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sexta-feira, dezembro 17, 2010

Um 2011 e um Cappuccino

Por Karina Lima
Na Avenida Ipiranga, choviam mil litros. Meus scarpins de cor chocante suspiravam com os pingos gelados e poças, silenciosamente pedindo abrigo seguro. Mas eis que, no alto do meu desespero pluviométrico, ouvi uma canção há tempos gravada pelo John Lennon sair da loja de CDs:

“A very merry Christmaaaas / And a Happy New Yeeeeear!”

Contrariando a minha conduta [quase sempre] hello-kíttica, pensei: ‘se Papai Noel topasse comigo aqui, nesse minuto, juro que chutaria a canela dele com todo o vigor’. Creiam: meu surto de marginalidade crônica passou rápido, assim como as chuvas de verão se vão – suspeito que seja culpa da minha intemperança ariana. Quando os neurônios voltaram a fazer as sinapses do bem, comecei a refletir sobre o inevitável: temo que 2010 vai acabar. Acabar com a gente. É sério.

Pense comigo: quando o ano começar a se despedir, teremos a obrigação social de injetar alegria irritante nas veias: parado aí, você tem a incumbência de ser muito feliz, e eu também, e é pra já. Não importa que os políticos sejam canalhas, que os preços dos produtos estejam pela hora da morte, que os barbeiros resolvam dirigir adoidado pelas ruas, que seu chefe carcamano planeje tirar férias em dezembro só pra te tirar a paz. Quem não sorrir mostrando seus 64 dentes nessa época vai ouvir um “cadê teu espírito natalino, hein?”. Escove seus dentinhos regularmente, sua arcada vai ser bem requisitada logo mais.

Nessa época, teremos a missão de ser sociáveis: participaremos dos Amigos Secretos da Associação de Moradores do Bairro, da Turma do Pré III de 1988, da empresa lotada de jararacas que reparam no nosso figurino todos os dias só pra achar um deslize fashion. Não nos esqueceremos de responder, uma a uma, todas as mensagens [várias são automáticas] de felicitações recebidas no email, no Orkut, SMS, no Facebook, no Sonico, no QuéPasa, no Linkedin, no HiFive, no Twitter, no RaiQueoParta, em tudo quanto é canto.

[Verdadeiros cartões de Natal são raros, mas tão raros... que quando recebo um de pessoa física, escrito a mão, só pra mim, realmente fico emochocada e me sinto especialíssima.]

Quando o ano vai dar tchau, fazemos check up médico. É bom, até porque muitos desses profissionais desaparecem das tocas nas férias de verão: melhor garantir a integridade da lataria e prevenir chatices. Também é necessário reduzir dimensões corpóreas – o plano verão, o projeto biquíni, a operação vestido branco. Faz sentido: dezembro é um mês repleto de confraternizações, drinques, farofas, chesters, sorvetes, nozes e nutellas. Depois, não esqueçamos da dieta pós-orgia-alimentar, já que comeremos como se o amanhã, esse desconhecido, simplesmente não existisse.

Pra 2010 virar bem, você precisa estabelecer metas – vale desde o painel de ‘O Segredo’, até fazer um Balanced Scorecard. Fica feio contar o que a gente empurrou pro ano que vem, lembre-se disso. Ah, é fundamental treinar o discurso sobre como você se realizou pacas esse ano, aliado a como suas super metas te levarão ao infinito e além em 2011. Cansei de ouvir pessoas dizendo que ganharam 34,80% mais grana, tiveram 40,54% mais êxito, fizeram 52,76% mais sexo – nota: o terceiro indicador é, geralmente, bem arredondado para cima.

Falta algo? Claro! As listas: presentes para Deus e o mundo, itens para viajar, ingredientes para a ceia, penduricalhos e guirlandas. Tudo isso pode ser adquirido em locais tranquilíssimos como shoppings, mercados e a 25 de Março: uma paz que contagia, um silêncio de templo budista e amplos espaços de estacionamento livre. Se resolver comprar, vale inserir a lista das mandingas: as romãs, as lingeries coloridas, a lentilha, as uvas, especiarias, sal grosso, oferendas, mel de abelhas. Não tem choro e nem vela: todas as viradas são iguais, as pataquadas perduram, tem show do Roberto Carlos e come-se panetone. Sempre assim.

Se pudesse pedir algo, pediria trégua.

Meu desejo em meio a esse quase ataque da serra elétrica, é que o ano vire logo. Que, no decorrer dele, a gente sorria sem obrigação, renove as esperanças, faça planos inéditos... mas que, acima de tudo, pensemos que apenas um ciclo se fecha, ou um contador reinicia no dia 31. Continuaremos sendo os mesmos, e não há mágica que mude essa condição cruel, ou divina.

Pra 2011 ser incrível, minha sugestão verdadeira é de que você e eu ajudemos uma instituição beneficente pelo ano todo. Que sejamos gentis no trânsito sempre que possível [quem conseguir, me dê dicas]. Que tenhamos tardes livres pra visitar nossos avós ou um asilo. Que encontremos casa pra um cachorro abandonado, desses que o @o_colecionador recolhe por aí. Que sejamos bacanas com garçons. Que consigamos andar descalços vez em quando. Que tenhamos o desafio de aprender três coisas novas por dia, todos os dias. Que consigamos desfrutar do luxo de tomar um cappuccino ao ar livre e sem pressa. Que sobrem os surtos de entusiasmo, pintem sombras e águas frescas, chova alívio pros perrengues, haja mangas pra arregaçar. De janeiro a janeiro.

