu gosto, sem deixar nenhuma mágoa. [Eu não sou obrigada a gostar das mesmas coisas que você. Cada um faz o que gosta, oras, nascemos grudados, por acaso?].

Sem cobrar nada. [Você não tem paciência comigo, não me leva pra jantar em restaurantes bacanas, não percebe quando corto o cabelo, não gosta da minha família, não me leva no seu encontro com os amigos, e pô, eu quero casar! Há um ano e dois meses que você só me enrola].
Então você adormece, meu coração enobrece e a gente sempre se esquece de tudo que passou. [Só quero que você saiba que aquele sábado que você disse ter ficado sem bateria no celular, não vai ficar assim].

Mas suspeito que algo de errado aconteceu no Romance Fabio Junior mode ON de Ivete. Porque depois de um tempo, ela apareceu toda encrespada gritando pro mundo ouvir “Então não me conte seus problemas...”

Ok, Ivete, a gente sabe bem como é! Mas quando o assunto é blá blá blá, lero lero e verdades inventadas, dona Ivete não anda sozinha.

“O orelhão da minha rua, estava escangalhado, o meu cartão tava zerado, MAS VOCÊ CRÊ SE QUISER!” [Sim, isso você fala na nossa frente. Duvido que depois você também não mande mensagens implorando desculpas com aquela cara de bobalhão que todo homem sabe fazer]

“Quando a gente ama, não pensa em dinheiro, só se quer amar, se quer amar, se quer amarrr!”
[Legal. As contas no final do mês criam pernas, vão até o banco e se pagam sozinhas, um barato!]

“Eu sei, eu sei, que esse caso tá meio mal contado. Mas você pode ter certeza, nosso amor é quase sempre perfeito” [Haaa, sim Lulu, a gente sabe]

“Sei que nunca fui perfeito, mas por você eu posso ser.” [Haaa, que bonitinho]

“Será que amar é mesmo tudo?”
[Isso, amar é tudo!]

“Se você quiser eu vou te dar um amor, desses de cinema, não vai te faltar carinho, plano ou assunto ao longo do dia”
[Haaa, adorei! E continua, peraíí´] “Se você quiser eu largo tudo e vou pro mundo com você meu bem! Nessa nossa estrada só terá belas praias e cachoeiras.” [Não é tudo?]

“Entre as coisas mais lindas que eu conheci, só reconheci suas cores belas quando eu te vi”
[No início é assim, uma beleza!]

E por último, e não menos cômico: “Meu amor é só seu, seu amor é só meu, nosso amor é assim. Eu só sei te querer, também sei que você só tem olhos pra mim” [Eu gosto é de gente assim, feliz!]



sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Princesologia Aplicada

Por Karina Lima

A verdade nua, crua, implacável e galopante pode não agradar, mas preciso lhes dizer: Princesas são verdadeiras anti-heroínas. Sim, elas são assim.

[É agora que entra aquela trilha sonora sinistra]

Princesas não fazem, sempre, ares de languidez e mistérios: às vezes, elas não estão entendendo é nada. Estão mais perdidas que cego em tiroteio, quase pedindo ajuda aos universitários, prestes a tomar chá de bússola pra orientar algumas (poucas) idéias trôpegas em meio a uma situação corriqueira qualquer.

As Princesas nem sempre querem se portar como damas. Pelo menos por alguns instantes, em ocasiões escolhidas, elas buscam intensamente despertar suas vacas-mimosas interiores, mandando a recomendável e boa postura pros diabos, acionando a fatia ‘Periguete’ do córtex, de propósito. Aí vale o batom reforçado, o vestido, o balanço sinuoso das cadeiras.

[Vai madrecalcutar e dizer que é tudo mentira? Oká, vá em frente...]

Princesas nem sempre são bonitas pela manhã. Elas acumulam remelas. Quando somadas a restos de lápis de olho então, a situação fica mais crítica ainda. Se a maquiagem não tiver sido retirada na noite anterior... misericórdia! Algumas babam, outras roncam. Outras despejam grunhidos incompreensíveis no cair da noite.

[Alto lá, não me refiro aos ruídos incompreensíveis que vocês pensaram agora!]

Às vezes, Princesas têm vontade de mandar tudo às favas: as cobranças intermináveis, o estigma de ser-100%-em-tudo, as formalidades, as chatices, a politicagem barata. Elas têm, às vezes, vontade de ser selvagens, de não pentear a cabeleira e usar garfo quando bem entenderem, e se entenderem por bem.

Acreditem: as Princesas têm problemas estomacais. Flatulências, prisões de ventre, piriri, vômitos, azias, queimação. Até aí, tudo bem: isso é involuntário. E aquelas que arrotam de propósito? Ah, e tem Princesa por aí que jura que jamais dormiu uma só noite nessa vida sem tomar banho, sendo que eu aposto o meu próprio pâncreas que não há ninguém nesse mundo que nunca tenha feito isso por livre, espontânea e porca vontade.

[Acho que isso está ficando sórdido demais. Sigamos pra próxima pauta.]

Princesas choram sem motivo aparente, chegam até a irritar: com filmes fofos, episódios cotidianos, correntes de e-mail, pensamentos amorosos-teimosos – de catástrofe generalizada a embalagem de Tang, tudo é motivação para que elas derramem seus baldes de água salobra por aí.

Algumas Princesas são bem egoístas: não dão passagem no trânsito, param em fila dupla, possuem seta como elemento opcional no processo de direção. Outras são tão histéricas e cabeças-de-titica que provocam nos outros um sentimento genuíno de cometer um Princesocídio, a começar pelo Princesocida arrancar todas as unhas das mãos delas com um alicate mecânico. Isso aí mesmo, gente do bem: com requintes de crueldade.

Há dezenas de Princesas descoladas e desbocadas, daquelas que possuem vasta e rica lista de palavrões úteis, sabendo como empregá-los com sapiência e eloqüência invejáveis. São metralhadoras boca-suja nessa arte terapêuticas. Sorte delas, que provavelmente evitarão úlceras e uma série de outras complicações de saúde futuras.

Muitas Princesas acreditam em barbaridades e histórias da carochinha: testes de química entre pares, teoria de que o formato da mão determina o futuro amoroso, e por aí vai. Outras Princesas, por sua vez, são doentes de curiosidade, Fifis profissionais e inatas, daqueles tipos que olham fixamente quando vêem duas pessoas se beijarem a la desentupidor de pia, que acham que segredos ficam bem-guardados quando são distribuídos a muitos donos, que ouvem conversas por trás da porta, que torturam outros seres humanos em busca de resgatar babados novos.

[Essa Tábua de Verdades Inescapáveis vai se auto-destruir em 10, 9, 8...]

Pensando cá com os meus botões: o que essa trupe de Princesas tem de genial, então? Sinceramente, não sei como os Príncipes se apaixonam por elas... tá, na verdade, acho que arrisco um palpite: vai ver que o que tem graça mesmo nessa vida é a arte de ser semi-incrível.


DIRETO DA REDAÇÃO...
a Karina pensa que o vídeo a seguir tem tudo a ver com essa prosa!


Ciranda da Bailarina, de Chico Buarque & Edu Lobo, por Adriana Calcanhoto (2009)







sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Zuzu

Por Stella Benevides

Foto: Enio Gonçalves

Se vocês acharam que eu ia perder meu tempo falando sobre meninos esquisitinhos de hoje em dia que ficam FURIOSOS quando vêem uma menina de vestido curto, se enganaram. Eu não tenho estômago pra isso. Nem EU tenho!

Se acharam que eu daria continuidade às “lições” daquele último textinho despretensioso, chamado “O amor segundo Stella”, se enganaram também. E olha que, segundo me disseram as meninas, aquilo serviu de sessão de terapia pra várias pessoas! Elas me disseram, eu achei engraçado. Disseram também que, após lerem meu textinho, ficaram em pânico com medo da “reação” dos leitores – e discutiram longamente, durante dias, se deveriam ou não publicar! Elas me contaram, eu achei engraçado. Mas não estou com paciência essa semana pra bancar a terapeuta.

Sei que elas já estavam ligando pra me infernizar:

- Tem que entregar o texto até sexta-feira, Stellinha! Não esquece!!

Até hoje eu não sei como e porque vim parar nesse tal de “blog”. Mas resolvi que tiraria a noite de terça-feira para escrever. E que escreveria sobre um assunto bem sério! Sentei-me em frente à Remington, uisquinho de um lado, cinzeirinho do outro. Pedi que meus guias me enviassem bastante inspiração, respirei fundo, coloquei os dedos no teclado e ... BUM! Apagou a luz!

- PUTA QUE PARIU!

Apagou a luz no mundo! Durante um tempo ouviu-se algazarra, buzinas, gente falando e gritaria dos travestis lá do outro lado da avenida. Depois, fez-se um silêncio sepulcral. Só um ou outro carro, passando de vez em quando. Escrever à luz de velas, nem pensar! O assunto sério, eu esqueci. Restou o uísque e o cigarro. E o silêncio.

E passar a madrugada conversando com minha querida felina-filha.

Eu sei que alguns podem me achar uma velha doida, mas quem conhece gatos sabe o quanto é possível conversar com eles, às vezes só pelo olhar. Porque quando um gato te olha, ele vê “além”. E cabe a você também enxergar e ouvir “além”, se você quiser mesmo conversar com ele.

