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sexta-feira, dezembro 18, 2009

Algo Sobre as Mulheres do Século 21...

Por Fábio Pegrucci, cronista convidado Amanhece.

O despertador toca e eu pulo da cama, decidida e cheia de vigor. Escova de dentes, escova de cabelo, maquiagem, café, bolsa, rua! Sei muito bem quem sou e para onde vou. Óculos escuros, partida no carro. Sou forte, sou segura, sou bela e sou moderna! Independente e auto-suficiente – eu me basto! Tenho muita coisa na cabeça, muita coisa pra fazer, pouco tempo pra perder.

Nem me lembro de você – às vezes nem sei se você existe mesmo! Não me lembro do seu nome, nem do seu cheiro e nem da sua voz. A propósito, não me ligue, eu não tenho tempo! Tenho que trabalhar, o dia será cheio. Não me amole com seu sentimentalismo e nem me venha falar da sua carência. Eu tenho pressa. Eu tenho objetivo. Eu vou estudar, eu vou crescer, eu vou pra Europa! Dá licença, não me chame, não me interrompa e sobretudo não queira saber aonde estou: eu não estou nem aí pra você!

Telefone, agenda, compromisso, corre-corre. O chefe, o chefe do chefe e o chefe do chefe do chefe, todos me solicitando – e eu sou uma só! Que dia, que dia! Ainda bem que eu sei bem quem sou, o que quero e de nada sinto falta – ainda bem! Pausa para um chá, deixa eu respirar. Deixa eu suspirar... Deixa? Ai...

Ai, que estranho, me deu uma coisa... Uma coisa esquisita, uma saudade não-sei-de-quê! Não deve ser nada, só cansaço, só isso. Que bobagem, vai passar, vai passar... TPM, deve ser TPM ... mas já? Ai, que vontade de chorar! Que coisa estúpida, que besteira é essa? Não sei o que me deu, mas tô com vontade daquelas coisas que só você sabe me dar... Ai, me dá, me dá? Faz daquele jeito que me deixa que nem criança? Ai! Que bom que é! Você pode me abraçar e me mimar?

Eu quero, eu quero!

Quero que você brinque comigo, eu quero ser criança! Me leva na padaria e compra pra mim aqueles docinhos coloridos em forma de bichinho? Compra, compra?? Ai, cuida de mim que eu gosto... Pega um DVD de desenho e assiste comigo comendo pipoca? E se eu pegar no sono, você promete que me pega no colo e me leva pra cama, mesmo que eu não queira ir? Faz lanche pra mim, faz café da manhã? Compra chocolate, pirulito, jujuba? Ai, que delícia que é...

Quando eu estou saindo do banho, você pega uma toalha limpinha e coloca nas minhas costas, me embrulhando! Você nem olha pro meu corpo nessa hora, nem olha! Sabe? Eu nunca te falei, mas eu acho isso uma coisa tão linda... E quando eu estou com um chiclete na boca e não tenho onde cuspir, você coloca a sua mão em forma de concha, bem debaixo do meu queixo!

Ai, que bom que é estar nesse seu mundo! Poder ser menininha, usar camisolinha e pantufas, nada de gloss, de rímel, de scarpin! Poder fazer pirraça, dizer “não, não, não!”, se você quiser alguma coisa e “sim, sim, sim!”, se não quiser – só pra contrariar! Só porque é gostoso – e porque, de uma forma ou de outra, você vai olhar pra mim com aquele seu olhar amoroso e ligeiramente paternal, vai me segurar com aquelas mãos firmes de quem sempre sabe o que fazer, vai me tratar com aquela sua paciência oriental. E eu não preciso pensar em nada, porque você faz isso por mim. Eu aceito, me aninho no seu peito e, por um instante, até penso em te pedir desculpas pelo tanto que te faço sofrer... Mas nem isso eu preciso fazer, porque você já me desculpou antes que eu peça!

Ai, ai, ai ... Que saudade!
Onde está você? Por que não me manda um torpedo engraçado, porque não me escreve um e-mail cheio de palavras doces? Por que não me liga, por que?? Será que não percebe que agora eu fiquei com saudade? Como você pode ser tão insensível???

Ah! Se sacode, mulher! Para já com isso, tanta coisa pra fazer e você aí, viajando na maionese dessa fantasia boba! Não dá certo, não dá – isso não serve! Isso é tudo perda de tempo e o tempo é curto: tenho um relatório pra entregar, tenho que estudar para as provas – ai, as provas! Daqui a pouco tenho que pensar no TCC, ai que pavor!

Ainda bem que eu sou auto-suficiente! Ainda bem que eu não dependo de nada, de ninguém! Ainda bem que eu sou assim equilibrada, centrada, controlada, ainda bem! Minhas vontades eu controlo muito bem, ta? Você que nem ouse invadir meu pensamento com esse seu corpo de homem, com esses brações torneados, com essa barriguinha marcada... Hoje não! Hoje eu não quero! Não vou neeeeem lembrar dessas suas coxas peludas e dessas curvinhas nas suas costas, não vou! Muito menos vou me lembrar dessas suas mãos cheias de dedos me pegando e me apertando, dessa sua boca roçando minha nuca e dessa sua voz me falando aqueles absurdos no ouvido! Não, não e não ... não vou! Pode sumir do meu pensamento com essa sua língua quente e, sobretudo, leve pra bem longe daqui essa sua “coisa” dura porque hoje eu não quero!

Eu vivo muitíssimo bem sem isso, viu? Se digo que não preciso é porque não preciso e, a propósito, minha calcinha não está molhada, é apenas impressão!

