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domingo, novembro 01, 2009

Sorriso de hoje, por muitos hojes

Por Karina Lima

O clique genial do fotógrafo que imortalizou a leveza de um conjunto de dunas na Namíbia me aprisiona por alguns instantes – o pensamento que pipoca em minha mente é de que a Mãe Natureza é dona de uma fotogenia que chega até a ser covarde, de tão grande.

O sol invade, sorrateiramente, a vidraça. Mais uns passos adiante no largo corredor, de claridade e limpeza gigantes, e me deparo com um modesto mural onde questões como campanha ambiental e ação papa-pilhas são fortemente divulgadas por um Comitê de Ética. O sentimento que me invade é de que os homens podem ser criaturas admiráveis quando tomados por nobres causas. Aquele tal negócio: benditas sejam as exceções nessa vida...

Mais alguns passos despretensiosos, e encaro uma gravura linda de Kandinsky: na hora, me vem o retrospecto daqueles finais de tarde que costumo passar na Livraria Cultura fuçando livros de arte, revistas de música, ouvindo CDs novos e lendo tiras de Mafalda, Calvin e Haroldo – atualmente, eis aí um de meus passatempos favoritos, confesso a vocês. E se isso tudo for arrematado com um bom expresso, taí a construção de um momento perfeito.

O ritual começa: hora do armário. Livros, revistinhas, giz de cera, desenho, jogos, fantoches. Avental, trança e flor pra ornar a cabeleira: estou no Hospital Abril Sodré, uma das unidades da AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente. No calendário, hoje é a vez do sábado. A calmaria do ambiente hospitalar fora interrompida pela transmissão do Teleton 2009, e meu olhar acompanha o ronco entusiasmado do motor de um ônibus cujo destino era justamente a sede do SBT, levando pequenos pacientes e seus pais. O tema da maratona televisiva desse ano é ‘Eu me movo’. Por falar nisso, era dada a minha hora de partir para a ação. Respirar, fazer uma prece, esboçar aquela pose de auto-confiança, lançar-se àquilo que, sem demagogias, sempre foi um real sonho.

Elevador – disfarço meu pânico diante dessa geringonça detestável enquanto observo a montanha de materiais em meus braços – aleluia, agora estou no andar! Na recepção do piso público do hospital, o time de contadores de histórias se encontra e saúda calorosamente. Enquanto isso, reflito que o movimento de Humanização Hospitalar chegou, mesmo, para ficar.

Logo no hall, veio a primeira boa surpresa da manhã: Gabi, no alto de seus gloriosos 9 anos (e não é que pareci o Faustão falando isso?), recupera-se de mais uma cirurgia e espera por um aparelho caríssimo, via doação. A cadeira de rodas dela é podre de chique: rosa-bebê, cor do enxoval da Barbie. Ela telefona para os irmãos (tem quatro deles), fala pelos cotovelos, bracinhos cortando o ar como se eles pudessem vê-la: a Gabrielle gesticula horrores, e é só sorriso, veste-se dele da cabeça até os pés. Após o tal alô pra parentada, descubro que essa pequena notável é craque no dominó dos bichos: perdi três partidas praquela ferinha, só para começar essa prosa. Dela, ganhei um desenho que foi parar num caixote de madeira em que guardo meus maiores tesouros. O iceberg ambulante aqui conteve o choro: crianças são minha grande fronteira emocional. Limitação, onde? Esses anjos são vivos, cheios de talento, carisma e esperança – a gente não sabe é de nada.

Com o Mateus, em seguida, o desafio foi ainda maior: imóvel, com sonda e visível incômodo, ele choramingava e não queria almoçar nem com reza braba. Aqui está a magia: alguma negociação, histórias de terror (ah, eles ainda temem a Loira do Banheiro!), lições leves sobre a importância de uma boa alimentação pra voltar para casa e rever a vovó, que veio da Bahia para vê-lo... e eis que o mocinho de pouca idade e olhar encantadoramente doce aceita as primeiras garfadas dadas pela mãe que, nos olha com ternura e vibra. Ele come, bebe e brincamos de procurar Wally em um livro de figuras – fiz isso demais quando também era pequenina.

Debruçada ao lado da cama, presencio genial cena: o primeiro sorriso que quebra o jejum de um período difícil, de dor e recuperação. Aí, o clima só melhora: falamos de videogames, desenhos, super-heróis. “Sabe, tia? Meu pai não me deixa jogar Harry Potter, não: coisa do capeta, ele sempre diz!” – aí, quem ri sou eu: espirituosos sem querer, eles são assim, essa espontaneidade toda, esses frágeis milagres materializados.

Os ponteiros do relógio correm como maratonistas, e minhas duas horas semanais de voluntariado terminam. Objetivo simples, porém fundamental, alcançado: levar sorrisos hoje. Ali aprendo e divido que as melhores histórias do mundo são aquelas que aprendemos contando – nem engolindo um dicionário eu teria palavrologia suficiente pra explicar esse lance delicioso e divino. O inefável coração, nessa movimentação toda, quase voa goela afora, batuca feito escola de samba, e manda um SMS pro cérebro dizendo: “Tô bem vivo e palpitando”. Ô, se tá. * Para fabricar sorrisos por vários hojes, acesse: www.vivaedeixeviver.org.br.