Um dia eu falo mais sobre isso.

Hoje eu só vou contar que ficamos conversando, ela e eu, sobre quando e como nos encontramos. Lembramos que ela estava escondida num buraco de muro, magrinha e suja, e que de lá não saía por nada. Durante dias eu passava por lá, lhe deixava algo para comer, mas nada dela sair, nada de querer vir pra casa comigo. Guardava o buraco como quem protege um tesouro. Só uma semana depois, conquistando um pouquinho sua confiança e com muito cuidado, eu descobri seu segredo. Eu já desconfiava. Ela tinha um bebê. Só um. Mas estava mortinho o filhinho dela. Estava mortinho já há uns dias. Durinho, sequinho já. Mas ela não queria sair de lá. Ela não queria sair de lá sem ele.

Não tive outra solução a não ser levá-la pra casa numa caixa de papelão, junto com o bebê morto. E foi com muita paciência que eu consegui, pouco a pouco, separá-la dele. E enterrei o pequeno no fundo do vazo grande de antúrios da área de serviço. Numa plaquinha de madeira escrevi “Stuart”. E desde então ela mora comigo, com o nome que eu já sabia que lhe daria: Zuzu.

Se você conhece um pouco da história recente deste país, sabe do que e de quem eu estou falando. Se não sabe, vou te contar que a Zuleika Angel Jones (foto) foi uma estilista de muito sucesso e que vestiu até peruas americanas e estrelas de Hollywood. Mas não foi por isso que ela entrou pra história. Quando eu a conheci, há mais de 30 anos, ela andava por aí, dizendo a quem quisesse ouvir, com coragem de leoa, que os militares tinham seqüestrado e matado o filho dela. Ela sabia até onde e quando. Ela sabia até de que forma o tinham matado, sufocado pelo escapamento de um jipe, arrastado pelo pátio de um quartel. Sabia até quem o havia matado. Ela só queria os autores responsabilizados. E ela queria o corpo, ela queria enterrar Stuart.

Ela não sabia nada de política. Ela não queria nada com política. Ela mal entendia porque razões o menino dela tinha se envolvido naquilo. Ela só sabia ser mãe. E fez um barulho tremendo por aí, por muito tempo, na sua busca. Isso, naquela época em que muitas notícias de jornal eram substituídas por versos de Os Lusíadas ou por receitas de bolo.

Um dia, ela endereçou uma carta a um amigo dela, um moço bonito de olhos verdes, chamado Chico Buarque. Na carta, ela dizia que, caso ela aparecesse morta, teria sido obra dos mesmos assassinos de seu filho. Pouco tempo depois, quando ela despencou numa ribanceira com seu Kharman Guia azul, na saída do Túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, Chico, com a ajuda de outros amigos, fez sessenta cópias da carta, em máquinas de escrever diferentes, que depois foram jogadas fora para não deixar pistas. E despachou para jornalistas, de diferentes agências de correio. Não saiu nem uma linha, em nenhum jornal.

Só muitos anos mais tarde, a história verdadeira veio à tona. Ela foi assassinada. O corpo de Stuart jamais foi encontrado. E o Túnel Dois Irmãos, no Rio, foi rebatizado para “Túnel Zuzu Angel”.

O Chico fez uma canção linda, chamada “Angélica”, que fala de uma mãe que quer ninar seu filho, mas que ele mora na escuridão do mar. Porque era assim que os milicos se livravam dos cadáveres. Numa outra canção, chamada “Cálice”, ele incluiu um verso em que diz “quero cheirar fumaça de óleo diesel”. Quase ninguém entendeu, mas ele estava falando do Stuart, intoxicado até a morte.

A minha Zuzu-felina também não entende nada de política. Ela só entende de ser mãe. E, nesse nosso papo silencioso na noite do apagão, me disse que sente saudade do bebê dela. Mas disse também que agora ela entende o que aconteceu.

E você, jovenzinho que lê esses tais de blogs, que acha que ditadura é coisa do passado e lembrança de velho, olhe em volta e pense um pouco. Eu sei que às vezes dói, mas tente, você consegue! Pense em como seu comportamento, seus gostos e seus hábitos são “modelados” sem que você se dê conta. Pense em quantas regras idiotas você é convencido a respeitar. Quantas “verdades verdadeiras” você engole sem discutir. Pense nuns moleques – e molecas! – imbecis que, em bando, partem pra cima de uma menina, supostamente ofendidos por um vestido curto.

Pense.

Os monstros mudam de cara.
Apenas de cara.

Esse vídeo carrega um pouco de tudo: a comovente canção do Chico, imagens reais de Zuzu Angel e cenas do filme de Sérgio Resende ("Zuzu Angel", 2006). Stella quer muito que você o veja!








sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mulherão

Por Vanessa Pinho

Hoje, mais do que ontem, e muito menos que amanhã, as frutas e legumes saíram da feira e ganharam o mundo. Elas estão por toda parte. Jornais, revistas, sites de tudo que é tipo, até no programinha matinal, lá estão elas, exibindo suas curvas e sendo chamadas de: mulherões! Não que eu seja contra, muito pelo contrário. O que é bonito deve ser mostrado! E se der pra ganhar dinheirinho mostrando... ôpa!

Mas no meio de tantas frutas e legumes, fica a pergunta: o que define um mulherão?

Mulherão sou eu, que trabalho todos os dias e noites e ainda acabo sonhando com a conta do telefone que vai vencer dia vinte, e com a comida que esqueci de tirar do congelador.

Mulherão sou eu que arrumo a casa, levo o lixo pra rua, troco lâmpada, varro o quintal e ainda consigo estar feito Barbie no evento de sábado a noite.

Muitas coisas se escondem por trás do salto alto e do sorriso que não falta NUNCA no rosto de todo mulherão de verdade. Manter a meia calça fio 15 intacta depois de arrumar as crianças pra festa, alguém aí já tentou? Mulherões, elas conseguem.


Mulherão sou eu, que acordo, tomo café em ritmo de Fórmula 1. Arrumo as crianças pra escola, dou banho, dou almoço. Explico coisas do tipo: o que é fracassado? O que é conseqüência? Quantos dias faltam pro Natal? Por onde Papai Noel vai entrar se não temos chaminé? Crianças adoram perguntar essas coisas quinze pra meio dia.

Escovo os dentes voando.

Não moço, não quero um cartão que vai me dar mil bônus e facilidades. Facilidade pra mim só se o dia tivesse 30 horas ou uma vassoura mágica. Dá pra ser? Esses vendedores de cartões de crédito não entenderam ainda que facilidade hoje em dia é outra coisa.

Levo as crianças pra escola.
Corro pro trabalho.
Preciso terminar isso tudo até as 18:00 [status OFFLINE no MSN].
Depois eu ligo pra reclamar dessa porcaria de internet que só cai.

Saio do trabalho.

Eu tenho 20 minutos pra fazer minha unha no salão antes de pegar as crianças na escola. Não vai dar tempo! [Mulherões esticam o tempo, você não sabia? Claro que vai dar].

Chego ao salão.

Moça, eu tenho apenas 20 minutos pra fazer minha unha.
Minha manicure conversa tranquilamente com a amiga manicure ao lado. Elas falam sobre o final de semana que passou, o que acaba dificultando o processo nas minhas unhas.

- Visse guria, a Cráudia tá de namoro novo. Mal saiu de um, já tava com outro. Esse mundo tá perdido.


Caraiooooo, meu! Não sou uma pessoa ruim, mas não quero saber o que elas fizeram no final de semana. Não quero saber sobre a vida amorosa da Cráudia. Quero pintar minhas unhas, tem como? Começo a bufar e bater os pezinhos em protesto [sempre funciona].

De vermelho. Pode pintar de vermelho. Eu insisto em pintar minhas unhas de Gabriela mesmo sabendo que não vai durar três dias... Lavar louça, arrumar a casa [todos] os dias... Definitivamente, ser mãe e ter o esmalte impecável, são coisas que pertencem a mundos paralelos.
Saio balançando as mãos. Esse esmalte precisa secar até chegar em casa.

Pego as crianças na escola.

Sabia que estava esquecendo alguma coisa. E essa coisa tem nome: reunião de pais.
O cinema com as amigas vai ter que ficar pra amanhã. Hoje vou ter que ficar pra reunião da escola.
E fico ali, enquanto minha cabeça se divide entre as novas regras do colégio e o que vou ter que preparar para o jantar. Ainda preciso passar no mercado e comprar umas coisas que faltam. Mas nem fudendo que eu fico nessa fila.

Só sendo um polvo pra dar conta de fazer tantas coisas de uma só vez.

Chego em casa... Banho, janta, confiro os deveres das crianças e os bilhetes da agenda enquanto cuido pro bolo não criar pé. Amanhã tem festa na escolinha e ainda nem pensei na fantasia.

Pra cama todo mundo!

- Crianças, me contem uma historinha, por favor?
- Tá, tá, deixa que eu conto.


Deito na cama.
Meu Deus, esqueci de pagar a mensalidade da escola. Dá-lhe juros!

Acordo pra ver se está tudo bem.
Durmo.
Acordo pra ver se as crianças estão cobertas.
Durmo.

Amanhã começa tudo de novo.