[Tá certo: se quiser me presentear, vá em frente. Mas escreva um cartão a tinta, combinado?]

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Outubro

Por Lilian Buzzetto
Dezembro chegou, finalmente. Fiz aniversário, envelheci, enruguei e desconfio que o creme anti-idade para minha nova primavera custe mais caro agora. (Parabenizem-me e digam-me que continuo linda, lisa e jovem, seus desalmados! Grata.)

Enfim, Dezembro chegou e, como em todos os anos, tenho a nítida impressão que esse mês horrendo vai durar uns noventa dias, no mínimo.

Como mal-humorada-clichê que sou, detesto – com todas as poucas forças que ainda me restam nessa altura do campeonato – o mês das festas e suas festas. Na minha humilde visão, o ano seria plenamente viável com apenas 10 meses – um número redondo, bonito, satisfatório e adequado para destrinchar impostos com base anual sem a necessidade de calculadora ou dois dedos do pé.

Se o fim fosse em Outubro, eu acho que ainda teria coragem de entrar num shopping/mercado lotado e encarar filas imensas para comprar presente para parente distante, roupa branca, peru, chester, tender e os mais variados galináceos. Sairia saltitante com sacolas cheias de Sidra Cereser, Espuma de Prata, uva, abacaxi, cereja, romã, lentilha, uma árvore de natal e muitas, mas muitas bolinhas.

Em Outubro, acho que veria alguma beleza nas luzinhas espalhadas por todos os cantos que – atualmente – só servem para me dar enxaqueca. E, talvez, eu nem notasse que os prédios estão parecendo varal de pobre com decoração em varanda sim, varanda não - nas piores combinações de cores possíveis. Com esforço, eu superaria essa total falta de simetria piscando aleatoriamente.

Lá atrás, por volta do dia 300 do ano, não ficaria tão incomodada com a programação monotemática da TV que, invariavelmente, alterna especiais de cantores do século III a.C. e filmes onde há um órfão, sofrimento, sofrimento, sofrimento, mais sofrimento, uma espécie de milagre bizarro e um final feliz surreal. Talvez, eu assistisse a vinheta de “Aprendendo a Contar com Esqueceram de Mim” sem pensar que – se os filmes tivessem a mais vaga relação com a realidade – os pais do Macaulay Culkin perderiam sua guarda por irresponsabilidade recorrente e pagariam uma fortuna em terapia pro moleque.

Em meados do dia-das-crianças, eu ainda não estou cansada e amargurada a ponto de sentir ganas de jogar na cara do Gordo-Barbudo-Vestindo-Vermelho do shopping que ele é um babaca preconceituoso que só gosta e só presenteia as crianças boazinhas, que têm pais com algum dinheiro. Não desejaria ter uma forma de obrigá-lo a dar uma bicicleta-com-cestinha-e-tudo para crianças menos favorecidas que se dedicaram na escola, não se meteram em encrenca e respeitaram os pais. Acho que eu não ficaria com a esmagadora impressão de que o Papai Noel só serve para mostrar – a filhotinhos de gente de só 4 anos de idade – que decência e honestidade compensam menos se você tiver nascido pobre.

Acima de tudo, se o ano fosse menorzinho e eu não estivesse passada, possivelmente, eu não teria tanta vontade de voar no pescoço daquela criatura que exalta “Espírito de Natal” – como se meia dúzia de histórias sobre caridade, amor, paz e luz redimissem a humanidade do descuido de ter largado a Caixa de Pandora escancarada nos 11 meses anteriores.

Se essa onda de amor de Natal não me soasse como a coisa mais hipócrita que já ouvi, não mandaria à merda meu aparelho de TV por dizer que a emissora me deseja tudo-de-bom-e-mais-meio-quilo no intervalo da Retrospectiva. Eu, provavelmente, não pareceria insana ao gritar com o âncora do jornal dizendo que ele foi um filho da puta que se deleitou com a audiência gerada por todo tipo de desgraceira e que agora não adianta tentar me animar com essa mixaria de fatos iluminados que sugerem que a humanidade tem jeito. [Ô âncora, anota aí: eu vejo você e seus amiguinhos jornalistas ignorando durante todos os outros meses, várias pessoas que fazem o bem sem o tal do Espírito Natalino cutucando-lhes a bunda].

Acho que, lá em meados de Outubro, eu não sentia tanta vontade de rasgar o jornal que, mês a mês, me rouba aquela renovada fé na humanidade que eu insisto em ter após as resoluções de ano novo. Onze meses de espera por esperança me deixaram imune a qualquer tentativa de ficar subitamente feliz balançando ao som do “disco” da Simone.

Faço apenas um pedido ao Bom Velhinho: eu quero cinco minutos, numa saleta à prova de som, com o energúmeno que teve a brilhante idéia de colocar o Natal somente a cinco dias do fim do ciclo. Sozinha e com um porrete, claro.

Mas, para não estragar a alegria de ninguém, parto agora para meu casulo “dezembrístico”, onde ficarei confortavelmente isolada, garantindo minha sanidade mental e a integridade do aparelho de TV. Em Janeiro, volto com novas indignações e mimimis – menos amargos, menos agressivos, menos melancólicos. Pelo menos até o próximo Outubro.

E, para você, que consegue – Boas Festas!