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domingo, maio 30, 2010

E então, fim do mundo?

Por Karina Lima
Botecar é uma bela arte. Até aí, não apresento novidade alguma. Pra ser bem sincera, toquei nesse assunto porque, meus caros, foi em uma prosa despretenciosa de bar que tive um dos papos mais cabeça dos meus últimos tempos de existência errante. O álcool, como é sabido, nos leva aos mais diversos caminhos, e um deles é o da verborragia. Há outros, como o da conduta estúpida – esse também tem um quê bem divertido. Tem o da telefonia celular descabida, que rende uma penca de arrependimentos posteriores quando a gente telefona pra quem não deveria nunca mais, nem sob hipótese de tortura chinesa. E tem o da Perda Total, também. Ah, isso dá é pano pra manga...

Sem perder muito o foco – no Mulherices, a gente adora isso – lhes conto o que d
izíamos naquela ocasião: que em tempos super modernos, vemos claramente duas visões bem distanciadas para quem vive nesse mundo doido: uma delas é a do hedonismo [do grego, ‘prazer’ ou ‘vontade’]. Aquele tal negócio: nossa cambada valorizando o presente, a busca da realização, a felicidade plena. Do hedonismo, há quem diga que para uns a conduta descamba para a alienação -- fechar os olhos para aquilo que é ruim e desagradável. Essa última é a corrente da vida da filósofa Hello Kitty, muito referenciada neste blog em que vos falo. Ou o jeitão da Poliana, também.[Trocando em miúdos, sabe aquela gente que faz de tudo com a desculpa de que temos que viver como se o amanhã não fosse chegar? Pois é. Esse tipinho aí.]
A outra corrent
e, na contramão da primeira, é a da visão do fim, do caos, do apocalipse, do nada, do negativo. Olhem pros cinemas e pro Youtube pra comprovar o quanto essa forma de pensar tem gerado cifras e gente interessada. A produção mais recente nesse sentido é o filme ‘2012’ com a marcante imagem do Cristo Redentor despencando e um número sem-fim de dilúvios, queimadas, choro, suor, lágrimas, sangue e mimimis. O ano de 2012, que será bissexto, está carregado de crenças voltadas à mudança: tem gente que acredita até que ETs virão dar o ar da graça por aqui – a gente bebe, e esse povo é que se desorienta com idéias esdrúxulas. Eu, pelo menos, acho isso.

Minha humilde e estrogonófica opinião: o mundo já está acabando há muito, e sinais destacados em canetas marca-texto me mostram, todos os dias, que nossa partida é breve e inevitável. Uma dessas revelações foi a aparição do Luan Santana, o moço que canta a música do ‘Meteoro da Paixão’ – quando essa catástrofe atingiu meus tímpanos, comecei a me despedir desse mundo vil e cruel. Essa bossa de AimeuDeus só se agrava: é Restart, Sonia Abraão, NXZero, Fiuk, escalação do Dunga... ei, você, consegue captar a corrida e caminhada atlética pro abismo? Ô geral, aviso: salve-se quem puder.

Se o fim é inevitável, a próxima pauta que veio à tona antes do outro chopp foi: o que fazer, se o dia fosse o último, e se nada mais restasse? Aí, minha gente, surgiu de tudo: cenas de cinema [ver o pôr do sol no cais, ir à praia com o namorado – imaginem o trânsito pro litoral], sandices [correr pela Paulista pagando peitinho, dar o calote na Daslu], devaneios bêbados [passar a noite na Praça da Sé, com uma garrafa de whisky e um cão vira-latas], logísticas tortas [voar pra Nova Zelândia – morrer voando?], safadices reprimidas [encher a cara e pendurar a conta, ir a casas de swing, fazer strip-teases, protagonizar atentados violentaços ao pudor], nonsense [vestir-se de Darth Vader, mandar a tia fofoqueira com regata de viscose ir tomar nos fundilhos, provar churrasco grego com suco de R$0,50]. Quanto mais chopp, mais idéias extravagantes surgiram. A noite foi regada a gargalhadas sonoras, interação com estranhos que queriam opinar no fórum, e pela presença de garçons boa-praç
a que acompanhavam os pitacos enquanto deixavam, vagarosamente, os petiscos e bebidas sobre a mesa.

Confesso que estava sóbria [salvo em raríssimas exceções não-motorizadas, costumo terminar as noites assim pra guiar a salvo pra casa]. Manobrei o carro subindo a Rua Melo Alves pensando em algo curioso: o mundo precisa mesmo acabar para que todo mundo se livre de um peso muito óbvio, mas real – o de arcar com o julgamento que pode surgir quando o pecado de permitir-se acontece. Pra exercer a tal da liberdade, é preciso mesmo ter a garantia da queda do tal meteoro?

(Billy Brandão – Paulinho Moska)

“O Último Dia”


 

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