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domingo, novembro 01, 2009

Sorriso de hoje, por muitos hojes

Por Karina Lima

O clique genial do fotógrafo que imortalizou a leveza de um conjunto de dunas na Namíbia me aprisiona por alguns instantes – o pensamento que pipoca em minha mente é de que a Mãe Natureza é dona de uma fotogenia que chega até a ser covarde, de tão grande.

O sol invade, sorrateiramente, a vidraça. Mais uns passos adiante no largo corredor, de claridade e limpeza gigantes, e me deparo com um modesto mural onde questões como campanha ambiental e ação papa-pilhas são fortemente divulgadas por um Comitê de Ética. O sentimento que me invade é de que os homens podem ser criaturas admiráveis quando tomados por nobres causas. Aquele tal negócio: benditas sejam as exceções nessa vida...

Mais alguns passos despretensiosos, e encaro uma gravura linda de Kandinsky: na hora, me vem o retrospecto daqueles finais de tarde que costumo passar na Livraria Cultura fuçando livros de arte, revistas de música, ouvindo CDs novos e lendo tiras de Mafalda, Calvin e Haroldo – atualmente, eis aí um de meus passatempos favoritos, confesso a vocês. E se isso tudo for arrematado com um bom expresso, taí a construção de um momento perfeito.

O ritual começa: hora do armário. Livros, revistinhas, giz de cera, desenho, jogos, fantoches. Avental, trança e flor pra ornar a cabeleira: estou no Hospital Abril Sodré, uma das unidades da AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente. No calendário, hoje é a vez do sábado. A calmaria do ambiente hospitalar fora interrompida pela transmissão do Teleton 2009, e meu olhar acompanha o ronco entusiasmado do motor de um ônibus cujo destino era justamente a sede do SBT, levando pequenos pacientes e seus pais. O tema da maratona televisiva desse ano é ‘Eu me movo’. Por falar nisso, era dada a minha hora de partir para a ação. Respirar, fazer uma prece, esboçar aquela pose de auto-confiança, lançar-se àquilo que, sem demagogias, sempre foi um real sonho.

Elevador – disfarço meu pânico diante dessa geringonça detestável enquanto observo a montanha de materiais em meus braços – aleluia, agora estou no andar! Na recepção do piso público do hospital, o time de contadores de histórias se encontra e saúda calorosamente. Enquanto isso, reflito que o movimento de Humanização Hospitalar chegou, mesmo, para ficar.

Logo no hall, veio a primeira boa surpresa da manhã: Gabi, no alto de seus gloriosos 9 anos (e não é que pareci o Faustão falando isso?), recupera-se de mais uma cirurgia e espera por um aparelho caríssimo, via doação. A cadeira de rodas dela é podre de chique: rosa-bebê, cor do enxoval da Barbie. Ela telefona para os irmãos (tem quatro deles), fala pelos cotovelos, bracinhos cortando o ar como se eles pudessem vê-la: a Gabrielle gesticula horrores, e é só sorriso, veste-se dele da cabeça até os pés. Após o tal alô pra parentada, descubro que essa pequena notável é craque no dominó dos bichos: perdi três partidas praquela ferinha, só para começar essa prosa. Dela, ganhei um desenho que foi parar num caixote de madeira em que guardo meus maiores tesouros. O iceberg ambulante aqui conteve o choro: crianças são minha grande fronteira emocional. Limitação, onde? Esses anjos são vivos, cheios de talento, carisma e esperança – a gente não sabe é de nada.

Com o Mateus, em seguida, o desafio foi ainda maior: imóvel, com sonda e visível incômodo, ele choramingava e não queria almoçar nem com reza braba. Aqui está a magia: alguma negociação, histórias de terror (ah, eles ainda temem a Loira do Banheiro!), lições leves sobre a importância de uma boa alimentação pra voltar para casa e rever a vovó, que veio da Bahia para vê-lo... e eis que o mocinho de pouca idade e olhar encantadoramente doce aceita as primeiras garfadas dadas pela mãe que, nos olha com ternura e vibra. Ele come, bebe e brincamos de procurar Wally em um livro de figuras – fiz isso demais quando também era pequenina.

