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sexta-feira, novembro 19, 2010

Se eu fosse Presidenta

Por Karina Lima
Se a Festa [Obrigatória] da Democracia tivesse me brindado liderança absoluta nas urnas, estou certa de que ainda não teria pregado os olhos direito por nenhuma noite inteira. Só de pensar no reboliço que isso poderia representar na minha-nada-mole-vida, minhas tripas ameaçam enroscamento geral, curto circuito e pane generalizada. Confabulei a respeito dessa pauta há pouco e quase fundi meu pobre cérebro tentando construir um plano imaginário de governo -- pairou até cheiro de queimado na varanda da sala de estar. O jeito foi compartilhar aqui só o que sobrou assim que desisti -- claro -- dessa tarefa. Não há remédio, isso é o que temos para hoje.

Conto que um dos meus primeiros pensamentos sobre o assunto, olhando para um cursor piscando na folha pálida do Word, foi: se eu fosse presidenta, investiria pesado em educação para o máximo de pessoas, incluindo o Tiririca. Abrangência integral: desde a cartilha com a lição da pata que nada até o ensino profissionalizante e a graduação, porque deliro para ver na ativa uma usina de cabeças que brilhem no mercado de trabalho, que mostrem o pensamento além do cafezinho da firma. Organizações que empreguem gente que queira mais que enganar o patrão no horário comercial.

Se eleita, eu posicionaria o sistema prisional como a principal via para a ocupação de mentes perigosas: se detentos produzissem zilhões daquelas cadeirinhas de bebê obrigatórias no país, quem sabe assim não pararíamos de receber trotes lá de Bangu, né? Essa gente anda ociosa demais. E olhe lá que trotes são pouca coisa dentro do que esses garotos malvados ‘produzem’ enquanto vêem o sol nascer quadrado, se é que vocês me entendem.

Se eu ocupasse o cargo mais alto na nossa política, não escaparia do estigma de combater a sede e a fome – é duro admitir, e a Madame Mayara Petruso não aprovaria isso de modo algum, mas aqui no nosso chão há uma série de urgências: às vezes, em meio à caatinga ou em um barraco modesto, não há tempo de esperar que uma criança aprenda a tabuada do 6, para depois alimentá-la com tutu de feijão. Encantaria-me representar uma nação que tivesse apenas fome de saber, fome de justiça, fome de inovação... mas não poderia, de modo algum, fechar os olhos para a fome latente de panela, brutalmente presente, cruel vilã que ainda ceifa tantas vidas, todos os dias.

Se eu fosse essa autoridade exemplar, investiria primeiro nos leitos e na infra-estrutura de Hospitais Nacionais, de responsabilidade do Governo Federal, para em seguida fazer valer o conceito de Humanização Hospitalar: quem dera contar com locais onde corpos e mentes fossem curados, todos os dias. Um sonho, uma nova fronteira – a saúde iria fazer valer o seu próprio significado, produzindo novos sorrisos.

Governando o Brasil, daria nele um choque de gestão empresarial, porque a Máquina Nacional está com as pilhas bem fracas. Meus ministros, por exemplo, seriam escolhidos por headhunters -- nessa vida, não há milagre sem prévia romaria, certo? Na Segurança, buscaria incessantemente profissionais com a bagagem moral e a fibra do Capitão Nascimento – dentre os materiais de escritório, sacos plásticos teriam grande estoque. Só por precaução.

Conduzindo um país, criaria um vestibular para pré-aprovar deputados e senadores – seria o fim da ditadura dos submongolóides. Para aplicar no processo de candidatura, seria mandatório saber estruturar projetos, falar com coerência, comprovar experiência, não ter o ‘sobrenome’ de alguma fruta, não ser cantor do KLB, não ter ganho visibilidade por ter agredido mulheres. Ah, não menos importante: bigodinhos safadjeenhos a la Sarney, nunca mais na história desse país. [Alô CQC, Pânico e Trupe dos Cassetas: com isso, suas pautas precisariam urgentemente de alguma novidade, a fonte secaria... né?]

Se eu fosse presidenta, procuraria um personal stylist e usaria gloss nos lábios. Tenho ciência, aliás, de que barba cinza e nove dedos são as tendências para o momento no cenário pop, mas eu tentaria inovar e quebrar esse tão forte paradigma. Ah, e se eleita, daria um Nintendo Wii pro Serra se ocupar e adquirir hábitos mais, digamos, vivos. [Oká, cessaram as minhas maldades. Parei por hoje.]

