Mesmo sem eu resolver se vou ou não fazer a tal da coluna “Stella Responde”, já estão chegando “cartinhas” pra mim, com perguntas. Pode isso? A Karina veio aqui em casa com o computadorzinho portátil e me mostrou. E fica me infernizando:- Responde, Stellinha! Responde!
Saco.
Eu não consigo resolver nem as questões aqui do condomínio felino, do qual eu sou a síndica. Agora, Paulo Salim deu pra derrubar das vasilhas a comida dos outros. Depois ele deita em cima e fica me olhando, na maior cara de pau, como quem diz:
- A comida sumiu, foi? Eu não sei de nada. Não sei o que é isso debaixo de mim. Não é meu. Não fui eu. Inclusive, esse gato deitado em cima da comida também não sou eu!
As perguntas que chegam são quase todas de mocinhas em busca de um tal de “amor”. De um jeito ou de outro, sempre acaba nisso. Ai, que tédio.
- Responde, Stellinha! Responde!
Isso não vai dar certo. Isso não pode dar certo. Eu vou explicar porque.
É que eu jamais
vou dar o tipo de resposta ou de (credo!) “conselho” que suas mães dariam, entenderam? Aliás, se você quer mesmo saber o que é o tal do “amor”, a primeira coisa que deve fazer é parar de ouvir o que sua mãe fala. Esqueça a idéia de que “mãe sabe tudo”. Mãe não sabe nada! Mãe sabe te ajudar se você está gripada, com cólica ou não sabe que roupa usar na festa. Pra encontrar homem pra você sua mãe nunca vai ajudar. Não é porque ela seja burra ou velha. Não. É porque o fator mãe sempre vai se sobrepor ao fator mulher. Então, pra ela, homem bom pra você sempre vai ser um que, na visão dela, possa te proporcionar uma existência tranqüila, sem sobressaltos. Um que te “respeite”. Um que não vá te fazer sofrer. Um sem vícios. Que tenha bom emprego, boa família e blablabá.Visualizou, né? Um sujeito branquinho, arrumadinho, penteadinho e limpinho. Daquele tipo que você manda passear dez vezes e dez vezes ele aparece no dia seguinte, na sua porta, com flores. Um tédio. Sua mãe quer alguém pra cuidar de você, que bonitinha! Não quer nem saber se o engomadinho sabe te comer. Sua mãe quer te ver protegida.
Mas não é disso que estamos falando, né?
Bom, pelo menos não é disso que EU estou falando.
Não estou falando de marido. Eventualmente pode até ser, mas não é esse o assunto. Eu estou falando de uma coisa que quase sempre dura pouco. Será que você está captando?
[Bom, se você não está interessada, aproveite agora e mude de blog. As meninas me falaram que existem muitos blogs escritos para o tal do “universo feminino”. Vai, sai. Vai procurar um que seja bem cor-de-rosa e não me amole mais!]
Se você ainda estiver aí, vou te dizer que o sujeito que vai te fazer ter tremeliques provavelmente não terá nada a ver com o modelo desejado pela sua mãe. Provavelmente será alguém que você nem sequer apresentará à sua mãe. Porque ele pode ser estranho, torto, meio maníaco. Talvez até seja pobre. Certamente nem é bonito. Talvez se vista de forma e
squisita, talvez não te trate muito bem, talvez seja muito mais velho que você. Talvez tenha uma ex-esposa esquizofrênica ou uns filhos insuportáveis.Não importa.
Esqueça esse papo furado sobre vícios. Sua cama não é igreja. Nem consultório médico, né? Se o sujeito é todo certinho, só come comida natural, não bebe, não fuma, não joga, é batata: também não trepa!
Esqueça também a história sobre “respeito”. Homem não respeita. Ele respeita a mãe, a avó, talvez a prima, se ela for gorda. Não a mulher que ele quer. Se você saiu com o sujeito, foi parar na casa dele e nada aconteceu, esqueça: não é esse o cara. Esse é meio bicha. Ou muito bunda mole. Ou, se não for nem bicha, nem bunda mole, é pior: ele não te quis mesmo e não vai te ligar nunca mais.