Debruçada ao lado da cama, presencio genial cena: o primeiro sorriso que quebra o jejum de um período difícil, de dor e recuperação. Aí, o clima só melhora: falamos de videogames, desenhos, super-heróis. “Sabe, tia? Meu pai não me deixa jogar Harry Potter, não: coisa do capeta, ele sempre diz!” – aí, quem ri sou eu: espirituosos sem querer, eles são assim, essa espontaneidade toda, esses frágeis milagres materializados.

Os ponteiros do relógio correm como maratonistas, e minhas duas horas semanais de voluntariado terminam. Objetivo simples, porém fundamental, alcançado: levar sorrisos hoje. Ali aprendo e divido que as melhores histórias do mundo são aquelas que aprendemos contando – nem engolindo um dicionário eu teria palavrologia suficiente pra explicar esse lance delicioso e divino. O inefável coração, nessa movimentação toda, quase voa goela afora, batuca feito escola de samba, e manda um SMS pro cérebro dizendo: “Tô bem vivo e palpitando”. Ô, se tá. * Para fabricar sorrisos por vários hojes, acesse: www.vivaedeixeviver.org.br.

domingo, outubro 25, 2009

O Amor segundo Stella

Por Stella Benevides
Mesmo sem eu resolver se vou ou não fazer a tal da coluna “Stella Responde”, já estão chegando “cartinhas” pra mim, com perguntas. Pode isso? A Karina veio aqui em casa com o computadorzinho portátil e me mostrou. E fica me infernizando:

- Responde, Stellinha! Responde!

Saco.

Eu não consigo resolver nem as questões aqui do condomínio felino, do qual eu sou a síndica. Agora, Paulo Salim deu pra derrubar das vasilhas a comida dos outros. Depois ele deita em cima e fica me olhando, na maior cara de pau, como quem diz:

- A comida sumiu, foi? Eu não sei de nada. Não sei o que é isso debaixo de mim. Não é meu. Não fui eu. Inclusive, esse gato deitado em cima da comida também não sou eu!

As perguntas que chegam são quase todas de mocinhas em busca de um tal de “amor”. De um jeito ou de outro, sempre acaba nisso. Ai, que tédio.

- Responde, Stellinha! Responde!

Isso não vai dar certo. Isso não pode dar certo. Eu vou explicar porque.

É que eu jamais vou dar o tipo de resposta ou de (credo!) “conselho” que suas mães dariam, entenderam? Aliás, se você quer mesmo saber o que é o tal do “amor”, a primeira coisa que deve fazer é parar de ouvir o que sua mãe fala. Esqueça a idéia de que “mãe sabe tudo”. Mãe não sabe nada! Mãe sabe te ajudar se você está gripada, com cólica ou não sabe que roupa usar na festa. Pra encontrar homem pra você sua mãe nunca vai ajudar. Não é porque ela seja burra ou velha. Não. É porque o fator mãe sempre vai se sobrepor ao fator mulher. Então, pra ela, homem bom pra você sempre vai ser um que, na visão dela, possa te proporcionar uma existência tranqüila, sem sobressaltos. Um que te “respeite”. Um que não vá te fazer sofrer. Um sem vícios. Que tenha bom emprego, boa família e blablabá.

Visualizou, né? Um sujeito branquinho, arrumadinho, penteadinho e limpinho. Daquele tipo que você manda passear dez vezes e dez vezes ele aparece no dia seguinte, na sua porta, com flores. Um tédio. Sua mãe quer alguém pra cuidar de você, que bonitinha! Não quer nem saber se o engomadinho sabe te comer. Sua mãe quer te ver protegida.

Mas não é disso que estamos falando, né?
Bom, pelo menos não é disso que EU estou falando.

Não estou falando de marido. Eventualmente pode até ser, mas não é esse o assunto. Eu estou falando de uma coisa que quase sempre dura pouco. Será que você está captando?

[Bom, se você não está interessada, aproveite agora e mude de blog. As meninas me falaram que existem muitos blogs escritos para o tal do “universo feminino”. Vai, sai. Vai procurar um que seja bem cor-de-rosa e não me amole mais!]