Meu corpo não está estampado em revistas como carne no açougue, mas sem dúvida nenhuma: mulherão sou eu!




domingo, 1 de novembro de 2009

Sorriso de hoje, por muitos hojes

Por Karina Lima
O clique genial do fotógrafo que imortalizou a leveza de um conjunto de dunas na Namíbia me aprisiona por alguns instantes – o pensamento que pipoca em minha mente é de que a Mãe Natureza é dona de uma fotogenia que chega até a ser covarde, de tão grande.

O sol invade, sorrateiramente, a vidraça. Mais uns passos adiante no largo corredor, de claridade e limpeza gigantes, e me deparo com um modesto mural onde questões como campanha ambiental e ação papa-pilhas são fortemente divulgadas por um Comitê de Ética. O sentimento que me invade é de que os homens podem ser criaturas admiráveis quando tomados por nobres causas. Aquele tal negócio: benditas sejam as exceções nessa vida...

Mais alguns passos despretensiosos, e encaro uma gravura linda de Kandinsky: na hora, me vem o retrospecto daqueles finais de tarde que costumo passar na Livraria Cultura fuçando livros de arte, revistas de música, ouvindo CDs novos e lendo tiras de Mafalda, Calvin e Haroldo – atualmente, eis aí um de meus passatempos favoritos, confesso a vocês. E se isso tudo for arrematado com um bom expresso, taí a construção de um momento perfeito.

O ritual começa: hora do armário. Livros, revistinhas, giz de cera, desenho, jogos, fantoches. Avental, trança e flor pra ornar a cabeleira: estou no Hospital Abril Sodré, uma das unidades da AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente. No calendário, hoje é a vez do sábado. A calmaria do ambiente hospitalar fora interrompida pela transmissão do Teleton 2009, e meu olhar acompanha o ronco entusiasmado do motor de um ônibus cujo destino era justamente a sede do SBT, levando pequenos pacientes e seus pais. O tema da maratona televisiva desse ano é ‘Eu me movo’. Por falar nisso, era dada a minha hora de partir para a ação. Respirar, fazer uma prece, esboçar aquela pose de auto-confiança, lançar-se àquilo que, sem demagogias, sempre foi um real sonho.

Elevador – disfarço meu pânico diante dessa geringonça detestável enquanto observo a montanha de materiais em meus braços – aleluia, agora estou no andar! Na recepção do piso público do hospital, o time de contadores de histórias se encontra e saúda calorosamente. Enquanto isso, reflito que o movimento de Humanização Hospitalar chegou, mesmo, para ficar.

Logo no hall, veio a primeira boa surpresa da manhã: Gabi, no alto de seus gloriosos 9 anos (e não é que pareci o Faustão falando isso?), recupera-se de mais uma cirurgia e espera por um aparelho caríssimo, via doação. A cadeira de rodas dela é podre de chique: rosa-bebê, cor do enxoval da Barbie. Ela telefona para os irmãos (tem quatro deles), fala pelos cotovelos, bracinhos cortando o ar como se eles pudessem vê-la: a Gabrielle gesticula horrores, e é só sorriso, veste-se dele da cabeça até os pés. Após o tal alô pra parentada, descubro que essa pequena notável é craque no dominó dos bichos: perdi três partidas praquela ferinha, só para começar essa prosa. Dela, ganhei um desenho que foi parar num caixote de madeira em que guardo meus maiores tesouros. O iceberg ambulante aqui conteve o choro: crianças são minha grande fronteira emocional. Limitação, onde? Esses anjos são vivos, cheios de talento, carisma e esperança – a gente não sabe é de nada.

Com o Mateus, em seguida, o desafio foi ainda maior: imóvel, com sonda e visível incômodo, ele choramingava e não queria almoçar nem com reza braba. Aqui está a magia: alguma negociação, histórias de terror (ah, eles ainda temem a Loira do Banheiro!), lições leves sobre a importância de uma boa alimentação pra voltar para casa e rever a vovó, que veio da Bahia para vê-lo... e eis que o mocinho de pouca idade e olhar encantadoramente doce aceita as primeiras garfadas dadas pela mãe que, nos olha com ternura e vibra. Ele come, bebe e brincamos de procurar Wally em um livro de figuras – fiz isso demais quando também era pequenina.

Debruçada ao lado da cama, presencio genial cena: o primeiro sorriso que quebra o jejum de um período difícil, de dor e recuperação. Aí, o clima só melhora: falamos de videogames, desenhos, super-heróis. “Sabe, tia? Meu pai não me deixa jogar Harry Potter, não: coisa do capeta, ele sempre diz!” – aí, quem ri sou eu: espirituosos sem querer, eles são assim, essa espontaneidade toda, esses frágeis milagres materializados.

Os ponteiros do relógio correm como maratonistas, e minhas duas horas semanais de voluntariado terminam. Objetivo simples, porém fundamental, alcançado: levar sorrisos hoje. Ali aprendo e divido que as melhores histórias do mundo são aquelas que aprendemos contando – nem engolindo um dicionário eu teria palavrologia suficiente pra explicar esse lance delicioso e divino. O inefável coração, nessa movimentação toda, quase voa goela afora, batuca feito escola de samba, e manda um SMS pro cérebro dizendo: “Tô bem vivo e palpitando”. Ô, se tá. * Para fabricar sorrisos por vários hojes, acesse: www.vivaedeixeviver.org.br.

domingo, 25 de outubro de 2009

O Amor segundo Stella

Por Stella Benevides
Mesmo sem eu resolver se vou ou não fazer a tal da coluna “Stella Responde”, já estão chegando “cartinhas” pra mim, com perguntas. Pode isso? A Karina veio aqui em casa com o computadorzinho portátil e me mostrou. E fica me infernizando:

- Responde, Stellinha! Responde!

Saco.

Eu não consigo resolver nem as questões aqui do condomínio felino, do qual eu sou a síndica. Agora, Paulo Salim deu pra derrubar das vasilhas a comida dos outros. Depois ele deita em cima e fica me olhando, na maior cara de pau, como quem diz:

- A comida sumiu, foi? Eu não sei de nada. Não sei o que é isso debaixo de mim. Não é meu. Não fui eu. Inclusive, esse gato deitado em cima da comida também não sou eu!

As perguntas que chegam são quase todas de mocinhas em busca de um tal de “amor”. De um jeito ou de outro, sempre acaba nisso. Ai, que tédio.

- Responde, Stellinha! Responde!

Isso não vai dar certo. Isso não pode dar certo. Eu vou explicar porque.

É que eu jamais vou dar o tipo de resposta ou de (credo!) “conselho” que suas mães dariam, entenderam? Aliás, se você quer mesmo saber o que é o tal do “amor”, a primeira coisa que deve fazer é parar de ouvir o que sua mãe fala. Esqueça a idéia de que “mãe sabe tudo”. Mãe não sabe nada! Mãe sabe te ajudar se você está gripada, com cólica ou não sabe que roupa usar na festa. Pra encontrar homem pra você sua mãe nunca vai ajudar. Não é porque ela seja burra ou velha. Não. É porque o fator mãe sempre vai se sobrepor ao fator mulher. Então, pra ela, homem bom pra você sempre vai ser um que, na visão dela, possa te proporcionar uma existência tranqüila, sem sobressaltos. Um que te “respeite”. Um que não vá te fazer sofrer. Um sem vícios. Que tenha bom emprego, boa família e blablabá.

Visualizou, né? Um sujeito branquinho, arrumadinho, penteadinho e limpinho. Daquele tipo que você manda passear dez vezes e dez vezes ele aparece no dia seguinte, na sua porta, com flores. Um tédio. Sua mãe quer alguém pra cuidar de você, que bonitinha! Não quer nem saber se o engomadinho sabe te comer. Sua mãe quer te ver protegida.

Mas não é disso que estamos falando, né?
Bom, pelo menos não é disso que EU estou falando.

Não estou falando de marido. Eventualmente pode até ser, mas não é esse o assunto. Eu estou falando de uma coisa que quase sempre dura pouco. Será que você está captando?

[Bom, se você não está interessada, aproveite agora e mude de blog. As meninas me falaram que existem muitos blogs escritos para o tal do “universo feminino”. Vai, sai. Vai procurar um que seja bem cor-de-rosa e não me amole mais!]

Se você ainda estiver aí, vou te dizer que o sujeito que vai te fazer ter tremeliques provavelmente não terá nada a ver com o modelo desejado pela sua mãe. Provavelmente será alguém que você nem sequer apresentará à sua mãe. Porque ele pode ser estranho, torto, meio maníaco. Talvez até seja pobre. Certamente nem é bonito. Talvez se vista de forma esquisita, talvez não te trate muito bem, talvez seja muito mais velho que você. Talvez tenha uma ex-esposa esquizofrênica ou uns filhos insuportáveis.

Não importa.

Esqueça esse papo furado sobre vícios. Sua cama não é igreja. Nem consultório médico, né? Se o sujeito é todo certinho, só come comida natural, não bebe, não fuma, não joga, é batata: também não trepa!

Esqueça também a história sobre “respeito”. Homem não respeita. Ele respeita a mãe, a avó, talvez a prima, se ela for gorda. Não a mulher que ele quer. Se você saiu com o sujeito, foi parar na casa dele e nada aconteceu, esqueça: não é esse o cara. Esse é meio bicha. Ou muito bunda mole. Ou, se não for nem bicha, nem bunda mole, é pior: ele não te quis mesmo e não vai te ligar nunca mais.

