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sexta-feira, julho 29, 2011

Pendência

Por Karina Lima
Tenho que vencer nessa vida, é urgente. Conhecer o mundo, sacar belas fotografias, degustar os sabores mais exóticos, manejar a agenda cotidiana com o talento de uma malabarista circense, alimentar essa minha sede doida pelo constante movimento. Isso tudo sem deixar a vida passar despercebida. Assobiando e chupando cana.

Tenho que ter um lindo e amplo escritório com um frigobar retrô e um baleiro das antigas, ornando com decoração off-white, futurista, moderninha, inusitada. Para isso, trabalho desenfreadamente: penso no prosecco, em tudo o que ainda tenho que fazer, nas minhas ambições,  e me lanço, confiante. Escolhi empreender, dar risada do risco, calculá-lo todos os dias, conquistar, persuadir. Optei por uma profissão pela qual tenho paixão, e paixão é um lance que te leva até as últimas conseqüências.

Tenho que ser uma máquina de criatividade, é urgente. Para isso, devoro livros e revistas, armo a agenda para passar manhãs em livrarias, alimentando meu ímpeto por criar algo novo, reinventar o que há. Para isso, olho o mundo sempre com a intenção de capturar o evento, guardar uma boa sacada, trazer uma inspiração no bolso. Mal descanso: ando acordada demais, é o que dizem por aí.

Tenho que estar próxima dos entes e amigos mais amados – para isso, me desdobro em 1000 para saudar nos aniversários, escrever um recado carinhoso em Post-It, mandar um cartão natalino, passar uma noite fazendo escândalo num karaokê, planejar uma viagem incrível, promover uma roda de chopp ou de pizza pra multidão. Pelo meu eleitorado, não durmo, e vale a pena cada pedaço de sacrifício. 

Tenho que ponderar minha absoluta sinceridade: talvez ela até tenha um quê ingênuo em vários momentos, porque insisto em botar fé no mundo bem-intencionado, que valoriza a verdade nua e crua, sem pó compacto e nem corretivo.

Tenho que me exercitar, mesmo quando tudo o que queria era só dormir. Meu próprio organismo já nem se encosta por muitas horas: vive como o bombeiro que, a qualquer momento, pode ser acionado para apagar o fogo em uma esquina qualquer. Claro que sou uma criatura levemente alucinada, que acorda cantando, mas moram em mim um coelho e um bicho-preguiça que se engalfinham todo dia – desde algum tempo,  o coelho anda em séria vantagem nessa pancadaria sem fim.

Tenho que encontrar minha metade, é urgente. Para não ouvir minha avó dizer que já estou madura demais, para não ficar a mercê de circunstâncias, para não sentir a mais profunda solidão acompanhada na balada: pra lá, só vou se a vontade de ‘dançar como se ninguém estivesse vendo’ me invadir. Caso contrário, me deixo envolver pelo pijama e as minhas pantufas do Homer Simpson.

Tenho que ser a melhor filha do mundo, é urgente. Nada mais justo que retribuir todo o empenho, amor e sacrifício feitos em meu nome, um dia. Em busca disso, espremo meus horários, levo meus pais para provar comida nova, e me delicio ao assistir suas pequenas descobertas, e o brilho nos olhos deles por fazer isso em família, por ter sua prole por perto, rindo de bobagem, lembrando do que já se foi. Eles protagonizam meus melhores momentos.

Tenho que fazer mais pelo próximo. Nada me traz mais novas energias do que isso. A cada hora dedicada aos meus pequenos no hospital, penso em poder, um dia, doar muito mais: sou eu quem mais ganho, ao final das contas. Doar-se gera, hoje sei, um divisor de águas na vida.

Tenho que escrever pro Mulherices, um projeto pelo qual carrego todo o carinho, que me transformou em cronista por acidente. Nos últimos dias, a @lilianbuzzetto tem enlouquecido geral com o fim do Mestrado e o trabalho insano, a Stella Benevides se deu férias porque acaba de catar mais uma penca de filhotes de gatos de rua, e está lá na fase mais devota da adoção, tomando porres diante da Remington sem um sulfite ou texto novo sequer. Ela vive em outro ritmo, o tempo dela passa mais devagar, a véia já não corre mais, e me chama de nerd lunática. Fico cá matutando com meus botões se não sou mesmo a louca desvairada nessa história...

Tenho que ter tempo livre. Pra desenhar bichos pra minha afilhada com giz de cera, pra deixar o tempo passar em frente a uma temporada inteira de série de TV, pra chorar com filme água com açúcar, pra adormecer num fim de tarde, bater papo no bar, ler um livro bem, mas bem bocó.

