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domingo, setembro 20, 2009

Shopping

por Stella Benevides

Continuei hoje minha peregrinação em busca da fita da Remington. Olha só o a sarna pra me coçar que eu arrumei quando resolvi aceitar escrever no tal do blog! Aposto que ninguém lê essa coisa! Mas as meninas continuam tendo idéias. Agora cismaram de inventar uma tal de “Sessão Stella Responde”! Haha! Falaram que eu vou responder dúvidas das leitoras do blog.

- Principalmente sobre relacionamentos, Stellinha! Você tem muito a ensinar!

Eu? Relacionamentos? Ensinar? “Relacionamento” já é uma palavra idiota que foi inventada há pouco tempo. Antigamente a gente paquerava, namorava, dava, noivava, dava, casava, dava mais um pouco, brigava, parava de dar, separava e voltava a dar. Não necessariamente nessa ordem. Agora, não. Agora, pra qualquer trelelê usa-se a palavra “relacionamento”. Querem que EU responda sobre isso? Essas meninas devem ter uns parafusos faltando. Ou é essa mania de usar chapinha, deve afetar os cérebros das bichinhas.

Bom, procurando a fita da Remington, fui parar num Shopping Center. Um desses, bem modernosos. Que idiota que eu sou. Além de ter que topar com as caras apalermadas dos balconistas que sequer sabiam do que eu estava falando, ainda tive o desprazer de ser atropelada por hordas de pré-adolescentes malcriados. E crianças! Ai, como eu adoro!

Peguei um café, um croissant e sentei-me numa mesa daquela ante-sala do inferno chamada “praça de alimentação”.

Foi então que eu o ouvi.

No começo cheguei a pensar que estavam sacrificando um leitão em algum ritual satânico que eu não conhecia, mas era apenas uma dessas crianças que dão escândalo em shopping quando contrariadas. Uma espécie muito comum hoje em dia. Meninos mimadinhos que, quando crescem, tornam-se políticos ou atores bad boys de quinta categoria. O molequinho de uns seis anos vinha puxado pelo braço pela mãe, abrindo o berreiro. E, pelo que pude compreender, todo o drama devia-se ao lanche especial, acompanhado de batatinhas e bonequinho-palhacinho que a mãe, perversa, não tinha comprado.

Fechei os olhos e pedi fervorosamente à Santa Edwiges que aquele demoninho não viesse para o meu lado. Foi então que descobri que Santa Edwiges não atende aos sábados.

A duas mesas da minha, o berreiro continuou. Sabe quando se percebe aquele mal estar coletivo, mas ninguém faz nada? Pois é. O povo olhava, cochichava, dava risadinha. A mãe, bocó, tentava acalmar o pimpolho diplomaticamente.

- Come seu lanchinho-feliz, filho!

Foi quando o fedelho-monstro, gritando na plenitude de seus pulmões um esganiçado “não quéééééro!”, deu um tapa no sanduíche, que passou voando a dois centímetros do meu rosto, indo se espatifar na parede.

Respirei fundo. Levantei-me calmamente. Ajeitei a roupa, os óculos. Caminhei lentamente na direção daquela mesa. Um passo, dois, três. Ignorei a mãe bocó, olhei bem para ele. Mas bem mesmo, bem nos olhos. Disse apenas uma palavra:

- Pára!


Silêncio na praça de alimentação. A mãe fez menção de protestar, mas ante o óbvio contentamento generalizado do ambiente, ficou grudada na cadeira, pálida e muda. Como o moleque, de quem não se ouviu mais um pio.

Umas crianças riam, uns meninos ensaiaram aplaudir. Ajeitei a roupa, os óculos. Deixei pra trás meio café e meio croissant. Fui-me embora.

- Nóóóóssa, Stellinha! Você não gosta de criaaaança?

Não é isso! Eu só acho que ter autoridade não significa falta de carinho! Aliás, eu sou totalmente a favor de que os pais tenham as duas coisas para com seus pimpolhos! Ah! Mas é bom ter cuidado hoje em dia ao beijar seus filhos! Nunca se sabe quando um casal de velhos desocupados, turistas paulistas que compram pacote turístico da CVC em 12 prestações, vão estar espiando atrás de um coqueiro. Como não trepam desde a década de setenta, quando viajam não têm muito o que fazer. Então ocupam o tempo cuidando da vida dos outros. E se você beijar seus filhos na frente deles, te denunciam por pedofilia! Cuidado!

(Curioso: se os velhotes fiscais da moralidade tivessem visto dois barbados se beijando, nada poderiam fazer! Aliás, caso ousassem manifestar qualquer desagrado diante de uma cena dessas, bem capaz que eles – os velhotes – se encrencassem com a justiça! Esse mundo está mesmo ficando muito esquisito!)

- Nóóóóssa, Stellinha! Nenhuma ternura no seu coraçãozinho?

Tenho, sim. Tenho ternura pelos cachorros que acompanham os carroceiros nessa cidade hostil. Nada pra mim nesse mundo é mais próximo da idéia de “anjo”.

Você aí, que lê esse tal de “blog”, já prestou atenção nessa gente “invisível” e seus cachorros?

Carroceiro faz um serviço filho-da-puta, perigoso e sujo. E útil pra cidade! O cachorro não precisaria ir com ele. Mas vai. Não desgruda um só minuto. O cachorro morre pelo carroceiro se for preciso. Aliás, já soube de casos assim.

Hoje, quando saia da padaria, encontrei o Jorginho e o Xula. Eles andam por aqui com a carroça e dormem debaixo do Minhocão.