Filhinha, entenda afinal sobre o que é que eu estou falando: amor é o efeito colateral do sexo. Mas não de qualquer sexo. Eu falo daquele sexo. Você só ama mesmo alguém com quem tenha essa “coisa”. E, a menos que você seja uma adolescente idiota que lê Capricho e assiste Malhação ou tenha a idade mental de uma e precise flexionar o verbo “ficar”, sua ridícula, para se esgueirar das palavras certas, sabe do que é que eu estou falando.

Bom, talvez não saiba.
Talvez não saiba ainda.
É: talvez nunca chegue a saber. É um risco.
Eu não posso fazer nada por você.

Eu só sei que esse cara, esse de quem estou falando, esse que é todo diferente do genro que sua mãe sonhou, é quem pode te apresentar “isso”. Desde que você deixe de sonhar com um mundo cor-de-rosa, esqueça o conceito picareta de “ah, ta na hora de fisgar alguém!”, pare de achar que o tal do “amor” é uma linha de chegada. Definitivamente entenda que o amor não te leva ao Paraíso. Se você quer chegar ao Paraíso, vá de metrô, que é barato, rápido e não tem trânsito. Ou, se você é uma muçulmana fundamentalista radical, desse povo maluco que quer explodir tudo, enfie uma dinamite na piriquita e acenda o pavio. Pronto, você vai chegar ao Paraíso. Alá vai estar te esperando na porta. Alá, não seu homem.

Esse cara muito provavelmente é alguém que você jamais verá após um almoço de domingo, conversando sobre futebol com seu pai – mas é um filho-da-puta descarado, que só de pegar no teu braço e te falar duas ou três indecências no ouvido, vai te deixar melada. Ta bom pra você?

Por esse cara – e por essa “coisa” que você tem com ele – você vai perder a hora dos compromissos, vai perder objetos, vai perder peso, vai ficar meio idiota. Mas vai adorar enquanto durar.

Uma pena que nem fabricam mais desses. Sei lá, eu acho que não fabricam. Saíram de linha. Os poucos que ainda circulam por aí são exemplares já bem rodados, quase se aposentando. Uma pena. E não há peças de reposição. Pra achar um em bom estado de conservação você tem que ter muita sorte.

Tente, quem sabe?

Mas, se você sonhou a vida inteira com um príncipe bonzinho e meloso, sempre pronto pra te homenagear e beijar seus pés em público, saiba que esse cara não vai fazer isso. Mas é bem possível que te diga coisas capazes de te fazer sentir a mais importante, a mais especial, a mais gostosa e a mais desejada das mulheres sem passar nem perto dos clichês idiotas das historinhas românticas. Ele vai te fazer uma declaração de amor de arrasar quarteirão, sem nem sequer mencionar a expressão cretina “eu te amo”.

Como faz esse dinossauro remanescente da raça, o Domingos de Oliveira, nesse textinho lindo aí:

Vamos ter um filho?
Vamos escolher o nome dele?
Deixa eu te alegrar quando você estiver triste?
Te ninar quando você estiver cansada?
Vamos foder o dia inteiro?

Deixa eu te fazer uma massagem com creme?
Vamos aprender a tocar piano juntos?
Vamos foder o dia inteiro?

Deixa eu ajoelhar, Glorinha, e beijar tua mão?
Vamos ser tão felizes que fiquemos calmos?
Tão calmos que fiquemos fortes?
Tão fortes que possamos ajudar todos os amigos que precisarem?
Vamos foder o dia inteiro?

Vamos aceitar tudo o que o outro é?
Defender tudo o que o outro é?
Amar tudo o que o outro é?
Vamos foder o dia inteiro?


Se isso não é a maior declaração do mundo, eu não sei o que é. O que pode ser mais enternecedor do que alguém te propor a aceitar, defender e amar tudo o que o outro é e depois te pedir pra foder o dia inteiro?

Eu vou parar de falar. Tomei três doses de Ballantine´s enquanto datilografava. A partir da quarta eu corro o risco de ficar ligeiramente emotiva. E isso não faz parte do meu contrato com o Mulherices.



DA REDAÇÃO

A pedido de Stella Benevides, procuramos e encontramos duas versões da “maior declaração de amor do mundo” em vídeo.

A primeira é com o próprio autor, Domingos de Oliveira, em cena do filme “Separações”



A segunda, em versão musicada, é com Alexandre Nero, no Programa do Jô.



E se você quer saber mais sobre o escritor, ator, dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, é só clicar AQUI.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Assunto

Por Stella Benevides

Eu sei: andei meio ausente do tal do “blog”.

As meninas já estavam me infernizando e, para me incentivar, até inventaram de novo que um monte de gente leu as melecas que eu escrevi há algumas semanas e que já tem um bando de insensatos querendo saber quando é que eu vou começar a sessão “Stella Responde”.

Meu sumiço não teve motivo algum, não.

Não viajei, meus oito felinos-filhos exigem dedicação integral.

Não fui seqüestrada, não há seqüestrador tão burro.

Não fiquei doente, embora os pentelhos do bom comportamento adorariam saber que caí de cama, vitimada por um enfisema, uma cirrosezinha ou, pelo menos, uma súbita manifestação alérgica a pêlos de gato que me fizesse espirrar até meu nariz se transformar numa alcachofra.

Nada disso.

Só andei mesmo sem assunto.

Aliás, estar sem assunto, aparentemente, é uma epidemia nacional.

Assim, no dia-a-dia, na padaria, no ponto de ônibus, na rua, não se ouve das pessoas nada que preste. Nada de original. Ninguém pensa mais. O povo por aí se limita a replicar os assuntos inventados na TV. Sim, porque isso para mim está claro: virou e mexeu, um assunto nacional foi inventado. Pode ser o diabo de uma lei idiota feita para proibir alguma coisa. Um político de quem, como que por encanto, descobrem-se uns podres e o malandrão, que está enfiando a mão na cumbuca há 50 anos, vira o Judas da vez. Ou um novo bordão de novela (“Hare, Baba”, puta que pariu, não agüentava mais ouvir a empregada da vizinha repetindo essa merda!).

Mas o que dá Ibope mesmo é doença!

Ah, que maravilha! Quando inventam uma gripe nova, as velhotas têm assunto pra semanas, cada uma com uma informação inédita que só ela tem, cada uma com um tratamento ou uma forma de prevenção mais eficiente que só ela viu num desses programas de inutilidades que passam à tarde.

Como isso enche o saco!

Eu não estou aqui para explicar.

Eu não entendo de muita coisa. Eu só vejo, ouço e falo.

Mas isso aí eu consigo entender.

As pessoas que trabalham na fábrica das notícias sabem do que o cliente gosta! E doença vende bem porque esse povinho fricoteiro morre de medo de morrer! Haha!

Um dia, lá no escritório da fábrica de notícias, alguém chegou com a idéia:

- Vou inventar uma gripe!
- Ta louco, isso não vai vender, quem tem medo de gripe?
- Vai dar certo!
- Inventa outra coisa, um bacilo, um vírus, umas abelhas africanas.
- Não, gripe. Vai dar certo.
- De gripe ninguém tem medo, inventa uma coisa mais suja. Uma caganeira! Isso! O povo morre de medo de caganeira, imagina todo mundo cagando por aí, pânico total. Inventa que é por causa de um lote de maionese!
- Não, uma gripe. Gripe é legal, todo mundo pega. A gente faz uma gripe suja. Uma gripe de bicho sujo.
- O que? Gripe de macaco?
- Não, macaco é fofo. Tem no circo, criança gosta. Mico-leão-dourado, bichinho em extinção, o povo acha bonitinho. Mais sujo.
- Gripe de urubu?
- Não, do porco!
- Hã?

No dia seguinte, já tinha uns imbecis andando na rua de máscara cirúrgica e outros lavando as mão com álcool setecentas vezes por dia. E um bando de especialistas dando entrevista em tudo que é canto. O que mais tem nessa merda é especialista.

O defeito dos assuntos que saem lá da fábrica das notícias é que eles duram pouco. O povo enjoa. Então tem que tirar de circulação e inventar outro. Se um dia a fábrica fechar, acho que o povo vai ficar mudo.


Tá todo mundo meio burro.

Olha pra essa pessoa que está do seu lado.
Pode olhar, eu espero.
Viu? Cara de parvo.

Eu não sei direito o motivo. Vai ver é porque não se lê nada que preste. Só ficam passando os olhos rapidinho pelas telas desses computadores. Ouve-se músicas cretinas. Assiste-se coisas cretinas na TV. Li em algum lugar que o vocabulário médio do brasileiro está diminuindo. Com essa tio Darwin não contava: um dia vamos subir de volta nas árvores e nos comunicar com meia dúzia de grunhidos.

Já estou até vendo o primeiro esperto a levantar o braço e falar: a culpa é do governo! É, do governo, que não incentiva a cultura do povo e blábláblá. Aquela ladainha de sempre. Não é! Povos idiotas não são feitos por governos idiotas. Desde que se possa votar nesses caras, é o contrário! Então, toda vez que você falar que seu governante é idiota, ladrão ou as duas coisas, olhe primeiro no espelho.