Tenho que tomar um porre pra esquecer metade das coisas anotadas na minha mente burocrata.  É urgente.   :-)

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Um 2011 e um Cappuccino

Por Karina Lima
Na Avenida Ipiranga, choviam mil litros. Meus scarpins de cor chocante suspiravam com os pingos gelados e poças, silenciosamente pedindo abrigo seguro. Mas eis que, no alto do meu desespero pluviométrico, ouvi uma canção há tempos gravada pelo John Lennon sair da loja de CDs:

“A very merry Christmaaaas / And a Happy New Yeeeeear!”

Contrariando a minha conduta [quase sempre] hello-kíttica, pensei: ‘se Papai Noel topasse comigo aqui, nesse minuto, juro que chutaria a canela dele com todo o vigor’. Creiam: meu surto de marginalidade crônica passou rápido, assim como as chuvas de verão se vão – suspeito que seja culpa da minha intemperança ariana. Quando os neurônios voltaram a fazer as sinapses do bem, comecei a refletir sobre o inevitável: temo que 2010 vai acabar. Acabar com a gente. É sério.

Pense comigo: quando o ano começar a se despedir, teremos a obrigação social de injetar alegria irritante nas veias: parado aí, você tem a incumbência de ser muito feliz, e eu também, e é pra já. Não importa que os políticos sejam canalhas, que os preços dos produtos estejam pela hora da morte, que os barbeiros resolvam dirigir adoidado pelas ruas, que seu chefe carcamano planeje tirar férias em dezembro só pra te tirar a paz. Quem não sorrir mostrando seus 64 dentes nessa época vai ouvir um “cadê teu espírito natalino, hein?”. Escove seus dentinhos regularmente, sua arcada vai ser bem requisitada logo mais.

Nessa época, teremos a missão de ser sociáveis: participaremos dos Amigos Secretos da Associação de Moradores do Bairro, da Turma do Pré III de 1988, da empresa lotada de jararacas que reparam no nosso figurino todos os dias só pra achar um deslize fashion. Não nos esqueceremos de responder, uma a uma, todas as mensagens [várias são automáticas] de felicitações recebidas no email, no Orkut, SMS, no Facebook, no Sonico, no QuéPasa, no Linkedin, no HiFive, no Twitter, no RaiQueoParta, em tudo quanto é canto.

[Verdadeiros cartões de Natal são raros, mas tão raros... que quando recebo um de pessoa física, escrito a mão, só pra mim, realmente fico emochocada e me sinto especialíssima.]

Quando o ano vai dar tchau, fazemos check up médico. É bom, até porque muitos desses profissionais desaparecem das tocas nas férias de verão: melhor garantir a integridade da lataria e prevenir chatices. Também é necessário reduzir dimensões corpóreas – o plano verão, o projeto biquíni, a operação vestido branco. Faz sentido: dezembro é um mês repleto de confraternizações, drinques, farofas, chesters, sorvetes, nozes e nutellas. Depois, não esqueçamos da dieta pós-orgia-alimentar, já que comeremos como se o amanhã, esse desconhecido, simplesmente não existisse.

Pra 2010 virar bem, você precisa estabelecer metas – vale desde o painel de ‘O Segredo’, até fazer um Balanced Scorecard. Fica feio contar o que a gente empurrou pro ano que vem, lembre-se disso. Ah, é fundamental treinar o discurso sobre como você se realizou pacas esse ano, aliado a como suas super metas te levarão ao infinito e além em 2011. Cansei de ouvir pessoas dizendo que ganharam 34,80% mais grana, tiveram 40,54% mais êxito, fizeram 52,76% mais sexo – nota: o terceiro indicador é, geralmente, bem arredondado para cima.

Falta algo? Claro! As listas: presentes para Deus e o mundo, itens para viajar, ingredientes para a ceia, penduricalhos e guirlandas. Tudo isso pode ser adquirido em locais tranquilíssimos como shoppings, mercados e a 25 de Março: uma paz que contagia, um silêncio de templo budista e amplos espaços de estacionamento livre. Se resolver comprar, vale inserir a lista das mandingas: as romãs, as lingeries coloridas, a lentilha, as uvas, especiarias, sal grosso, oferendas, mel de abelhas. Não tem choro e nem vela: todas as viradas são iguais, as pataquadas perduram, tem show do Roberto Carlos e come-se panetone. Sempre assim.

Se pudesse pedir algo, pediria trégua.

Meu desejo em meio a esse quase ataque da serra elétrica, é que o ano vire logo. Que, no decorrer dele, a gente sorria sem obrigação, renove as esperanças, faça planos inéditos... mas que, acima de tudo, pensemos que apenas um ciclo se fecha, ou um contador reinicia no dia 31. Continuaremos sendo os mesmos, e não há mágica que mude essa condição cruel, ou divina.

