Por Karina Lima
Na Avenida Ipiranga, choviam mil litros. Meus scarpins de cor chocante suspiravam com os pingos gelados e poças, silenciosamente pedindo abrigo seguro. Mas eis que, no alto do meu desespero pluviométrico, ouvi uma canção há tempos gravada pelo John Lennon sair da loja de CDs:
“A very merry Christmaaaas / And a Happy New Yeeeeear!”
Contrariando a minha conduta [quase sempre] hello-kíttica, pensei: ‘se Papai Noel topasse comigo aqui, nesse minuto, juro que chutaria a canela dele com todo o vigor’. Creiam: meu surto de marginalidade crônica passou rápido, assim como as chuvas de verão se vão – suspeito que seja culpa da minha intemperança ariana. Quando os neurônios voltaram a fazer as sinapses do bem, comecei a refletir sobre o inevitável: temo que 2010 vai acabar. Acabar com a gente. É sério.
Pense comigo: quando o ano começar a se despedir, teremos a obrigação social de injetar alegria irritante nas veias: parado aí, você tem a incumbência de ser muito feliz, e eu também, e é pra já. Não importa que os políticos sejam canalhas, que os preços dos produtos estejam pela hora da morte, que os barbeiros resolvam dirigir adoidado pelas ruas, que seu chefe carcamano planeje tirar férias em dezembro só pra te tirar a paz. Quem não sorrir mostrando seus 64 dentes nessa época vai ouvir um “cadê teu espírito natalino, hein?”. Escove seus dentinhos regularmente, sua arcada vai ser bem requisitada logo mais.
Nessa época, teremos a missão de ser sociáveis: participaremos dos Amigos Secretos da Associação de Moradores do Bairro, da Turma do Pré III de 1988, da empresa lotada de jararacas que reparam no nosso figurino todos os dias só pra achar um deslize fashion. Não nos esqueceremos de responder, uma a uma, todas as mensagens [várias são automáticas] de felicitações recebidas no email, no Orkut, SMS, no Facebook, no Sonico, no QuéPasa, no Linkedin, no HiFive, no Twitter, no RaiQueoParta, em tudo quanto é canto.
[Verdadeiros cartões de Natal são raros, mas tão raros... que quando recebo um de pessoa física, escrito a mão, só pra mim, realmente fico emochocada e me sinto especialíssima.]
Quando o ano vai dar tchau, fazemos check up médico. É bom, até porque muitos desses profissionais desaparecem das tocas nas férias de verão: melhor garantir a integridade da lataria e prevenir chatices. Também é necessário reduzir dimensões corpóreas – o plano verão, o projeto biquíni, a operação vestido branco. Faz sentido: dezembro é um mês repleto de confraternizações, drinques, farofas, chesters, sorvetes, nozes e nutellas. Depois, não esqueçamos da dieta pós-orgia-alimentar, já que comeremos como se o amanhã, esse desconhecido, simplesmente não existisse.
Pra 2010 virar bem, você precisa estabelecer metas – vale desde o painel de ‘O Segredo’, até fazer um Balanced Scorecard. Fica feio contar o que a gente empurrou pro ano que vem, lembre-se disso. Ah, é fundamental treinar o discurso sobre como você se realizou pacas esse ano, aliado a como suas super metas te levarão ao infinito e além em 2011. Cansei de ouvir pessoas dizendo que ganharam 34,80% mais grana, tiveram 40,54% mais êxito, fizeram 52,76% mais sexo – nota: o terceiro indicador é, geralmente, bem arredondado para cima.
Falta algo? Claro! As listas: presentes para Deus e o mundo, itens para viajar, ingredientes para a ceia, penduricalhos e guirlandas. Tudo isso pode ser adquirido em locais tranquilíssimos como shoppings, mercados e a 25 de Março: uma paz que contagia, um silêncio de templo budista e amplos espaços de estacionamento livre. Se resolver comprar, vale inserir a lista das mandingas: as romãs, as lingeries coloridas, a lentilha, as uvas, especiarias, sal grosso, oferendas, mel de abelhas. Não tem choro e nem vela: todas as viradas são iguais, as pataquadas perduram, tem show do Roberto Carlos e come-se panetone. Sempre assim.
Se pudesse pedir algo, pediria trégua.
Meu desejo em meio a esse quase ataque da serra elétrica, é que o ano vire logo. Que, no decorrer dele, a gente sorria sem obrigação, renove as esperanças, faça planos inéditos... mas que, acima de tudo, pensemos que apenas um ciclo se fecha, ou um contador reinicia no dia 31. Continuaremos sendo os mesmos, e não há mágica que mude essa condição cruel, ou divina.
Pra 2011 ser incrível, minha sugestão verdadeira é de que você e eu ajudemos uma instituição beneficente pelo ano todo. Que sejamos gentis no trânsito sempre que possível [quem conseguir, me dê dicas]. Que tenhamos tardes livres pra visitar nossos avós ou um asilo. Que encontremos casa pra um cachorro abandonado, desses que o @o_colecionador recolhe por aí. Que sejamos bacanas com garçons. Que consigamos andar descalços vez em quando. Que tenhamos o desafio de aprender três coisas novas por dia, todos os dias. Que consigamos desfrutar do luxo de tomar um cappuccino ao ar livre e sem pressa. Que sobrem os surtos de entusiasmo, pintem sombras e águas frescas, chova alívio pros perrengues, haja mangas pra arregaçar. De janeiro a janeiro.
[Tá certo: se quiser me presentear, vá em frente. Mas escreva um cartão a tinta, combinado?]