Se você ainda estiver aí, vou te dizer que o sujeito que vai te fazer ter tremeliques provavelmente não terá nada a ver com o modelo desejado pela sua mãe. Provavelmente será alguém que você nem sequer apresentará à sua mãe. Porque ele pode ser estranho, torto, meio maníaco. Talvez até seja pobre. Certamente nem é bonito. Talvez se vista de forma esquisita, talvez não te trate muito bem, talvez seja muito mais velho que você. Talvez tenha uma ex-esposa esquizofrênica ou uns filhos insuportáveis.

Não importa.

Esqueça esse papo furado sobre vícios. Sua cama não é igreja. Nem consultório médico, né? Se o sujeito é todo certinho, só come comida natural, não bebe, não fuma, não joga, é batata: também não trepa!

Esqueça também a história sobre “respeito”. Homem não respeita. Ele respeita a mãe, a avó, talvez a prima, se ela for gorda. Não a mulher que ele quer. Se você saiu com o sujeito, foi parar na casa dele e nada aconteceu, esqueça: não é esse o cara. Esse é meio bicha. Ou muito bunda mole. Ou, se não for nem bicha, nem bunda mole, é pior: ele não te quis mesmo e não vai te ligar nunca mais.

Filhinha, entenda afinal sobre o que é que eu estou falando: amor é o efeito colateral do sexo. Mas não de qualquer sexo. Eu falo daquele sexo. Você só ama mesmo alguém com quem tenha essa “coisa”. E, a menos que você seja uma adolescente idiota que lê Capricho e assiste Malhação ou tenha a idade mental de uma e precise flexionar o verbo “ficar”, sua ridícula, para se esgueirar das palavras certas, sabe do que é que eu estou falando.

Bom, talvez não saiba.
Talvez não saiba ainda.
É: talvez nunca chegue a saber. É um risco.
Eu não posso fazer nada por você.

Eu só sei que esse cara, esse de quem estou falando, esse que é todo diferente do genro que sua mãe sonhou, é quem pode te apresentar “isso”. Desde que você deixe de sonhar com um mundo cor-de-rosa, esqueça o conceito picareta de “ah, ta na hora de fisgar alguém!”, pare de achar que o tal do “amor” é uma linha de chegada. Definitivamente entenda que o amor não te leva ao Paraíso. Se você quer chegar ao Paraíso, vá de metrô, que é barato, rápido e não tem trânsito. Ou, se você é uma muçulmana fundamentalista radical, desse povo maluco que quer explodir tudo, enfie uma dinamite na piriquita e acenda o pavio. Pronto, você vai chegar ao Paraíso. Alá vai estar te esperando na porta. Alá, não seu homem.

Esse cara muito provavelmente é alguém que você jamais verá após um almoço de domingo, conversando sobre futebol com seu pai – mas é um filho-da-puta descarado, que só de pegar no teu braço e te falar duas ou três indecências no ouvido, vai te deixar melada. Ta bom pra você?

Por esse cara – e por essa “coisa” que você tem com ele – você vai perder a hora dos compromissos, vai perder objetos, vai perder peso, vai ficar meio idiota. Mas vai adorar enquanto durar.

Uma pena que nem fabricam mais desses. Sei lá, eu acho que não fabricam. Saíram de linha. Os poucos que ainda circulam por aí são exemplares já bem rodados, quase se aposentando. Uma pena. E não há peças de reposição. Pra achar um em bom estado de conservação você tem que ter muita sorte.

Tente, quem sabe?

Mas, se você sonhou a vida inteira com um príncipe bonzinho e meloso, sempre pronto pra te homenagear e beijar seus pés em público, saiba que esse cara não vai fazer isso. Mas é bem possível que te diga coisas capazes de te fazer sentir a mais importante, a mais especial, a mais gostosa e a mais desejada das mulheres sem passar nem perto dos clichês idiotas das historinhas românticas. Ele vai te fazer uma declaração de amor de arrasar quarteirão, sem nem sequer mencionar a expressão cretina “eu te amo”.

Como faz esse dinossauro remanescente da raça, o Domingos de Oliveira, nesse textinho lindo aí:

Vamos ter um filho?
Vamos escolher o nome dele?
Deixa eu te alegrar quando você estiver triste?
Te ninar quando você estiver cansada?
Vamos foder o dia inteiro?