- Ô, Xula! Cuidado pro Jorginho não ir pro meio da avenida, é perigoso!
- Não se preocupe não, Dona Stella! Ele ta acostumado!


Perguntei se já tinham jantado. Voltei pra padaria e saí de lá com dois sanduíches de mortadela. E algumas latinhas de cerveja.

- Esse aí é o melhor amigo do homem, Dona Stella, porque não conhece o que é dinheiro!

Eu já ouvi o Xula falar isso umas trezentas vezes. É a frase preferida dele. Mas eu me comovo toda vez que ouço. Tirei os sapatos, acendi um cigarro, sentamos na calçada. Xula é um dos melhores papos aqui do bairro. Jorginho engoliu seu sanduíche e veio deitar no meu colo. Ele estranha um pouco o meu cheiro de gato.

Foi então que bati o olho na carroça. Não pude acreditar. Era uma Remington do mesmo modelo da minha, toda escangalhada, faltando teclas, mas ...rá! Com uma fita novinha, quase intacta!

- Xula de Deus! Você salvou o Mulherices!

Ele me deu a fita de presente, mas eu coloquei cinqüenta reais no bolso dele. E agora eu tenho uma fita nova. Posso até gostar daquela idéia estúpida de responder perguntas sobre relacionamentos.

Mulherices, me aguarde!

***

Stella Benevides e alguns veículos da web mantém seus olhares bem atentos a (anti)heróis que, para muitos de nós, são invisíveis. Clique na foto para saber mais!

sexta-feira, setembro 18, 2009

Sílvio

por Stella Benevides


Como contei há algumas semanas, fui convencida pela Karina a escrever pro tal do “blog”, dela e da coleguinha dela, a Vanessa, de Florianópolis. E não é que elas gostaram? E não é que elas juraram que mais um monte de gente gostou? Vieram me contar que não-sei-quantas pessoas tinham lido, comentado e blábláblá.

Eu não acredito.

Duvido que nesse mundo besta de hoje, com as pessoas presas nas suas redomas de bom comportamento, alguém aplauda gente como eu. Que fuma, bebe e fala palavrão. Que gosta mais de gato que de gente. Que não tem a menor paciência com crianças e que não acha nenhuma graça em velhinhos fofos. E, pior que tudo, não está nem aí para o que acham disso Foda-se. Não estou nem aí mesmo.

Mas eu achei divertida a brincadeira de escrever. Tanto que hoje saí pra comprar uma fita nova para minha Remington. As meninas me disseram que as pessoas nem sabem mais o que é uma máquina de escrever. Fodam-se as pessoas. É com ela que eu vou continuar escrevendo.

O problema é que eu entrei em umas dez papelarias e em nenhuma encontrei o que precisava. Em uma delas ainda tive que agüentar piadinha de um balconista, um moleque seboso, de cabelo espetado.

- Já procurou no Museu do Ipiranga, tia?

Pensei muito e decidi não reproduzir aqui o que eu respondi a ele. Sei lá, a mãe da Karina pode ler e brigar com ela. Ou os filhos da Vanessa, quem sabe. Mas acredito que os leitores do tal do “blog”, se é que eles existem, têm imaginação suficiente para supor o que eu disse.

Voltei pra casa sem minha fita e com os pés doendo. Estava louca por um banho e um uísque. Não necessariamente nessa ordem. Mas, na porta do prédio, encontrei Sílvio, que estava desaparecido há três dias.

De todos os meus felinos-filhos, Sílvio é o que me da mais trabalho. Desisti há tempos de tentar prendê-lo em casa. Telas, grades, nada resolve. Se for preciso, ele é capaz de sair pelo buraco da fechadura.

Um dia desses, a vizinha gorda do andar debaixo sugeriu que eu levasse Sílvio para ser castrado, que isso resolveria o problema. E eu, docemente, sugeri que ela cortasse as coisas do marido dela, posto que ele certamente já não as usava há muito tempo, pelo menos não com ela. Acho que ela não gostou muito da idéia, porque nunca mais falou comigo.

Silvio estava magro e todo estropiado, resultado de suas peripécias pelos inferninhos felinos. Peguei-o no colo, levei-o pra casa para tratar dele.

Quando me perguntam se o nome é homenagem ao Sílvio Santos, eu digo que sim, pra não complicar. Mas o nome completo do meu Sílvio é Sílvio Berlusconi! Sim, uma homenagem àquele exemplar remanescente do tempo que homem era homem. Rico, poderoso e fanfarrão. Sempre dando uma banana pros bons modos e chutando o protocolo. ADORO quando ele apronta uma daquelas, que os engomadinhos efeminados do mundo classificam como “gafe”! Gafe uma pinóia, ele faz é de propósito mesmo, eu percebo!

Se o governo dele presta ou não presta eu não sei, isso é problema dos italianos. Mas o que eu, definitivamente, acho o FIM, é ficarem patrulhando o cara para tentar derrubá-lo por aquilo que ele faz na vida privada. Igual fizeram com o Bill Clinton, que teve que se humilhar, com seu charutinho murcho em público e se ajoelhar diante do vestido manchado da estagiária gorducha. Porra de presidente! Literalmente.

Mas Berlusconi não vai se curvar, não. Vai continuar sendo o rei da Itália, da televisão de lá, do Milan e das putas. Tem mão de ferro. E pelo jeito, não só a mão. Os puritanos daqui, como os de lá, podem achar um horror, mas eu prefiro políticos assim a esses velhos borocochôs de Brasília, que não comem ninguém e descontam metendo na bunda do povo!

Haha!
E o povo deve gostar.
Por isso vota neles.

Brasileiro é um povinho besta.