Alguns, apesar de idiotas, têm uma certa dose de malandragem. Ou têm assessores bons, o que dá quase no mesmo. Feito esse presidente bizarro. Essa coisa toda de “o governo dá”, “o governo cuida”. Um papaizão zeloso, carinhoso, bonzinho. O povo adora, ele sabe. Ajudou a infantilizar um pouco mais essa merda. Os outros olham, notam que faz sucesso e imitam. Proíbe isso, obriga àquilo, regras pra todo lado. Quem manda, obriga, proíbe fica famosão. O povo resmunga, mas no fundo adora. Quanto mais regra, menos é necessário pensar. Todo mundo obedece e pronto. Se algo der errado, eles ligam pra fábrica das notícias e encomendam uma doença nova. Fica todo mundo com medinho. Com medinho é mais fácil obedecer. Tomara que da próxima vez inventem um surto de acefalia. E que todo mundo note, finalmente, que está sem cérebro.

Que foi?
Tá fazendo essa cara enjoada por quê?
Eu não avisei lá no começo que estava sem assunto?












quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Quem mente no Orkut bota o dedo aaaqui!

Por Vanessa PinhoEu tenho, você tem, o tio que vende pipoca acabou de criar um - vê se pode, não nasce ninguém tolo mesmo! Até minha mãe, que vivia dizendo que o computador só serve mesmo pra fazer com que a gente se desligue do mundo real e viva um pouco no faz de conta, agora também tem um. Orkut! Eu adoro, e você? Eu fuço a vida das pessoas, e você?



Sei, você vai dizer que não. Eu também digo. Falo que meu Orkut é pra trabalho, mas sei de tudo que acontece até na vida da Madalena, a merendeira do meu antigo colégio.O fato é que o Orkut acaba mesmo nos levando para um mundo paralelo. Embarcamos. Conheço gente que foi e nunca mais voltou. Orkut é uma maquiagem mega power, das melhores. É um Photoshop que você vai editando, editando, e só deixa o que existe de bonito. Sem contar nos “amigos” que se dividem em:



50% Pessoas estranhas do colégio, que você nem falava muito.
10% Pessoas que você conhece, mas que te odeiam e só te adicionam pra saber quando você estará gorda, feia e acabada.
10% Seus amigos, família, pessoas que você tem contato diariamente e ama de paixão.
10% Contatos de trabalho.
20% Pessoas avulsas que não se encaixam em nenhuma das opções acima e primas de quinto grau.


Dia de chuva é uma merda. As crianças brincam pelo quarto de desfile de moda, e daqui é possível ver que minhas coisas todas serão tendências na próxima estação. Meu batom novinho acabou de quebrar na mão da Bellinha e um cheiro muito forte de perfume caro pago em duas vezes surge seguido de um barulho como se algo tivesse caído do armarinho do meu banheiro até o chão. Socorro! O jeito é me distrair um pouco no Orkut. Apertem os cintos, que a viagem vai começar!

Quem sou eu: Menina que te encanta, garotinha que te fascina, mulher que te enlouquece, a loira que te domina.
Tradução: Ninguém acha que eu sou tudo isso, nem eu. Mas se eu disser que sim, já existe aí uma chance bacana de alguém acreditar.

Quem sou eu: Sou aquela que você nunca será.
Tradução:
Estou pegando o namorado de uma conhecida, ou meu ficante acabou de deixar a namorada por minha causa. Preciso mostrar que sou melhor que ela, mesmo tendo a certeza absoluta que não passo de uma piriguete com a auto-estima no buraco.

Quem sou eu: Feliz, de boa!
Tradução: Levei um fora do meu namorado e estou chorando três dias sem parar nem pra respirar. Mas preciso mostrar pra ele que tô feliz pacas, assim, de boa mesmo. (PS: Essa pessoa costuma também atualizar o Orkut diariamente com fotos e legendas explicativas com datas e local das baladas em que freqüenta).

Quem sou eu: A vida é minha eu faço o que eu quiser!
Tradução:
Saio pra balada, subo na mesa e se bobear, beijo até o manobrista do estacionamento.

Quem sou eu: Não precisa mudar, vou me adaptar ao seu jeito, seus costumes, seus defeitos...
Tradução: Proíbo meu namorado de falar com qualquer ser do sexo feminino, vivo em crises, morro de ciúmes, sou ansiosa, dramática, tenho síndrome do pânico, mania de perseguição e participo de grupos de ajuda para mulheres.

Quem sou eu: As mulheres são como frutas, as melhores estão no topo. (PS: Se ela não for a mulher melancia, a mulher jaca e nem a mulher melão, a tradução é a seguinte:)
Tradução: Sou toda feinha, chatinha, vivo gripadinha. Não consigo pegar ninguém. Nem mesmo aquele gordo chato da oitava série... Mas digo pro mundo que ainda não achei alguém do meu nível.


Quem sou eu: Garotas boas vão para o céu, e as más vão pra qualquer lugar!
Tradução:
Estou na prateleira. Quem chegar primeiro, leva!

Quem sou eu: Eduardo, te amo muitooo amoree!
Tradução:
Sou uma pré-adolescente idiota, que assim que fico com alguém corro pro orkut e atualizo o status, porque preciso prestar conta pro mundo de tudo que acontece nessa minha vidinha estúpida e sem emoção.

Quem sou eu: Tente me decifrar. Muitos tentaram... Poucos chegaram perto. Ninguém conseguiu!
Tradução: Já dei pra uns 50 e nenhum prestou.
*
*
*
[Silêncio]
*
*
*
Há quem diga que eu sou alguém muito mau caráter... Que passo horas no Photoshop editando pessoas, tirando uma espinha aqui, emagrecendo um pouquinho ali, arrumando outro dentinho lá... Mas quem me conhece, sabe que sou uma pessoa super sincera. Então, fiquei pensando que se eu fosse elaborar um “Quem sou eu” pra colocar no Orkut, seria algo mais ou menos assim:

Eu sou alguém em busca de tudo que traga paz e tranqüilidade. Ou seja, barulhinho de gente chupando chiclete ou laranja, eu odeio. Sou alguém cheia de manias irritantes. Alguém que muda de calçada quando encontra um semi-conhecido na rua. Que tem nojo de gente que fala cuspindo e cria uma babinha branca no canto da boca. Que exclui recados de gente que escreve axim, menas, intãum ou pessoas que ignoram a existência de pontos e vírgulas.


Sou alguém que tem preguiça de conhecer pessoas na balada, de responder minha idade, o que faço e onde moro. Se essa pessoa for um bombado com cara de “te pegava muito” eu me faço de morta ou meu telefone sempre toca nesse momento. Sou alguém sem paciência pra chá de fraldas, chá de panela, chá de qualquer coisa. Odeio gente que fala batendo, apertando ou empurrando. Odeio festas com menininhos se achando homenzinhos porque cursam a primeira fase de Direito e acham que já podem dominar o mundo.Odeio esses mesmos homenzinhos, mas dessa vez, na primeira fase de Nutrição.

Odeio pessoas que me chamam de querida, amada, ou que se despedem dizendo: um beijo no coração. Sou alguém que curte as pequenas coisas da vida como: imãnzinhos de geladeira, brinquedinhos de Kinder Ovo, brinquedinhos de balão surpresa, brindes de sorvete seco, pontinhas de lápis, mini -livrinhos, mini- pizzas, tudo pequenininho. Sou movida a pipoca salgada.


Preciso ler tudo que Martha Medeiros escreve. Meu sonho de consumo não é Reinaldo Gianecchini, nem Mel Gibson... Meu sonho atende pelo nome de José Eugênio Soares, o Jô. Sou fã, assisto todos os programas e faria o maior bafão se o visse na rua. Quanto a Gianecchini e Mel Gibson, talvez eu desse uma pequena levantada de sobrancelhas se os vissem.

Sou alguém que não combina roupas. Combinou? Eu troco. Alguém que se interessa por moda tanto quanto se interessa pela gestação de uma anta albina.

E aproveito a oportunidade pra dizer que não quero ser seu amigo no Sônico, Hi 5 ou Facebook.

Era isso. Beijo!







quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Viajoterapia: a cura

Por Karina Lima, em estréia
como correspondente internacional
No alto das minhas preces insólitas, pedi a Deus: ‘Ó Pai, queria me sentir estupidilionária, pelo menos por uns instantes’. Desconfio seriamente que Ele estava distraído, talvez assistindo a um episódio da última temporada de Friends, porque eu fui atendida prontamente nessa sandice. Atendida com A maiúsculo e em negrito, aliás!

Na última sexta, após contorcionismos mil na ‘classe cachorrão’ de um avião, foi na saída da alfândega que meu ingresso a um universo paralelo teve início: motorista simpático me aguardava com uma placa em couro vermelho, onde se lia LIMA, KARINA em letras garrafais. Cumprimentos, gentilezas, minhas mãos livres, a dele ocupadas com as minhas malas, saguão do Aeroporto de Ezeiza, sol surrealmente agradável. Mercedez [falô!], carta de boas-vindas personalizada no banco traseiro [tá, então!], frutas, água, toalhas úmidas, pistache, amêndoas. Luxo real é orquestrar serviços, e essa música estava definitivamente agradável aos meus ouvidinhos. No carro, espalham um pó de sub-celebridade-instantânea que caiu sobre mim, dos pés à cabeça. Lá vamos nós!