Deixa eu te fazer uma massagem com creme?
Vamos aprender a tocar piano juntos?
Vamos foder o dia inteiro?

Deixa eu ajoelhar, Glorinha, e beijar tua mão?
Vamos ser tão felizes que fiquemos calmos?
Tão calmos que fiquemos fortes?
Tão fortes que possamos ajudar todos os amigos que precisarem?
Vamos foder o dia inteiro?

Vamos aceitar tudo o que o outro é?
Defender tudo o que o outro é?
Amar tudo o que o outro é?
Vamos foder o dia inteiro?


Se isso não é a maior declaração do mundo, eu não sei o que é. O que pode ser mais enternecedor do que alguém te propor a aceitar, defender e amar tudo o que o outro é e depois te pedir pra foder o dia inteiro?

Eu vou parar de falar. Tomei três doses de Ballantine´s enquanto datilografava. A partir da quarta eu corro o risco de ficar ligeiramente emotiva. E isso não faz parte do meu contrato com o Mulherices.



DA REDAÇÃO
A pedido de Stella Benevides, procuramos e encontramos duas versões da “maior declaração de amor do mundo” em vídeo.

A primeira é com o próprio autor, Domingos de Oliveira, em cena do filme “Separações”

A segunda, em versão musicada, é com Alexandre Nero, no Programa do Jô.


E se você quer saber mais sobre o escritor, ator, dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, é só clicar AQUI.



sexta-feira, setembro 18, 2009

Sílvio

por Stella Benevides


Como contei há algumas semanas, fui convencida pela Karina a escrever pro tal do “blog”, dela e da coleguinha dela, a Vanessa, de Florianópolis. E não é que elas gostaram? E não é que elas juraram que mais um monte de gente gostou? Vieram me contar que não-sei-quantas pessoas tinham lido, comentado e blábláblá.

Eu não acredito.

Duvido que nesse mundo besta de hoje, com as pessoas presas nas suas redomas de bom comportamento, alguém aplauda gente como eu. Que fuma, bebe e fala palavrão. Que gosta mais de gato que de gente. Que não tem a menor paciência com crianças e que não acha nenhuma graça em velhinhos fofos. E, pior que tudo, não está nem aí para o que acham disso Foda-se. Não estou nem aí mesmo.

Mas eu achei divertida a brincadeira de escrever. Tanto que hoje saí pra comprar uma fita nova para minha Remington. As meninas me disseram que as pessoas nem sabem mais o que é uma máquina de escrever. Fodam-se as pessoas. É com ela que eu vou continuar escrevendo.

O problema é que eu entrei em umas dez papelarias e em nenhuma encontrei o que precisava. Em uma delas ainda tive que agüentar piadinha de um balconista, um moleque seboso, de cabelo espetado.

- Já procurou no Museu do Ipiranga, tia?

Pensei muito e decidi não reproduzir aqui o que eu respondi a ele. Sei lá, a mãe da Karina pode ler e brigar com ela. Ou os filhos da Vanessa, quem sabe. Mas acredito que os leitores do tal do “blog”, se é que eles existem, têm imaginação suficiente para supor o que eu disse.

Voltei pra casa sem minha fita e com os pés doendo. Estava louca por um banho e um uísque. Não necessariamente nessa ordem. Mas, na porta do prédio, encontrei Sílvio, que estava desaparecido há três dias.

De todos os meus felinos-filhos, Sílvio é o que me da mais trabalho. Desisti há tempos de tentar prendê-lo em casa. Telas, grades, nada resolve. Se for preciso, ele é capaz de sair pelo buraco da fechadura.

Um dia desses, a vizinha gorda do andar debaixo sugeriu que eu levasse Sílvio para ser castrado, que isso resolveria o problema. E eu, docemente, sugeri que ela cortasse as coisas do marido dela, posto que ele certamente já não as usava há muito tempo, pelo menos não com ela. Acho que ela não gostou muito da idéia, porque nunca mais falou comigo.

Silvio estava magro e todo estropiado, resultado de suas peripécias pelos inferninhos felinos. Peguei-o no colo, levei-o pra casa para tratar dele.

