O Príncipe William e a Kate subiram ao altar, o combustível aumentou a largos passos, mas minha nada-mole vida segue na mesma rotina Aiai-meu-Deus: fila imensa de faróis, são 20h00, não consegui me desvencilhar do caos tipicamente paulista e, para o meu pesar, cotidiano. Panturrilhas em frangalhos, passar marcha é a minha academia compulsória diante dos vinte e tantos quilômetros que separam a Avenida Faria Lima do meu Lar, Doce Lar.
Ligo o rádio. Desligo. Tenho siricotico, vocês sabem. Olho para o lado, e observo os outros sabores de solidão nos carros ao meu redor: o cidadão que faz faxina nas narinas em público, o outro que se agarrou ao Blackberry como última esperança, o mongol que colocou o pescoço para fora assim como faz um cachorro de estimação, tentando especular se alguém pode ser esculhambado ou culpado pela pouca agilidade para acelerar nos semáforos... tem de tudo, e de mais nada eu duvido a essa altura do campeonato.
Maquiagem derrete, roupa incomoda, impaciência que não me sai: eu mesma não me aguento. Num momento de devaneio, penso longe: “Feliz é a Stella Benevides, que nem ao menos liga um DVD. Eu aqui, debilóide, querendo salvar o mundo equilibrada num scarpin...”. Naquele dia, talvez essa tenha sido minha suposição mais coerente.
Permitam-me, aliás, um parêntesis a esse respeito: costumo dizer por aí que minha vida se divide em a.S e d.S – antes e depois de encontrar Stella Benevides em um supermercado [quem não lembra pode se atualizar no texto “Prazer, Stella Benevides”]. Com Stellinha, assim como eu a chamo carinhosamente, aprendi uma penca de coisas, e presumo que o mesmo tenha ocorrido com vocês.
Foi com essa senhôura que eu me convenci, de uma vez por todas, que opinião é bandeira para hastear todos os dias, e não só para os feriados nacionais. Ostento, ainda, a minha incorrigível face de relações públicas do blog, mas me vi nos últimos tempos saindo do alto do muro, um recanto que eu dificilmente abandonava em nome da paz mundial, e da ameaça de conflitos. Sem perceber, comecei a dizer o que achava com muito mais freqüência e firmeza, e muito me agradei disso.
Foi com ela que aprendi a valorizar muito mais um “vá se foder” dito autenticamente e com eloqüência, ao invés de me contentar com uma meia-resposta vaga, falsa e carregada de politicagem. A doideira dela me faz crer, hoje, que palavrão é sábio verbete, quando utilizado devidamente. Minha fama de puritana vai me perseguir pra sempre, bem sei... mas que esse segredo fique, então, aqui entre nós.
Stellinha me ensinou que a boa música, via de regra, está em vinis que fazem mal às minhas zil alergias respiratórias. Ela ainda me odeia porque sei de umas letras bregas e de gosto duvidoso, mas trouxe para o meu iPod inúmeras faixas de Caetano, Bethania, Chico, Elis. Graças a ela, passei a olhar com muito mais atenção para mendigos, cães e gatos de rua. Sem nem mesmo ir ao médico, coisa que detesto, mais saudáveis ficaram os meus olhos e ouvidos, que passaram a funcionar em sintonia muito mais clara e limpa.
Com essa mulher que vocês bem conhecem, aprendi uma penca de lições sobre o meu maior emaranhado: o dos relacionamentos. Nunca me esqueço de quando ela me disse, sem nem me olhar muito e com aquele ar blasé de todos os dias, que romance não é opção: é falta dela. Eu, que sempre preenchia um questionário de 164 itens antes de comunicar o meu coração que eu podia me apaixonar sem restrições, passei a enxergar que o cara ideal não é, necessariamente, quem mamãe me diz ser o Príncipe montado num cavalo com trança embutida. E que romance não precisa de checklist. Caramba, como Stella me fez sentir burra!
Aquela véia maluca não me ensinou, felizmente, a me afeiçoar por whisky e cigarros – continuo surfando bem longe dessas ondas, mas ela é meu maior recibo de que a gente pode ser muito diferente de alguém, mas mesmo assim enxergar um mundo de coisas admiráveis nessa pessoa, e se sentir gigantemente orgulhosa pela sorte grande de tê-la conhecido um dia.