Destino final: Puerto Madero, reduto que hoje se debruça nos encantos do Faena+Universe, um hotel absolutamente distante do que conheço por lugar-comum. Um antigo armazém de grãos de 1902 deu lugar a esse suntuoso templo de criatividade e sofisticação -- um verdadeiro presente aos sentidos. Uma sorte corporativa das grandes -- tenho que ir mesmo pra lá? Ohh mamãe, que brabo!

[Não adianta, a farofice nunca me larga. Eu até tento manter a pose blasé, conter os ânimos, mas aí...]

No Faena, o anormal é normal: o check in pode ser feito até mesmo no deck da piscina, que parece um espelho horizontalizado. Não há um lobby formal, e sim um grande corredor repleto de alamedas, num conjunto batizado de ‘catedral’ – o pé direito alto lembra, mesmo, um cenário assim. Telefones sem fio podem acompanhar os hóspedes a qualquer lugar do hotel, o que torna tudo muito cômodo e prático. As suítes têm decoração única e a música ambiente é bem moderna. Parou por aí?

Se você apenas desejar desfrutar do Universo Faena (daí o nome “Faena+Universe”), é perfeitamente possível: o conjunto da obra é vasto. O El Mercado é um restaurante que lembra a casa da avó (rica) – porções fartas, teto de um prédio antiguíssimo, mesas de antiquário, lustres industriais de aço. O El Bistro, todo em branco, dourado e vermelho, ficou famoso pelos unicórnios nas paredes, que são obra de Starck. No El Cabaret, vê-se o melhor show de tango da capital portenha, sem titubear. No Library Lounge, ornamentado com poltronas, lareiras e um lindo bar, o agito vai até bem tarde ao som de música ao vivo. Acabou?

Para matar a pau, há um Spa de ambientação sensual e distinta, onde fiz dois tratamentos para corpo e alma: uma massagem-milagre da cabeça aos pés, e uma sessão de terapia prânica, que sugere a cura através da energia vital, algo que lembra bem o reiki. Karinéte serelepe também tem uma faceta zen, vejam vocês. Nesse cenário, até mesmo minha personalidade ansiosa a la Burro do Shrek deu uma trégua. Queria socar o ponteiro do relógio e ficar ali, lépida, pseudo-madame e fagueira, para sempre, amém.

Lá fora, a 15 minutos de carro, elegi meu canto portenho favorita: Palermo Soho. Como aficionada por comportamento, tendências e estilos de vida, gamei totalmente nesse distrito que se divide em Palermo Viejo, Palermo Soho, Palermo Hollywood, Palermo Parque e Palermo Chico. São dezenas de ruas e um parque enorme, cercado de moda, design, arte, gastronomia, bares, mesas externas, drinques, cafés e hotéis-boutique. Efervescência, atmosfera boêmia, artesanato, novidade, sol, badulaques e seu cartão de crédito indo pelos ares - o caminho é bem esse, e dá pra se perder da vida e esquecer-se do mundo estando ali. Caminhar à toa, sem pressa alguma, vendo gente, bebericando, petiscando, cabelos ao vento – sim, essa é a vida que eu quero e mereço com mais frequência, obrigada a vocês por perguntarem. :-)

Na volta, já no aeroporto, organizando idéias para um Plano de Ação, o sentimento que me invadia era tão leve que eu nem me importava com as crianças deslizando em tênis com rodinhas, ou com o grupo de pagode que fazia algazarra na tentativa desesperada de chamar atenção de alguma periguéte desavisada. Ali, até consegui me comover, adoçando um expresso, com os conselhos dos ‘sacotinhos’ de açúcar União: diga menos não * ria de si mesmo * apaixone-se mais vezes pela mesma pessoa. Viagens têm características hipnóticas e idiotizantes, estou plenamente convicta. Diante de tamanha amálgama de encantamento, diversão e novidade, repito e trepito o que já costumo tagarelar aos quatro ventos: o meu troco, eu quero em experiências.


@ O website do Faena+Universe já é uma baita viagem, com linda música e imagens de
tirar o fôlego. Vale a visita: www.faenahotelanduniverse.com/








quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Diz que fui por aí

Por Karina Lima

Um bom expresso, casaco favorito, sapatilha, óculos, iPod, um livro daqueles bem leves. Quando esses elementos se combinam, coisa extraordinariamente boa está por chegar – é com essa indumentária e elementos que eu, geralmente, viajo por aí. Sou Turismóloga por formação, e viajante assumida por pura paixão. Ah, e quando o assunto é vespar, aqui tem amor pra uma micareta toda, e ainda sobra.

Minha relação magnética com o mundo das viagens começou cedo, mas reafirmei o prazer por essa escolha quando engatei na faculdade. Depois do parto pra agarrar o primeiro emprego nessa área, deitada eternamente no berço esplêndido da Legislação Trabalhista, confesso procês que passei por poucas e boas: horas a fio trabalhando de pé, gringos esquisitaços, escândalos de gente surtada, celebridades e subcelebridades, coque, gel de cabelo, salto alto, terninho, eventos, frenesi, sono acumulado, tropeços. Hotel, Congresso, Feira, Fórmula 1, Coletiva, Evento Social, Traslado, Helicóptero, Check-in. Turco, inglês, árabe, alemão, japonês, argentino, polonês, italiano [aahh, a Itália... tenho a síndrome da Sandra Bullock em ‘Enquanto Você Dormia’]. Sempre fui um centro gravitacional de desordem, acreditem vocês, e por isso estou no mercado certo, suponho. É divertido e, principalmente, vivo. De uma vivacidade louca e encantadora.

Vejamos... voltando à vaca fria [adoro expressões idosas], após uns bons mililitros de suor e esforço corporativo nessa época de sangue, batalha e lágrimas, eis que veio a primeira dádiva para essa escrava branca: ‘Karina, você vai para o Alaska a trabalho’. Aí, pensei: ‘Ah, é? Já que estou sonhando mesmo, aproveito e já peço um pônei, ou um urso polar, de quebra! Tô trabalhando na National Geographic e não sabia?’. Desse marco em diante, de Mossoró a Moscou, do Oiapoque ao Chuí, de Leste a Oeste, qualquer lugar é lugar, e todo lugar no globo é encanto. E um sorriso me escapa só em escrever isso.

Tudo porque essa tese é cientificamente comprovada: viajar renova, anima, instiga, encanta, seduz, inspira, carrega as (nossas) pilhas, enche o chip da câmera, lota o coração e a cabeça de memórias e novidades. Viagem é vida com V maiúsculo, hábito que não enjoa, sala de aula sem janelas, e nessa escola eu me orgulho em ser nerd convicta.

Entre uma filosofada e outra, reviso mentalmente o que pode me faltar – estou de malas prontas e coração palpitando – vou, a trabalho, para a casa dos nossos hermanos e do Tio Maradona. Embarco amanhã cedinho, antes mesmo do galo acordar pra cantar (galos contam o que pra dormir? Carneiros? Esquisito, isso).

Em algumas horas, enquanto vocês estiverem no décimo sono, estarei de bobeira após um bom café, com iPod em punho, pronta para taxiar na pista. Aí, será correr pro abraço: decolagem autorizada, força total...
FUÓÓÓSHHH!


E essa prosa continua. Na volta, é claro.
Conto tintim por tintim, e logo depois os detalhes. A vocês, tudo!







Fernanda Takai
"Diz que fui por aí"
(Zé Keti / H.Rocha)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Eu estava lá

Por Vanessa Pinho


Eu estava lá. Mega produção. Esmalte. Chapinha. Perfume caro. Sorriso no rosto. Salto alto. Pretinho básico. Legal, tudo estava correndo bem. Festa. Amigos. Como diz o Lê: a gente precisa passar por todo tipo de emoção durante o dia, boas ou ruins. E eu, estava prestes a saber o que era isso.

- Eba! Ele chegou!

Mãos dadas. Beijinho no rosto. Combinamos a semana inteira sobre aquela festa. Eu estava feliz na condição de pseudo-namorada. Estava curtindo, tudo, intensamente. A festa começou a acontecer. Ele começou a acontecer mais do que a festa.

- Já falei pra você que tenho horror de gente que bebe demais e fica de olho vermelho, traumas de infância, já te expliquei isso.
- Mas eu não bebi.
- Bebeu sim.
- Quem vai levar o carro agora?
- Haaa, você!
- Suicida!

E enquanto eu ficava ali pensando que a noite tão esperada estava escorrendo pelo ralo feito meu xampu de salão caro, percebi aquele olhar vindo na minha direção. E não era um olhar vermelho. E não era um olhar desconhecido. Muito pelo contrário. Eu conhecia aquele olhar há pelo menos uns cento e quatro anos, e sentia, muita saudade dele. Era isso. Era como reencontrar aquele que foi par na quadrilha na 1ª. série, aquele que no dia da festa não vinha e você tinha que ficar de fora da dança. Era assim, um olhar que eu esperava. E tem mais: não era só um olhar. Era um cabelo sem a mínima pretensão de estar arrumado. Era uma conversa que poderia durar horas. Era um sorriso que parecia acabar com os problemas do mundo, com a corrupção, com as drogas, com a crise mundial.