Quando me perguntam se o nome é homenagem ao Sílvio Santos, eu digo que sim, pra não complicar. Mas o nome completo do meu Sílvio é Sílvio Berlusconi! Sim, uma homenagem àquele exemplar remanescente do tempo que homem era homem. Rico, poderoso e fanfarrão. Sempre dando uma banana pros bons modos e chutando o protocolo. ADORO quando ele apronta uma daquelas, que os engomadinhos efeminados do mundo classificam como “gafe”! Gafe uma pinóia, ele faz é de propósito mesmo, eu percebo!

Se o governo dele presta ou não presta eu não sei, isso é problema dos italianos. Mas o que eu, definitivamente, acho o FIM, é ficarem patrulhando o cara para tentar derrubá-lo por aquilo que ele faz na vida privada. Igual fizeram com o Bill Clinton, que teve que se humilhar, com seu charutinho murcho em público e se ajoelhar diante do vestido manchado da estagiária gorducha. Porra de presidente! Literalmente.

Mas Berlusconi não vai se curvar, não. Vai continuar sendo o rei da Itália, da televisão de lá, do Milan e das putas. Tem mão de ferro. E pelo jeito, não só a mão. Os puritanos daqui, como os de lá, podem achar um horror, mas eu prefiro políticos assim a esses velhos borocochôs de Brasília, que não comem ninguém e descontam metendo na bunda do povo!

Haha!
E o povo deve gostar.
Por isso vota neles.

Brasileiro é um povinho besta.











sexta-feira, agosto 28, 2009

Prazer, Stella Benevides

Por Stella Benevides, a própria!


Uma e quinze da tarde, de uma manhã qualquer, eu em casa, começando a coar um café forte ao mesmo tempo em que procurava pelos meus óculos, regava a samambaia e servia o café da manhã dos meus oito felinos-filhos. Toca o telefone. Merda. Odeio quando o telefone toca e eu estou ocupada. Mesmo porque, quando o telefone toca aqui em casa, há uma gigantesca chance de que seja telemarketing, uma das maiores abominações do mundo moderno. Essa gente chata, pedindo donativo, vendendo purificador de água ou um plano imperdível de telefonia celular. E nem celular eu tenho! Não sei como eles continuam ligando depois das maldades que já fiz com alguns deles. Mas isso eu conto outro dia. Uma coisa, contudo, eu já aprendi sobre telemarketing: eles esperam a gente atender apenas cinco toques. Então eu espero também, só atendo no sexto. Se não há o sexto toque, é porque era telemarketing. Ou porque era alguém que não tinha assim tanta urgência em falar comigo. Dessa vez, houve o sexto toque. Eu atendi, era a Karina.

A Karina eu havia conhecido umas semanas antes, num hipermercado, num fim de tarde. Eu prefiro fazer compras de madrugada, hora em que não há chances de tropeçar em crianças endemoniadas pelos corredores e quando as filas nos caixas são bem menores. Eu odeio criança solta em supermercado. Acho que deveria ser obrigatório o uso de coleiras. Em alguns casos, focinheiras. Também odeio filas e quem puxa conversa comigo em filas. Quem puxa conversa comigo em fila de supermercado quase sempre são umas velhas desocupadas que querem comentar sobre uma promoção de xampu. Ou coisa bem pior. Dia desses esperava numa fila e um dos itens do meu carrinho era um pacote de cigarros. Uma velha de cara lavada, cabelo preso em coque e um saião que ia até o meio da canela me cutucou no ombro.

- A senhora precisa abandonar esse vício!

Como é que é, minha filha? Me conhece?

- A senhora não sabe o mal que se abriga nessa embalagem!

Tendo dito isso, abriu a bolsinha e tirou lá de dentro um papelzinho amarfanhado de propaganda de igreja. Segundo ela, eu deveria ir a um tal de culto da libertação. Eu pararia de fumar. E de beber. Eu me libertaria de tudo que é vício. Minha vida melhoraria absurdamente. Eu ficaria rica, saudável, feliz – e, provavelmente, linda como ela! Eu lá, desesperada porque a merda da fila não andava e a maldita da velha não parava de falar. Comecei a suar. Depois a tossir. Minha alergia a gente chata é implacável. E a velha continuava falando. Olhei bem pra ela, falei:

- A senhora pode passar na minha frente, que eu esqueci de pegar champanhe. Sexta-feira tenho que fazer um despacho e minha pomba-gira só aceita rosê!