Pra 2011 ser incrível, minha sugestão verdadeira é de que você e eu ajudemos uma instituição beneficente pelo ano todo. Que sejamos gentis no trânsito sempre que possível [quem conseguir, me dê dicas]. Que tenhamos tardes livres pra visitar nossos avós ou um asilo. Que encontremos casa pra um cachorro abandonado, desses que o @o_colecionador recolhe por aí. Que sejamos bacanas com garçons. Que consigamos andar descalços vez em quando. Que tenhamos o desafio de aprender três coisas novas por dia, todos os dias. Que consigamos desfrutar do luxo de tomar um cappuccino ao ar livre e sem pressa. Que sobrem os surtos de entusiasmo, pintem sombras e águas frescas, chova alívio pros perrengues, haja mangas pra arregaçar. De janeiro a janeiro.

[Tá certo: se quiser me presentear, vá em frente. Mas escreva um cartão a tinta, combinado?]

domingo, maio 30, 2010

E então, fim do mundo?

Por Karina Lima
Botecar é uma bela arte. Até aí, não apresento novidade alguma. Pra ser bem sincera, toquei nesse assunto porque, meus caros, foi em uma prosa despretenciosa de bar que tive um dos papos mais cabeça dos meus últimos tempos de existência errante. O álcool, como é sabido, nos leva aos mais diversos caminhos, e um deles é o da verborragia. Há outros, como o da conduta estúpida – esse também tem um quê bem divertido. Tem o da telefonia celular descabida, que rende uma penca de arrependimentos posteriores quando a gente telefona pra quem não deveria nunca mais, nem sob hipótese de tortura chinesa. E tem o da Perda Total, também. Ah, isso dá é pano pra manga...

Sem perder muito o foco – no Mulherices, a gente adora isso – lhes conto o que d
izíamos naquela ocasião: que em tempos super modernos, vemos claramente duas visões bem distanciadas para quem vive nesse mundo doido: uma delas é a do hedonismo [do grego, ‘prazer’ ou ‘vontade’]. Aquele tal negócio: nossa cambada valorizando o presente, a busca da realização, a felicidade plena. Do hedonismo, há quem diga que para uns a conduta descamba para a alienação -- fechar os olhos para aquilo que é ruim e desagradável. Essa última é a corrente da vida da filósofa Hello Kitty, muito referenciada neste blog em que vos falo. Ou o jeitão da Poliana, também.[Trocando em miúdos, sabe aquela gente que faz de tudo com a desculpa de que temos que viver como se o amanhã não fosse chegar? Pois é. Esse tipinho aí.]
A outra corrent
e, na contramão da primeira, é a da visão do fim, do caos, do apocalipse, do nada, do negativo. Olhem pros cinemas e pro Youtube pra comprovar o quanto essa forma de pensar tem gerado cifras e gente interessada. A produção mais recente nesse sentido é o filme ‘2012’ com a marcante imagem do Cristo Redentor despencando e um número sem-fim de dilúvios, queimadas, choro, suor, lágrimas, sangue e mimimis. O ano de 2012, que será bissexto, está carregado de crenças voltadas à mudança: tem gente que acredita até que ETs virão dar o ar da graça por aqui – a gente bebe, e esse povo é que se desorienta com idéias esdrúxulas. Eu, pelo menos, acho isso.

Minha humilde e estrogonófica opinião: o mundo já está acabando há muito, e sinais destacados em canetas marca-texto me mostram, todos os dias, que nossa partida é breve e inevitável. Uma dessas revelações foi a aparição do Luan Santana, o moço que canta a música do ‘Meteoro da Paixão’ – quando essa catástrofe atingiu meus tímpanos, comecei a me despedir desse mundo vil e cruel. Essa bossa de AimeuDeus só se agrava: é Restart, Sonia Abraão, NXZero, Fiuk, escalação do Dunga... ei, você, consegue captar a corrida e caminhada atlética pro abismo? Ô geral, aviso: salve-se quem puder.