Ele veio me cumprimentar. E eu fingia estar tudo sob controle. Eu já o conhecia, já tínhamos conversado um montão de vezes. Mas pra mim ele era imaginário, sabe? Ele já tinha me dito que existia, mas eu não acreditei. E pior que existia. Ou melhor. Não sei. Enfim, mil coisas.

Ele me abraçou e eu parecia ter sido transportada pro cenário da novela alma gêmea, da Globo:

- Nossa, que bom te encontrar aqui. [Clima de descontração é importante ainda que o coração esteja batendo no ritmo da bateria do Salgueiro].
- É verdade, tudo bem?
- Sim, tudo bem. [Haaa, claro, tudo muito bem, você tem alguma dúvida disso?]

E eu fiquei ali como se tivesse dado um stop no planeta, sabecomé? Eu queria que o mundo esperasse, vê se pode? Eu queria que todo mundo congelasse, que o som acabasse, só pra poder ouvir aquela voz que eu não conhecia. E nem que o palco caísse, eu sairia dali. O palco caiu.

- Hãinnnn Jesus! Se machucou?
- Não, tô bem, quase caiu em mim, mas tá tudo bem... [risos]
- Então tá, vou lá. Bom te ver. [Ótimo te ver, maravilhoso, perfeito, mágico, inclusive].

E eu fui, mas meu coração ficou ali, puxou uma cadeira, sentou ao lado daquele moço e pediu um café expresso e uma água, por favor! Nós ficamos conversando a noite inteira por músicas:

"Penso naquele menino a cada manhã... Penso nele todo dia ele é minha alegria, ôO, ÔO, ôO!" [Cala a boca Ivete, já chega!]

"Amor da minha vida, daqui até a eternidade, nossos destinos foram traçados na maternidade..." [Não me enche Cazuza, não tá vendo que o clima já está estranho?]

Meu “par na festa” aparecia de vez em quando, verificava se eu estava viva e ia ao bar. Não necessariamente nessa mesma ordem. Eu olhava pro menino do sorriso calmante, pro meu relógio e pensava em ir pra casa e ficar pelo menos meia hora olhando pro nada, nessa ordem. Eu queria tomar um banho também. Sempre resolvi todos os problemas da minha vida no banho. Mas dessa vez, eu queria mesmo era voltar pro útero e ficar por lá, mais uns seis meses, pra ver se me colocam os sentimentos que faltaram. Desapego. Onde vende isso? Como eu faço pra ter? Eu precisava me desapegar.

Deixe que digam, que pensem, que falem, deixe isso pra lá, vem pra cá, o que que tem? [Haaa, não, aí já é demais. Fala assim porque não é com você, Lulu]

A festa acabou, o meu pseudo namoro também. Mas a esperança de ver aquele menino de novo só crescia. Hã? Claro que eu fui batizada, fiz até a crisma. Mas não posso fazer nada se minha cabeça e meu coração entram em conflito.

Eu deveria nesse momento procurar um padre, me confessar, algo assim. Mas vou deitar, ligar na Itapema, abrir um pouco a janela pra ver o vento balançar a cortina igual cenário de novela das oito e ficar ali, olhando pro bege da parede. Eu odeio a cor bege. Mas sobre isso eu falo depois.

Nunca me senti tão dividida, tão perdida. Estou me sentindo uma leitora da revista Capricho, enfim. Stella, só você pra me aconselhar.

domingo, 20 de setembro de 2009

Shopping

por Stella Benevides

Continuei hoje minha peregrinação em busca da fita da Remington. Olha só o a sarna pra me coçar que eu arrumei quando resolvi aceitar escrever no tal do blog! Aposto que ninguém lê essa coisa! Mas as meninas continuam tendo idéias. Agora cismaram de inventar uma tal de “Sessão Stella Responde”! Haha! Falaram que eu vou responder dúvidas das leitoras do blog.

- Principalmente sobre relacionamentos, Stellinha! Você tem muito a ensinar!

Eu? Relacionamentos? Ensinar? “Relacionamento” já é uma palavra idiota que foi inventada há pouco tempo. Antigamente a gente paquerava, namorava, dava, noivava, dava, casava, dava mais um pouco, brigava, parava de dar, separava e voltava a dar. Não necessariamente nessa ordem. Agora, não. Agora, pra qualquer trelelê usa-se a palavra “relacionamento”. Querem que EU responda sobre isso? Essas meninas devem ter uns parafusos faltando. Ou é essa mania de usar chapinha, deve afetar os cérebros das bichinhas.

Bom, procurando a fita da Remington, fui parar num Shopping Center. Um desses, bem modernosos. Que idiota que eu sou. Além de ter que topar com as caras apalermadas dos balconistas que sequer sabiam do que eu estava falando, ainda tive o desprazer de ser atropelada por hordas de pré-adolescentes malcriados. E crianças! Ai, como eu adoro!

Peguei um café, um croissant e sentei-me numa mesa daquela ante-sala do inferno chamada “praça de alimentação”.

Foi então que eu o ouvi.

No começo cheguei a pensar que estavam sacrificando um leitão em algum ritual satânico que eu não conhecia, mas era apenas uma dessas crianças que dão escândalo em shopping quando contrariadas. Uma espécie muito comum hoje em dia. Meninos mimadinhos que, quando crescem, tornam-se políticos ou atores bad boys de quinta categoria. O molequinho de uns seis anos vinha puxado pelo braço pela mãe, abrindo o berreiro. E, pelo que pude compreender, todo o drama devia-se ao lanche especial, acompanhado de batatinhas e bonequinho-palhacinho que a mãe, perversa, não tinha comprado.

Fechei os olhos e pedi fervorosamente à Santa Edwiges que aquele demoninho não viesse para o meu lado. Foi então que descobri que Santa Edwiges não atende aos sábados.

A duas mesas da minha, o berreiro continuou. Sabe quando se percebe aquele mal estar coletivo, mas ninguém faz nada? Pois é. O povo olhava, cochichava, dava risadinha. A mãe, bocó, tentava acalmar o pimpolho diplomaticamente.

- Come seu lanchinho-feliz, filho!

Foi quando o fedelho-monstro, gritando na plenitude de seus pulmões um esganiçado “não quéééééro!”, deu um tapa no sanduíche, que passou voando a dois centímetros do meu rosto, indo se espatifar na parede.

Respirei fundo. Levantei-me calmamente. Ajeitei a roupa, os óculos. Caminhei lentamente na direção daquela mesa. Um passo, dois, três. Ignorei a mãe bocó, olhei bem para ele. Mas bem mesmo, bem nos olhos. Disse apenas uma palavra:

- Pára!


Silêncio na praça de alimentação. A mãe fez menção de protestar, mas ante o óbvio contentamento generalizado do ambiente, ficou grudada na cadeira, pálida e muda. Como o moleque, de quem não se ouviu mais um pio.

Umas crianças riam, uns meninos ensaiaram aplaudir. Ajeitei a roupa, os óculos. Deixei pra trás meio café e meio croissant. Fui-me embora.

- Nóóóóssa, Stellinha! Você não gosta de criaaaança?

Não é isso! Eu só acho que ter autoridade não significa falta de carinho! Aliás, eu sou totalmente a favor de que os pais tenham as duas coisas para com seus pimpolhos! Ah! Mas é bom ter cuidado hoje em dia ao beijar seus filhos! Nunca se sabe quando um casal de velhos desocupados, turistas paulistas que compram pacote turístico da CVC em 12 prestações, vão estar espiando atrás de um coqueiro. Como não trepam desde a década de setenta, quando viajam não têm muito o que fazer. Então ocupam o tempo cuidando da vida dos outros. E se você beijar seus filhos na frente deles, te denunciam por pedofilia! Cuidado!

(Curioso: se os velhotes fiscais da moralidade tivessem visto dois barbados se beijando, nada poderiam fazer! Aliás, caso ousassem manifestar qualquer desagrado diante de uma cena dessas, bem capaz que eles – os velhotes – se encrencassem com a justiça! Esse mundo está mesmo ficando muito esquisito!)

- Nóóóóssa, Stellinha! Nenhuma ternura no seu coraçãozinho?

Tenho, sim. Tenho ternura pelos cachorros que acompanham os carroceiros nessa cidade hostil. Nada pra mim nesse mundo é mais próximo da idéia de “anjo”.

Você aí, que lê esse tal de “blog”, já prestou atenção nessa gente “invisível” e seus cachorros?

Carroceiro faz um serviço filho-da-puta, perigoso e sujo. E útil pra cidade! O cachorro não precisaria ir com ele. Mas vai. Não desgruda um só minuto. O cachorro morre pelo carroceiro se for preciso. Aliás, já soube de casos assim.

Hoje, quando saia da padaria, encontrei o Jorginho e o Xula. Eles andam por aqui com a carroça e dormem debaixo do Minhocão.

- Ô, Xula! Cuidado pro Jorginho não ir pro meio da avenida, é perigoso!
- Não se preocupe não, Dona Stella! Ele ta acostumado!


Perguntei se já tinham jantado. Voltei pra padaria e saí de lá com dois sanduíches de mortadela. E algumas latinhas de cerveja.

- Esse aí é o melhor amigo do homem, Dona Stella, porque não conhece o que é dinheiro!