Ficou lá parada, zoião arregalado. Diacho de gente insuportável! Não ficam contentes em fazer a religião lá entre eles, acham que têm que sair por aí perturbando os outros, arrumando mais clientes.

Mas eu estava falando da Karina. Eu tenho essa péssima mania de emendar um assunto no outro. Objetividade não é meu forte. Foi na fila do caixa, também, que eu conheci a Karina. Mas ela não cutucou meu ombro. Ela só achou engraçadas as caras que eu fazia, enquanto um velhinho à nossa frente se confundia durante a árdua tarefa de digitar a senha de quatro dígitos do cartão. Não sei que porra de modernidade é essa, dão cartão eletrônico pra esses pés-na-cova, olha no que dá! Isso eu não falei, eu só pensei. Mas a Karina deve ter captado telepaticamente, porque ela riu muito. Riu mais ainda quando, ao chegar minha vez, eu já fui dizendo: Não! Não! Dinheiro!

Eu não tenho paciência pra ouvir mocinha-treinada-para-trabalhar-no-caixa me fazendo aquelas mesmas perguntas, com aquela mesma voz molenga que todas elas têm:

- Nota fiscal pauliiiiiista?
- Cliente fidelidade da looooooja?
- Dinheiro ou cartããããão?

Um dia vão treinar uma foca pra fazer esse serviço e ninguém vai notar a diferença. Aliás, paciência também não é meu forte. Acredito que não seja difícil de notar. Eu só estava ali para comprar alguns itens de primeiríssima necessidade lá em casa – um pacote de Charm longo, um litro de Ballantine’s e um saco de 5 quilos de Whiskas, sabor salmão – e queria ir embora logo.

Paguei e entrei no elevador para o estacionamento. Não, eu não tenho carro, mas pretendia pedir fogo para um segurança com jeito de príncipe zulu no qual eu tinha batido os olhos num outro dia. Karina vinha saltitando nos scarpins logo atrás, pedindo pra segurar o elevador. Apenas dois pavimentos até o estacionamento. E não é que o desgraçado enguiça? Apagão no mercado todo e o elevador parou. Presos no elevador eu, o Ballantine´s, o Charm, o Whiskas – e a Karina. Ela insinuou um estado de pânico-mulherzinha, mas se acalmou quando me viu sentando no chão, tirando os sapatos, abrindo a garrafa e tomando um gole no gargalo. E acendendo um cigarro. E dizendo, docemente, as primeiras palavras dessa nossa amizade: PUTA QUE PARIU!

Durante os doze minutos que se seguiram (tempo que levaram para fazer a geringonça funcionar) trocamos palavras. O teor dessa conversa permanecerá em sigilo. Mas ela deve mesmo ter achado alguma graça em mim porque pediu meu telefone, dizendo que gostaria de voltar a conversar comigo. Bom, eu não tenho conhecido muita gente ultimamente e, desde que ela não fosse tentar me vender um purificador de água, eu não via nenhum problema.

Então naquela manhã, ela me ligou. Disse que queria minha participação em algo, me apresentar um projeto. Eu não entendo essa gente moderna, tudo o que inventam chamam de “projeto”. Parece que todos têm complexo de engenheiro.

Dei o endereço e dali a pouco lá estava ela. Falava pelos cotovelos.

- Stellinha, Stellinha! Você é perfeita para uma idéia que eu tive!

Sentamo-nos no sofá para conversar, acendi um cigarro, Tarcísio aninhou-se no meu colo. Tarcísio sempre procura meu colo quando me sento para ler ou só para meditar, entre um gole e uma tragada. Ele é muito carinhoso, daquele tipo de afeto que só os gatos sabem dar e que pouca gente entende. Ficou mais apegado a mim depois que Glória foi pro céu dos gatos. As pessoas não acreditam que ele tem vinte e cinco anos, gatos só vivem doze, quinze, mas ele tem vinte e cinco. Seu nome, claro, é uma homenagem ao maior de todos os galãs, daquele tempo em que os galãs tinham cara de homem e não de lagartixa, como esses de hoje. Montavam em cavalos bravos, falavam grosso e conquistavam suas amadas no braço, se necessário. Como Tarcísio, na primeira versão de Irmãos Coragem, em preto e branco, 1970.