Na Avenida Ipiranga, choviam mil litros. Meus scarpins de cor chocante suspiravam com os pingos gelados e poças, silenciosamente pedindo abrigo seguro. Mas eis que, no alto do meu desespero pluviométrico, ouvi uma canção há tempos gravada pelo John Lennon sair da loja de CDs:
“A very merry Christmaaaas / And a Happy New Yeeeeear!”
Contrariando a minha conduta [quase sempre] hello-kíttica, pensei: ‘se Papai Noel topasse comigo aqui, nesse minuto, juro que chutaria a canela dele com todo o vigor’. Creiam: meu surto de marginalidade crônica passou rápido, assim como as chuvas de verão se vão – suspeito que seja culpa da minha intemperança ariana. Quando os neurônios voltaram a fazer as sinapses do bem, comecei a refletir sobre o inevitável: temo que 2010 vai acabar. Acabar com a gente. É sério.
Pense comigo: quando o ano começar a se despedir, teremos a obrigação social de injetar alegria irritante nas veias: parado aí, você tem a incumbência de ser muito feliz, e eu também, e é pra já. Não importa que os políticos sejam canalhas, que os preços dos produtos estejam pela hora da morte, que os barbeiros resolvam dirigir adoidado pelas ruas, que seu chefe carcamano planeje tirar férias em dezembro só pra te tirar a paz. Quem não sorrir mostrando seus 64 dentes nessa época vai ouvir um “cadê teu espírito natalino, hein?”. Escove seus dentinhos regularmente, sua arcada vai ser bem requisitada logo mais.
Nessa época, teremos a missão de ser sociáveis: participaremos dos Amigos Secretos da Associação de Moradores do Bairro, da Turma do Pré III de 1988, da empresa lotada de jararacas que reparam no nosso figurino todos os dias só pra achar um deslize fashion. Não nos esqueceremos de responder, uma a uma, todas as mensagens [várias são automáticas] de felicitações recebidas no email, no Orkut, SMS, no Facebook, no Sonico, no QuéPasa, no Linkedin, no HiFive, no Twitter, no RaiQueoParta, em tudo quanto é canto.
[Verdadeiros cartões de Natal são raros, mas tão raros... que quando recebo um de pessoa física, escrito a mão, só pra mim, realmente fico emochocada e me sinto especialíssima.]
Quando o ano vai dar tchau, fazemos check up médico. É bom, até porque muitos desses profissionais desaparecem das tocas nas férias de verão: melhor garantir a integridade da lataria e prevenir chatices. Também é necessário reduzir dimensões corpóreas – o plano verão, o projeto biquíni, a operação vestido branco. Faz sentido: dezembro é um mês repleto de confraternizações, drinques, farofas, chesters, sorvetes, nozes e nutellas. Depois, não esqueçamos da dieta pós-orgia-alimentar, já que comeremos como se o amanhã, esse desconhecido, simplesmente não existisse.
Pra 2010 virar bem, você precisa estabelecer metas – vale desde o painel de ‘O Segredo’, até fazer um Balanced Scorecard. Fica feio contar o que a gente empurrou pro ano que vem, lembre-se disso. Ah, é fundamental treinar o discurso sobre como você se realizou pacas esse ano, aliado a como suas super metas te levarão ao infinito e além em 2011. Cansei de ouvir pessoas dizendo que ganharam 34,80% mais grana, tiveram 40,54% mais êxito, fizeram 52,76% mais sexo – nota: o terceiro indicador é, geralmente, bem arredondado para cima.
Falta algo? Claro! As listas: presentes para Deus e o mundo, itens para viajar, ingredientes para a ceia, penduricalhos e guirlandas. Tudo isso pode ser adquirido em locais tranquilíssimos como shoppings, mercados e a 25 de Março: uma paz que contagia, um silêncio de templo budista e amplos espaços de estacionamento livre. Se resolver comprar, vale inserir a lista das mandingas: as romãs, as lingeries coloridas, a lentilha, as uvas, especiarias, sal grosso, oferendas, mel de abelhas. Não tem choro e nem vela: todas as viradas são iguais, as pataquadas perduram, tem show do Roberto Carlos e come-se panetone. Sempre assim.
Se pudesse pedir algo, pediria trégua.
Meu desejo em meio a esse quase ataque da serra elétrica, é que o ano vire logo. Que, no decorrer dele, a gente sorria sem obrigação, renove as esperanças, faça planos inéditos... mas que, acima de tudo, pensemos que apenas um ciclo se fecha, ou um contador reinicia no dia 31. Continuaremos sendo os mesmos, e não há mágica que mude essa condição cruel, ou divina.
Pra 2011 ser incrível, minha sugestão verdadeira é de que você e eu ajudemos uma instituição beneficente pelo ano todo. Que sejamos gentis no trânsito sempre que possível [quem conseguir, me dê dicas]. Que tenhamos tardes livres pra visitar nossos avós ou um asilo. Que encontremos casa pra um cachorro abandonado, desses que o @o_colecionador recolhe por aí. Que sejamos bacanas com garçons. Que consigamos andar descalços vez em quando. Que tenhamos o desafio de aprender três coisas novas por dia, todos os dias. Que consigamos desfrutar do luxo de tomar um cappuccino ao ar livre e sem pressa. Que sobrem os surtos de entusiasmo, pintem sombras e águas frescas, chova alívio pros perrengues, haja mangas pra arregaçar. De janeiro a janeiro.
[Tá certo: se quiser me presentear, vá em frente. Mas escreva um cartão a tinta, combinado?]