Filhinha, entenda afinal sobre o que é que eu estou falando: amor é o efeito colateral do sexo. Mas não de qualquer sexo. Eu falo daquele sexo. Você só ama mesmo alguém com quem tenha essa “coisa”. E, a menos que você seja uma adolescente idiota que lê Capricho e assiste Malhação ou tenha a idade mental de uma e precise flexionar o verbo “ficar”, sua ridícula, para se esgueirar das palavras certas, sabe do que é que eu estou falando.
Bom, talvez não saiba.
Talvez não saiba ainda.
É: talvez nunca chegue a saber. É um risco.
Eu não posso fazer nada por você.
Eu só sei que esse cara, esse de quem estou falando, esse que é todo diferente do genro que sua mãe sonhou, é quem pode te
apresentar “isso”. Desde que você deixe de sonhar com um mundo cor-de-rosa, esqueça o conceito picareta de “ah, ta na hora de fisgar alguém!”, pare de achar que o tal do “amor” é uma linha de chegada. Definitivamente entenda que o amor não te leva ao Paraíso. Se você quer chegar ao Paraíso, vá de metrô, que é barato, rápido e não tem trânsito. Ou, se você é uma muçulmana fundamentalista radical, desse povo maluco que quer explodir tudo, enfie uma dinamite na piriquita e acenda o pavio. Pronto, você vai chegar ao Paraíso. Alá vai estar te esperando na porta. Alá, não seu homem.Esse cara muito provavelmente é alguém que você jamais verá após um almoço de domingo, conversando sobre futebol com seu pai – mas é um filho-da-puta descarado, que só de pegar no teu braço e te falar duas ou três indecências no ouvido, vai te deixar melada. Ta bom pra você?
Por esse cara – e por essa “coisa” que você tem com ele – você vai perder a hora dos compromissos, vai perder objetos, vai perder peso, vai ficar meio idiota. Mas vai adorar enquanto durar.
Uma pena que nem fabricam mais desses. Sei lá, eu acho que não fabricam. Saíram de linha. Os poucos que ainda circulam por aí são exemplares já bem rodados, quase se aposentando. Uma pena. E não há peças de reposição. Pra achar um em bom estado de conservação você tem que ter muita sorte.
Tente, quem sabe?
Mas, se você sonhou a vida inteira com um príncipe bonzinho e meloso, sempre pronto pra te homenagear e beijar seus pés em público, saiba que esse cara não vai fazer isso. Mas é bem possível que te diga coisas capazes de te fazer sentir a mais importante, a mais especial, a mais gostosa e a mais desejada das mulheres sem passar nem perto dos clichês idiotas das historinhas românticas. Ele vai te fazer uma declaração de amor de arrasar quarteirão, sem nem sequer mencionar a expressão cretina “eu te amo”.
Como faz esse dinossauro remanescente da raça, o Domingos de Oliveira, nesse textinho lindo aí:
Vamos ter um filho?
Vamos escolher o nome dele?
Deixa eu te alegrar quando você estiver triste?
Te ninar quando você estiver cansada?
Vamos foder o dia inteiro?
Deixa eu te fazer uma massagem com creme?
Vamos aprender a tocar piano juntos?
Vamos foder o dia inteiro?
Deixa eu ajoelhar, Glorinha, e beijar tua mão?
Vamos ser tão felizes que fiquemos calmos?
Tão calmos que fiquemos fortes?
Tão fortes que possamos ajudar todos os amigos que precisarem?
Vamos foder o dia inteiro?
Vamos aceitar tudo o que o outro é?
Defender tudo o que o outro é?
Amar tudo o que o outro é?
Vamos foder o dia inteiro?
Se isso não é a maior declaração do mundo, eu não sei o que é. O que pode ser mais enternecedor do que alguém te propor a aceitar, defender e amar tudo o que o outro é e depois te pedir pra foder o dia inteiro?
Eu vou parar de falar. Tomei três doses de Ballantine´s enquanto datilografava. A partir da quarta eu corro o risco de ficar ligeiramente emotiva. E isso não faz parte do meu contrato com o Mulherices.
DA REDAÇÃO
A pedido de Stella Benevides, procuramos e encontramos duas versões da “maior declaração de amor do mundo” em vídeo.
A primeira é com o próprio autor, Domingos de Oliveira, em cena do filme “Separações”
A segunda, em versão musicada, é com Alexandre Nero, no Programa do Jô.
E se você quer saber mais sobre o escritor, ator, dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, é só clicar AQUI.