Uma vez aclamada chefe de governo, cortaria o barato de toda a corja que planeja mil patifarias com as obras superfaturadas nos estádios de futebol para a Copa. Ah, e no meu governo, o Corinthians jamais teria sequer menção na pauta “abertura dos jogos”, não mesmo [não coloquem minha mamãe no meio, xinguem só a presidenta]. Empenharia-me ao máximo para impulsionar o Brasil em seu momento de maior plenitude e evidência através desses incríveis eventos -- a briga seria feia, mas muito válida, estou certa.

Se eu ganhasse a corrida presidencial, não incluiria o rosa choque nas cores da bandeira nacional, e nem sairia por aí bradando a vitória suprema feminina, independente, arrojada e purpurinada. Não é preciso ter muito esclarecimento para saber que homens e mulheres possuem habilidades distintas, e que competência, meu povo, é bênção assexuada: você é aquilo que pratica. Esse papo feminista me dá uma preguiça...

Governando lá em Brasília, ouvir o Hino Nacional me causaria ainda mais comoção – veja lá que hoje meu pobre coração já acelera só em escutar os primeiros acordes dessa melodia, hein? Eu poderia ter zil desejos de realização e um número sem-fim de desafios, mas talvez um sentimento maior fosse dividido com vocês: de que minha luta diária seria em prol de desmanchar o nó na garganta que está aqui, mantido graças a um sistema injusto, covarde e mesquinho, que castiga quem faz a lição de casa e beneficia encapetados que se comportam pessimamente mal.

Só valeria a pena virar Presidenta sendo, mesmo, excelentíssima.

domingo, março 14, 2010

Candidata

Por Stella Benevides
Pois é.

Acharam que eu seria crucificada em praça pública depois daquele meu último textinho, falando umas coisinhas sobre aquele povo que se veste de arco-íris.

Acharam. As meninas do blog acharam. Elas têm muito medo das coisas que eu escrevo, já falei isso pra vocês? Pois é, elas têm. Acho que uma vez por mês, elas se arrependem um pouco e se perguntam onde estavam com a cabeça quando convenceram “aquela velha maluca” a escrever no mesmo blog que elas. Elas não falam, mas pensam. Eu sei que pensam. E morro de rir.

Acontece que não me crucificaram, não. Bem pelo contrário. Tirando dois ou três ranhetinhas praticantes do coitadismo – uma modalidade de comportamento muito na moda hoje em dia –, a esmagadora maioria escreveu dizendo que concordava com o que eu penso. Até eu fiquei surpresa. Mas depois, pensei bem e entendi o que se passa nas cabecinhas das pessoas. Acontece que muita gente se sente obrigada a concordar com certas coisas, de tanto que elas são marteladas o tempo todo, como se fossem verdades absolutas, né? Mesmo não concordando, concordam. Até que aparece uma velha maluca, fala o que pensa e é como se o ovo tivesse sido colocado em pé. Acho que é mais ou menos isso.

Sei que não me crucificaram, não me apedrejaram.

Mas a coisa mais engraçada foi outra. Mandaram um e-mail todo sério pra mim, lá pro blog. A Karina veio aqui e me mostrou. Ela teve que esperar eu parar de rir. E eu ri por uns dez minutos.

É que eu fui convidada pra entrar num partido político!

É, é!
Partido, desses que disputam eleição.
Ta certo que é um desses partidos nanicos, de gente bem estranha, com uma legenda que eu nunca tinha ouvido falar. Mas me convidaram. Segundo disseram, pela minha “capacidade de comunicação, sobretudo com a juventude” e pelo meu “pensamento independente”.

[Esperem um pouco, me deu outro ataque de riso. Já volto.]

[Pronto.]
Eu pensei em esculhambar, dizendo a eles que na instituição psiquiátrica em que eu vivo, a cota de políticos já está completa por um Hitler, um Getúlio Vargas e vários Napoleões. Mas depois, pensei bem e pedi pra Karina mandar uma resposta educadinha, dizendo que eu agradecia, mas que não estava e jamais estaria interessada.

Imaginem vocês, eu, Stella Benevides, que outro dia mesmo fui convencida, com muito custo, a tirar o pó da minha máquina de escrever pra participar de algo que eu nem sabia direito o que era, agora candidata! Aparecendo de terninho no horário político. Fazendo comício na periferia, abraçando velhinhos desdentados e pegando criancinhas melequentas no colo.

[Outro ataque de riso. Um minuto.]

[Pronto.]

Acontece que, nesse tipo de política, de partidos e de palavras bonitas, eu já deixei de acreditar há muito tempo. E, cada vez que olho em volta, que leio jornal, que penso nas pessoas que comandam e nas que podem vir a comandar esse país em futuro próximo, eu acredito menos ainda.