Então a Karina falou entusiasmada do tal “projeto”, que ia ser assim e assado, que ia falar para e sobre as mulheres de hoje em dia, que blablablá e blablabá, que ia ter a participação de outra moça sen-sa-cio-nal lá de Florianópolis, que o blog isso, que o blog aquilo, e não-sei-mais-o-que e tal, que ela queria que eu participasse porque eu poderia dar um toque diferente, que eu tinha uma visão de mundo mais “ampla” (esse povo moderno adora uns eufemismos metidos a besta pra dizer que alguém é velho!) e isso e aquilo e blog pra cá, blog pra lá, blog, blog, blog.

Esperei ela terminar, acendi calmamente mais um cigarro, traguei, soltei a fumaça pela janela, fiz um carinho no Tarcísio, olhei bem pra ela e só fiz uma pergunta:

- Karina, o que é “blog”?

Ela tentou disfarçar a expressão de espanto, mas eu logo informei a ela que o contato mais íntimo que tive com computadores foi no tempo dos bingos (ah, que saudade!), quando havia aqueles terminais para jogar com várias cartelas.

Bom, ela me explicou o que era “blog” e jurou que muita gente ia ler, feito uma revista feminina semanal, só que sem papel. Eu DE-TES-TO revistas femininas! Abriu a maletinha que carregava e só então eu notei que se tratava de um desses computadorezinhos portáteis.

- Eu vou te mostrar o template que eu fiz! Eu gravei no pendrive! Ué, cadê o pendrive ... estava aqui, cadê?

Eu não sabia o que era template e nem o que era pendrive, mas quando ela me disse que uma dessas coisas, não sei exatamente qual delas, era um objeto pequeno, semi-cilíndrico e leve, eu me levantei e fui procurar por Paulo Salim.

Paulo Salim eu encontrei vagando sobre o Minhocão, há uns quatro ou cinco anos. Apesar da aparência de mendigo, todo esfolado, magro e faminto, tinha um ar arrogante de quem já foi gato de madame. E me deu trabalho, não queria sair de lá. Parecia mesmo que o Minhocão era dele. Mesmo assim, quando eu o trouxe para casa e cuidei dele, ainda não tinha um nome para lhe dar. Até que começaram a sumir coisas.

Peguei o canudinho debaixo da almofada de Paulo Salim e entreguei à Karina que me mostrou as figurinhas engraçadinhas na tela e continuou falando, falando e falando.

- Stellinha, você tem que escrever pro Mulherices!

Eu, Stella Benevides, após quatro casamentos, querendo uísque e sossego, vivendo com oito gatos e nenhum computador, escrever sobre “mulherices” com essas meninas cibernéticas?

Ah, me poupem!
Idéia absurda, me deu saudade das vendedoras de telemarketing.

Karina não aceitou uísque e nem ficar pra jantar. Quando saiu pela porta ainda falava entusiasmada. Para não decepcioná-la, falei que ia pensar no assunto.

Eu não ia pensar em nada!

Mas...
Naquela noite, quando terminou o Programa do Jô, começou um filme muito chato. Nos outros canais, programas de gente tirando capeta do corpo. Fiquei com medo de ver a velha do supermercado na TV. Desliguei. Meus felinos-filhos todos dormindo quietinhos. Fiquei andando pelo apartamento, copo e cigarro na mão. Matutei, matutei. Peguei a escada e encontrei no alto do guarda-roupas a minha velha Remington, portátil, igual ao computadorzinho da Karina. Tirei a poeira, achei umas folhas de sulfite. Sentei-me diante dela e pensei:

- Por que não?

Mulherices, sei. Conheço muitas.
Ok, vamos tentar.

[datilografando]
Muito prazer, Stella Benevides.



Vinheta de abertura original da novela "Irmãos Coragem" (Rede Globo, 1970) - segundo Stella Benevides, uma novela do tempo em que os galãs tinham cara (e atitude) de homens.