
“Esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte quase sempre às tontas, pois nunca as malas estão prontas e a nossa conta nunca está em dia.” (Mário Quintana)
Buzinas. Faróis. Céus, será que toda a histeria dessa gente cabe em uma avenida apenas? Soldados, a guerra está declarada e está aqui: ninguém dá passagem, todos têm pressa descomunal, parecem em pânico pra tirar o pai da forca. Pressa pra quê? Tudo está engarrafado logo em frente...
Ouse vacilar um milésimo de segundo em frente a um farol aberto pra ouvir uma sinfônica de grosserias – é nessa hora que, perdendo a civilidade, você sente vontade de despejar seu vasto estoque de mal criações nessa gente neurótica. Descer do salto vira instinto, ou vira regra.
[quem nunca buzinou pra arranjar encrenca, arremesse na minha testa a primeira pedra ]
Essa corja de apressados anda bem mimada... ninguém suporta perder nada, nem por um triz. Perder hora, perder vantagem, promoção, reunião, horário, consulta, avião. São crianças grandes. Por muitas vezes, eu as detesto em absoluto. Aliás, prefiro mil vezes os pequeninos aos adultos, coisa que já não é mais novidade nessa minha existência errante.
Você já tentou bater um bolo com pressa? E fazer uma refeição quente na correria? E pintar um quadro ou um desenho rapidamente? O resultado, via de regra, costuma ser catastrófico. A contramão é clara: vivemos o tempo da pressa. Fast food, foto instantânea, Poupatempo, congelados, pay-per-view, academia 24 horas. ‘Não tenho tempo’, ‘Tô na correria’, ‘Tô mais enrolada que carretel’, ‘Tô com a agenda superlotada’. Compras de Natal, maratona semanal, calvário diário infernal. Pergunto-me de onde saiu essa tendência de viver aos trancos e barrancos, correndo, sofrendo, numa sina ofegante. A sensação que me invade é de que ter pressa virou moda, é cool, é tendência.
Nesse caldeirão de angústias modernas, tomei para mim um novo mantra. Quando me vejo enlouquecer geral e arquibancada, correndo freneticamente e fazendo tudo-ao-mesmo-tempo-agora, repito: ‘Pressa para quê, por qual motivo?’. Toda vez que a resposta é coerente, sigo adiante. Caso contrário, peço ao corpo e à mente que desacelerem, dentro do possível.
Pode até parecer pura poesia ou coisa clichê, mas não é o caso. Quero ter tempo. Desesperadamente, o quero. Tempo pra observar o cair da tarde, pra rabiscar com giz de cera, pra fazer nada sem sentir culpa, pra ouvir boa música, pra viver o que há de bom com gente do bem. Quero qualidade, intensidade, matar a saudade. Fazer desse tempo o melhor tempo possível.
Conto que em um fim de tarde desses, há poucos dias, foi que aprendi essa lição da calma: uma conhecida com absoluta sede pela vida morreu no último réveillon, foi o que soube pelos comentários que pipocavam aqui e ali. Da causa, eu nem soube. No entanto, graças à janela que as redes sociais dão pra vida dos outros, parei perplexa encarando o Orkut quando vi a música que, ultimamente, fazia a cabeça dessa moça que virou estrela:
"Paciência"
(Lenine / Dudu Falcão)