Esse ano vai mudar o presidente. Poderia ser um alivio, só de a gente se livrar daquele fanfarrão bizarro. Mas só de pensar nas opções, eu me sinto mais desolada ainda.
Tem a cria do fanfarrão, aquela senhora estranha, que é a cara do Cauby Peixoto. Que até outro dia era uma ilustre desconhecida. Que nunca governou coisa nenhuma. Que é daquela patota que acha o máximo lamber as botas do Fidel Castro. Dessa gente que é movida por uma tal de ideologia, que eles não aceitam de jeito nenhum que já está velha, podre e embolorada. Eles, que se auto-proclamam “heróis”, repetem a todo instante que “lutaram contra a ditadura”, mas se “esquecem” de dizer que o plano deles, naquela época, era substituir uma ditadura por outra, igual a da União Soviética, da China e, claro, de Cuba.

Essas pessoas que passaram mais de 20 anos na oposição, criticando todo mundo, se achando melhores, mais puros e mais honestos e que, bastou chegar no governo e ... pá! Meteram a mão. Flagrados na maior roubalheira de toda a história, o tal do “mensalão”. E ainda hoje, ouve-se alguns partidários fanáticos deles querendo justificar, insinuando que o roubo deles era diferente, era pra deixar o partido mais forte, pra ganhar mais eleições e, claro, continuar levando o Brasil pelo caminho do paraíso. Inauguraram por aqui o “roubo ideológico”.

Francamente.
E, se a cumpanhêra não ganhar, o presidente vai ser o careca mocorongo. Ele, que se fosse patriota, que se fosse macho, tinha ido pro pau contra o sapo barbudo na eleição de quatro anos atrás, justamente quando os cumpanhêros estavam enlameados até o pescoço, tentando explicar a roubalheira que tinham promovido. Em vez disso, ele fez o que? Largou a prefeitura que tinha acabado de assumir na mão do vice e se candidatou ao governo do Estado, que ele sabia que ia ganhar com um pé nas costas.

Aliás, São Paulo é praticamente um feudo dessa gente! Parece que são eternos, já estão aqui há dezesseis anos e querem mais. Aqui, fazem o que querem, com sua assembléia de deputadinhos amestrados, sem oposição, com todo “apoio” da mídia, que é muito bem paga com um montão de anúncios do governo na TV, no rádio e nos jornais. E esse careca, carreirista, obcecado pelo poder, mostrou pra quem conseguiu ver, a sua face de ditadorzinho demagogo, com a histeria sobre o cigarro, botando lei dentro dos estabelecimentos particulares e conseguindo o que queria: um monte de espaço pra se promover na imprensa!

Não voto nesse homem nem que ele venha em casa me pedir. Mas, se vier, antes de colocá-lo pra correr, vou me divertir, fumando muito, bem na cara dele.

Sabem o que acontece nessa pataquada toda sobre eleição? É que não vai fazer a menor diferença! Bom, se não me pregaram na cruz mês passado, é capaz que façam isso agora. Mas é o que eu penso. Do jeito que as coisas estão, quando você escolhe um candidato, na prática só está escolhendo qual o bando de filhos-da-puta que vai te roubar pelos próximos anos.

Políticos querem exatamente isso, que a gente fale muito neles e que a gente dê a eles muita importância. Mas eles não têm importância. Primeiro porque, as coisas realmente importantes, as grandes decisões que interferem na minha e na sua vida, são tomadas muito longe daqui, por gente muito mais poderosa, lá na ONU. E por pessoas ainda mais poderosas, alguns que nem políticos são, e que mandam na ONU. Ainda mais num país vaquinha-de-presépio feito o Brasil, que aceita tudo e abana o rabinho, louco pra ganhar uns presentinhos, uma copinha do mundo, uma olimpiadazinha. Esses políticos que ganham o governo aqui, não passam de uns gerentes regionais.

E segundo porque, importantes mesmo, num país, somos NÓS, que trabalhamos, geramos dinheiro e SUSTENTAMOS essa gente! Principalmente quem investe, quem abre empresa, quem planta, quem corre risco, quem dá a cara pra bater. Não faz nenhum sentido pensarmos nos políticos como nossos patrões. E é assim que eles nos fazem pensar. As coisas só mudam mesmo no dia em que a sociedade colocar esses vagabundos no lugar deles: de nossos EMPREGADOS. E aí, os governos teriam que diminuir de tamanho ao mínimo necessário, só pra gerenciar e organizar o que é NOSSO. Se eles quiserem. Se não quiserem, que encontrem outra ocupação, esses palhaços. Vão encher laje ou pegar um tanque de roupa pra lavar, pra ver se é fácil!

O que? Estão achando que eu estou fazendo discurso?
Só faltam me dizerem que, se por acaso eu enlouquecer e entrar pro partido que me convidou, vocês vão votar em mim.

Vou ali, ter mais um ataque de riso.