Podem me recriminar, mas assumo pra quem quiser ouvir: eu carnavalizo. Sou ré confessa, e com minhas lentes super-poderosas vejo poesia e beleza nas mil-cores das avenidas tomadas pela massa, sou grata à quase obrigação de ter uma data marcada pra diminuir a carga medonha que a vida exerce, e até me emociona sentir a percursão que ecoa forte a ponto de vibrar dentro da gente.
Você pode torcer o nariz, mas eu carnavalizo.
Por muitos anos, talvez por 25 dos meus vinteeset...oops, vinte e poucos de vida, passei carnavais inteiros no melhor dos estilos alternativos: lagartixando na piscina de um sítio, vendo DVDs de animações da Pixar, dormindo por algumas horas a mais numa rede. Sem culpa nenhuma, nem me gabando por deter uma pseudo-intelectualidade, ou torrando a paciência e cuspindo opiniões preconceituosas aos amigos foliões. Digam o que quiserem, mas vejo a Ivete Sangalo embalar multidões e admiro o magnetismo e energia que nela moram através dos ritmos vibrantes que arrastam o povo todo. Letra? Tem não, meu rei. É só pra pular mesmo. Não há intenção de imprimir inteligência nesse lance. Certo, depravação é outro assunto, vulgaridade também é. Mas não sejamos tão radicais ou, pelo menos, que sejamos só às vezes.
Você vai caçoar que no meu iPod deve tocar “Vounão-queronão-possonão”, mas eu carnavalizo.
Uso tiaras de pluma, chapéus de lantejoula, gravatas borboleta, cartolas de mágico. Me amarro nessa licença poética que só o Carnaval permite: você pode se fantasiar de quem ou o que quiser. Só há aqui um detalhe importante: ninguém deixa de ser quem é, só por conta dessa festa prolongada toda. No Carnaval, Natal ou Páscoa, não concordo que se deva barbarizar, tratar a outros de maneira leviana ou deseducada, infringir regras do bom convívio ou bancar o adolescente imbecil submongolóide.
Você vai me chamar de tia-chata-e-careta, mas eu carnavalizo.
Sambo no pé sem esquecer da contenda do aumento de R$5 no salário mínimo, ainda tendo nojo absoluto do machismo ignorante e ridículo do juiz Edílson Rodrigues, que proferiu zil absurdos sobre a Lei Maria da Penha, acompanho diariamente o processo caótico no mundo árabe, ainda sinto tristeza e náusea com a tosquice sem limites dos reality shows, e acho profundamente bizarra a onda dos emos-coloridos-sei-lá-que-raio tocando suas musiquinhas com timbre e harmonia de uma pobreza que é da Etiópia... mas procuro compreender o movimento atual dessa juventude fosforescente.
Você vai me lembrar que o carnaval tem sua face muito feia, mas eu carnavalizo.
Vou pra avenida mesmo lamentando que a prostituição de todas as idades ganhe ainda mais força nessas datas, e ciente de que muitos gringos só buscam aqui os “pandeiros” da mulherada que vive a mercê de seus corpos. Sei que o mesmo morro no Rio que batalha pra construir carro alegórico com aqueles temas a ver com a Sereia Iara e as águas do Amazonas vive sob a lei do traficante e encara outras barbaridades. Sei que Salvador fica depredada com o Carnaval mal-planejado e focado no lucro a curto prazo, também.
Você vai sentir tristeza ao pensar nesse assunto, mas eu [ainda] carnavalizo.
Vou brincar no Carnaval pra celebrar a vida, e não pra ameaçá-la. Triste é a sina de quem se aproveita da válvula de escape carnavalesca pra beber todas e aí lançar mão da chave do carro, e lamentável é o comportamento daquele fulano que se droga até enxergar o Darth Vader cantando no trio com o Bel Marques, levando pra casa o abadá e a amnésia.
Você vai dizer que tomei umas antes de escrever esse texto, mas eu [ainda assim] carnavalizo.
Sou gamada na bela desculpa que vem de carona com esse feriado pra dar a pausa que [acho que] mereço pra aliviar a frenesi absoluta que reina na maioria dos dias do meu pobre calendário. Vestindo alegria, fitilho no cabelo, sorriso no semblante: uma pausa consciente, necessária e bem-vinda. Pra falar bobagem, ver o sol nascer, dançar até os pés pedirem pinico.