Se o fim é inevitável, a próxima pauta que veio à tona antes do outro chopp foi: o que fazer, se o dia fosse o último, e se nada mais restasse? Aí, minha gente, surgiu de tudo: cenas de cinema [ver o pôr do sol no cais, ir à praia com o namorado – imaginem o trânsito pro litoral], sandices [correr pela Paulista pagando peitinho, dar o calote na Daslu], devaneios bêbados [passar a noite na Praça da Sé, com uma garrafa de whisky e um cão vira-latas], logísticas tortas [voar pra Nova Zelândia – morrer voando?], safadices reprimidas [encher a cara e pendurar a conta, ir a casas de swing, fazer strip-teases, protagonizar atentados violentaços ao pudor], nonsense [vestir-se de Darth Vader, mandar a tia fofoqueira com regata de viscose ir tomar nos fundilhos, provar churrasco grego com suco de R$0,50]. Quanto mais chopp, mais idéias extravagantes surgiram. A noite foi regada a gargalhadas sonoras, interação com estranhos que queriam opinar no fórum, e pela presença de garçons boa-praç
a que acompanhavam os pitacos enquanto deixavam, vagarosamente, os petiscos e bebidas sobre a mesa.

Confesso que estava sóbria [salvo em raríssimas exceções não-motorizadas, costumo terminar as noites assim pra guiar a salvo pra casa]. Manobrei o carro subindo a Rua Melo Alves pensando em algo curioso: o mundo precisa mesmo acabar para que todo mundo se livre de um peso muito óbvio, mas real – o de arcar com o julgamento que pode surgir quando o pecado de permitir-se acontece. Pra exercer a tal da liberdade, é preciso mesmo ter a garantia da queda do tal meteoro?

(Billy Brandão – Paulinho Moska)

“O Último Dia”


 

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domingo, janeiro 17, 2010

Esquadrão da Impaciência

Por Karina Lima

“Esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte quase sempre às tontas, pois nunca as malas estão prontas e a nossa conta nunca está em dia.” (Mário Quintana)

Buzinas. Faróis. Céus, será que toda a histeria dessa gente cabe em uma avenida apenas? Soldados, a guerra está declarada e está aqui: ninguém dá passagem, todos têm pressa descomunal, parecem em pânico pra tirar o pai da forca. Pressa pra quê? Tudo está engarrafado logo em frente...

Ouse vacilar um milésimo de segundo em frente a um farol aberto pra ouvir uma sinfônica de grosserias – é nessa hora que, perdendo a civilidade, você sente vontade de despejar seu vasto estoque de mal criações nessa gente neurótica. Descer do salto vira instinto, ou vira regra.

[quem nunca buzinou pra arranjar encrenca, arremesse na minha testa a primeira pedra ]

Essa corja de apressados anda bem mimada... ninguém suporta perder nada, nem por um triz. Perder hora, perder vantagem, promoção, reunião, horário, consulta, avião. São crianças grandes. Por muitas vezes, eu as detesto em absoluto. Aliás, prefiro mil vezes os pequeninos aos adultos, coisa que já não é mais novidade nessa minha existência errante.

Você já tentou bater um bolo com pressa? E fazer uma refeição quente na correria? E pintar um quadro ou um desenho rapidamente? O resultado, via de regra, costuma ser catastrófico. A contramão é clara: vivemos o tempo da pressa. Fast food, foto instantânea, Poupatempo, congelados, pay-per-view, academia 24 horas. ‘Não tenho tempo’, ‘Tô na correria’, ‘Tô mais enrolada que carretel’, ‘Tô com a agenda superlotada’. Compras de Natal, maratona semanal, calvário diário infernal. Pergunto-me de onde saiu essa tendência de viver aos trancos e barrancos, correndo, sofrendo, numa sina ofegante. A sensação que me invade é de que ter pressa virou moda, é cool, é tendência.

Nesse caldeirão de angústias modernas, tomei para mim um novo mantra. Quando me vejo enlouquecer geral e arquibancada, correndo freneticamente e fazendo tudo-ao-mesmo-tempo-agora, repito: ‘Pressa para quê, por qual motivo?’. Toda vez que a resposta é coerente, sigo adiante. Caso contrário, peço ao corpo e à mente que desacelerem, dentro do possível.

Pode até parecer pura poesia ou coisa clichê, mas não é o caso. Quero ter tempo. Desesperadamente, o quero. Tempo pra observar o cair da tarde, pra rabiscar com giz de cera, pra fazer nada sem sentir culpa, pra ouvir boa música, pra viver o que há de bom com gente do bem. Quero qualidade, intensidade, matar a saudade. Fazer desse tempo o melhor tempo possível.

Conto que em um fim de tarde desses, há poucos dias, foi que aprendi essa lição da calma: uma conhecida com absoluta sede pela vida morreu no último réveillon, foi o que soube pelos comentários que pipocavam aqui e ali. Da causa, eu nem soube. No entanto, graças à janela que as redes sociais dão pra vida dos outros, parei perplexa encarando o Orkut quando vi a música que, ultimamente, fazia a cabeça dessa moça que virou estrela:

"Paciência"

(Lenine / Dudu Falcão)