Eu já ouvi o Xula falar isso umas trezentas vezes. É a frase preferida dele. Mas eu me comovo toda vez que ouço. Tirei os sapatos, acendi um cigarro, sentamos na calçada. Xula é um dos melhores papos aqui do bairro. Jorginho engoliu seu sanduíche e veio deitar no meu colo. Ele estranha um pouco o meu cheiro de gato.

Foi então que bati o olho na carroça. Não pude acreditar. Era uma Remington do mesmo modelo da minha, toda escangalhada, faltando teclas, mas ...rá! Com uma fita novinha, quase intacta!

- Xula de Deus! Você salvou o Mulherices!

Ele me deu a fita de presente, mas eu coloquei cinqüenta reais no bolso dele. E agora eu tenho uma fita nova. Posso até gostar daquela idéia estúpida de responder perguntas sobre relacionamentos.

Mulherices, me aguarde!

***

Stella Benevides e alguns veículos da web mantém seus olhares bem atentos a (anti)heróis que, para muitos de nós, são invisíveis. Clique na foto para saber mais!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Sílvio

por Stella Benevides

Como contei há algumas semanas, fui convencida pela Karina a escrever pro tal do “blog”, dela e da coleguinha dela, a Vanessa, de Florianópolis. E não é que elas gostaram? E não é que elas juraram que mais um monte de gente gostou? Vieram me contar que não-sei-quantas pessoas tinham lido, comentado e blábláblá.

Eu não acredito.

Duvido que nesse mundo besta de hoje, com as pessoas presas nas suas redomas de bom comportamento, alguém aplauda gente como eu. Que fuma, bebe e fala palavrão. Que gosta mais de gato que de gente. Que não tem a menor paciência com crianças e que não acha nenhuma graça em velhinhos fofos. E, pior que tudo, não está nem aí para o que acham disso Foda-se. Não estou nem aí mesmo.

Mas eu achei divertida a brincadeira de escrever. Tanto que hoje saí pra comprar uma fita nova para minha Remington. As meninas me disseram que as pessoas nem sabem mais o que é uma máquina de escrever. Fodam-se as pessoas. É com ela que eu vou continuar escrevendo.

O problema é que eu entrei em umas dez papelarias e em nenhuma encontrei o que precisava. Em uma delas ainda tive que agüentar piadinha de um balconista, um moleque seboso, de cabelo espetado.

- Já procurou no Museu do Ipiranga, tia?

Pensei muito e decidi não reproduzir aqui o que eu respondi a ele. Sei lá, a mãe da Karina pode ler e brigar com ela. Ou os filhos da Vanessa, quem sabe. Mas acredito que os leitores do tal do “blog”, se é que eles existem, têm imaginação suficiente para supor o que eu disse.

Voltei pra casa sem minha fita e com os pés doendo. Estava louca por um banho e um uísque. Não necessariamente nessa ordem. Mas, na porta do prédio, encontrei Sílvio, que estava desaparecido há três dias.

De todos os meus felinos-filhos, Sílvio é o que me da mais trabalho. Desisti há tempos de tentar prendê-lo em casa. Telas, grades, nada resolve. Se for preciso, ele é capaz de sair pelo buraco da fechadura.

Um dia desses, a vizinha gorda do andar debaixo sugeriu que eu levasse Sílvio para ser castrado, que isso resolveria o problema. E eu, docemente, sugeri que ela cortasse as coisas do marido dela, posto que ele certamente já não as usava há muito tempo, pelo menos não com ela. Acho que ela não gostou muito da idéia, porque nunca mais falou comigo.

Silvio estava magro e todo estropiado, resultado de suas peripécias pelos inferninhos felinos. Peguei-o no colo, levei-o pra casa para tratar dele.

Quando me perguntam se o nome é homenagem ao Sílvio Santos, eu digo que sim, pra não complicar. Mas o nome completo do meu Sílvio é Sílvio Berlusconi! Sim, uma homenagem àquele exemplar remanescente do tempo que homem era homem. Rico, poderoso e fanfarrão. Sempre dando uma banana pros bons modos e chutando o protocolo. ADORO quando ele apronta uma daquelas, que os engomadinhos efeminados do mundo classificam como “gafe”! Gafe uma pinóia, ele faz é de propósito mesmo, eu percebo!

Se o governo dele presta ou não presta eu não sei, isso é problema dos italianos. Mas o que eu, definitivamente, acho o FIM, é ficarem patrulhando o cara para tentar derrubá-lo por aquilo que ele faz na vida privada. Igual fizeram com o Bill Clinton, que teve que se humilhar, com seu charutinho murcho em público e se ajoelhar diante do vestido manchado da estagiária gorducha. Porra de presidente! Literalmente.

Mas Berlusconi não vai se curvar, não. Vai continuar sendo o rei da Itália, da televisão de lá, do Milan e das putas. Tem mão de ferro. E pelo jeito, não só a mão. Os puritanos daqui, como os de lá, podem achar um horror, mas eu prefiro políticos assim a esses velhos borocochôs de Brasília, que não comem ninguém e descontam metendo na bunda do povo!

Haha!
E o povo deve gostar.
Por isso vota neles.

Brasileiro é um povinho besta.











sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Divagações Mulherísticas

Por Karina Lima
Na era do Twitter, das frases de 140 toques e das informações truncadas ou contraditórias, o mundo está inundado de meias palavras, e elas falam cada vez mais, soltas por aí, desvairadas e vacilantes. Lançada essa nova coqueluche, peço licença para libertar alguns pensamentos aleatórios nessa sexta-feira emblemática:

Somos imitações baratas de longas-metragem
Todos os sábados à tarde, vou ao supermercado. Há iluminados dias em que capricho nesse look doméstico, mas na quase invariável maioria das vezes a escolha é composta de legging surrada e moletom na mesma condição. Se eu fosse uma personagem de filme, isso aconteceria? Óbvio que não. Mulheres que vão ao supermercado, em cenários de ficção, usam saia lápis, coque, impostam olhar confiante, e seus scarpins deslizam entre gôndolas, no melhor estilo femme fatale. Ah, e mulheres de cinema pensam em vinhos e outros artigos cool, e não em compotas, Chambinho e Sucrilhos, como eu. Não, a arte não imita a vida, e se fizesse isso, talvez os filmes não estourassem em bilheteria.

Hollywood-Não II: a Lei de Murphy no avião
Nunca houve em minha nada-mole-vida de turista um único vôo no qual eu dividisse fileira com um Hombre-Alvo-Interessante-Solteiro-Engatar-Papo-Já. Ao meu lado, sempre se sentam personagens do tipo: Indiano-Sem-Banho-Há-Uma-Semana, Senhorinha-Que-Pede-Minha-Sobremesa-do-Jantar, Evangélico-Quer-me-Salvar-do-Purgatório, Nerd-De-Ontem-Careca-e-Rico-Hoje, Mãe-de-três-pequenos-que-gritam-e-me-puxam-o-cabelo. Diacho de realidade aérea sangrenta... onde está o fator 'cinemalidade' dessa vida corporativa tão jumenta?!

MSN: Patacoadas Circenses
-- Mari, descola um pretê decente pra mim?
-- Assim, no teu perfil?
-- É...
-- Procurando onde?
-- Na sua empresa, acho. Gentes de nível.
-- Mas aí tem algo errado...
-- Tem?
-- Tem.
-- Pra você, local ideal pro par perfeito é Cirque Du Soleil, e não o meu trabalho.
-- Aaaaaaah, sua quenga!

O mercado das Mulherices: invista aqui!
Em plena ascensão, esse nicho econômico detém um verdadeiro arsenal de produtos para atrocidades: sorvete Haagen-Dasz doce de leite (‘Ele não me quer, vou me afogar nesse mar gélido de calorias!), Boxes de Séries Americanas (‘E daí que hoje é sábado?’), Trufas Macias (‘TPM, eu mereço!), biquinis (comprados junto com a promessa: ‘Vou malhar e ficar bem aqui dentro, em breve’), Livros Mulherzinha (do tipo “Ele não está a fim de você”). Isso tudo, em associação com tratamentos faciais, estéticos, unhas de silicone e fortunas pros cabelos ressuscitarem e parecerem com os da Sarah Jessica Parker. Quebrar e consertar, essa é a dinâmica do sucesso feminino! Faça já o seu plano de negócio no mercado das mulherices, e venda estupidilhões de reais pra essa gente tão consumidora!

O verdadeiro Teorema dos Tiranos
Você tem daquele chefe que parece o Darth Vader, que pede favores às 17h59, que atira radiação ultravioleta apenas através de um olhar lançado em sua direção, que nunca procurara no dicionário o que significa a palavra PRAZO, que sobe no balcão do check-in pra gritar na cara de pobres atendentes do aeroporto? Console-se: em casa, essa odiosa peste come na mão de sua respectiva esposa – se duvidar, da sogra também. Toda vez que sentir raiva, mulher, pense: já é calvário suficiente pra essa criatura ter que fazer parte de sua própria vida-demônia. Releve, releve! Faz bem, evita rugas e economiza Renew.

Sentimentos modernos
-- Cê gosta de mim?
-- Claro!
-- Muito ou pouco?
-- Muito!
-- Mas de que tanto?
-- Do tamanho da corrupção do Sarney!
-- Aaahhh, me convenci!

Em tempo: sim, concordo que pensamentos soltos não têm pé, lógica e nem cabeça. Oras... mas e a vida tem, por acaso? Namastê, sahibs!