Seu maldito!

Quando eu te pegar, vou te mostrar quem é quem! Sou muito mulher pra te jogar na cama e fazer do MEU jeito! Eu SEI fazer! Eu te seduzo, te amoleço, te desarmo e te mato de prazer! Te faço de objeto, uso esse seu corpo pra me satisfazer e pronto! Sexo é sexo e eu sou MULHER o bastante pra não perder o controle!

Eu te controlo! Eu te domino! Eu te escravizo!

Isso, isso, isso ... Isssso!Me bota de quatro, me pega, me segura, de DOMINA, porque é tudo o que eu mais quero!! Faz com força, me possui! Me faz tua fêmea, tua cadelinha! Me bate, me xinga, me humilha, mostra quem é que manda aqui! Porque quem manda aqui é VOCÊ, meu dono, meu rei, meu macho... e eu QUERO assim! Safado, cachorro, filho-da-puta! Eu gosto é ASSIM, e você sabe disso!

Ai, que droooooooga!!!

Olha o relatório, nem comecei! Ai, ai, ai ... Ta bom, passou! Lavo o rosto, mais um chá, um copo dágua!

Chocolate, chocolate, eu preciso de chocolate!! Quem pegou aquela trufa que estava na minha gaveta?? Ih, eu já comi?!

Pronto, pronto! Já passou, já passou!
Tenho que trabalhar. Olha o telefone tocando. Alô, pois não, um minutinho! Cadê minha agenda? A que horas mesmo é a reunião? Ah, que bom, estão reconhecendo meu valor por aqui! Vou me formar, me pós-graduar, que maravilha! Vou pra Europa, vou ganhar muito dinheiro, vou comprar um apartamento, um mooooonte de roupas, de bolsas, sapatos, uhú! Viva eu, viva eu! Não preciso de ninguém! Mas será mesmo que eu comi aquela trufa? No fim de semana ligo pras minhas amigas, vamos sair por aí e falar muita bobagem, principalmente vamos falar mal dos homens, todas elas falam, acho que vou falar também! Ah, que bom, que bom! Depois vai cada uma pra sua casa dormir sozinha e daí? Sou independente, auto-suficiente e super centrada! Sei muito bem o que quero e acho essa história toda de “amor” uma patetice que só atrasa a vida da gente, ta? Eu acho MESMO, ta? Não duvide!

Mas... sabe?
(Ih, quem é essa agora?)
É que de vez em quando ele fala sobre ter um projeto em comum, de ter uma casa com quintal gramado, uma piscina e um cachorro! Eu acho bonitinho às vezes. Só às vezes, mas acho... Será que a gente podia ter uma rede na varanda, pra namorar no fim da tarde? Será que podia ter jardim? Com rosas, será? E a gente podia convidar nossos amigos pra comer pizza e jogar buraco no sábado à noite?? E aí, depois que eles fossem embora, a gente namorava um pouco, dormia junto, abraçado, que gostoso! Assim, esposa, marido... Com aliança no dedo e tudo!

Nossa casa, nossas coisas, tudo nosso!

Um dia a gente teria um bebê! Sim, um bebê. Tanto faz se menino ou menina, tanto faz... Ele quer, não é lindo??? Quer ter um bebê comigo! Geeente! Já pensou, eu GRÁVIDA, quanto esse homem vai me mimar??? Há há há! E ele pede pra eu só IMAGINAR o QUANTO ele vai amar um filho meu... Ai, que lindo... Ai, que vontade de chorar...

Ele gosta de uns nomes “clássicos”, assim tipo “Francisco” e “Beatriz”, “Tomás” e “Clara”... Ah! Eu não gosto, não quero colocar nome de velho no meu filho! Tá vendo, a gente não dá certo, não dá, não tem jeito!!

Ainda bem que eu não to nem aí pra isso! Eu sei MUITO bem o que quero, sou independente, auto-suficiente e suuuuuper equilibrada! Olha o telefone tocando de novo!! Cadê minha agenda? Ih, esqueci a hora da reunião! Eu tenho certeza de que não comi aquela trufa, não comi!
Meu Deeeeus, ainda não são nem onze horas??? Minha analista, eu preciso ligar AGORA pra minha analista!!






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quarta-feira, dezembro 16, 2009

Casamento

Por Rafael Colombo, cronista convidado

















O período de preparação para um casamento é extremamente complicado. É muita coisa pra lembrar, marcar, provar, esquecer, desistir. Docinho, convite, música, etc.

Exige dos noivos fôlego de maratonista, elasticidade de ginasta e paciência de enxadrista. Eventualmente também o jogo de cintura do craque de futebol que dribla o mais temido dos zagueiros. Para escapar das enrascadas que vão surgir na longa trajetória até o altar. Situações que vão causar altas doses de constrangimento e vergonha como a que conto a seguir.

Minha angústia mais profunda era decidir logo onde fazer a festa. Afinal, queria um espaço bonito, charmoso, barato, acolhedor. Só isso.

Então, digitei no Google "locais para festa de casamento em SP". Apareceram umas mil respostas. De todos os buffets sugeridos, marquei visita em uns 20.



Mas, só fui mesmo em uns 5 ou 6. Deu uma preguiça imensa.

Entre os buffets que visitei, há um em que espero jamais aparecer novamente. Foi um caso de antipatia imediata. Sabia que aquele não seria o lugar assim que estacionei o carro na porta. Sei lá. Era só um sentimento que se confirmou assim que a porta abriu.

Fomos recepcionados, eu e minha noiva, por um rapaz muito educado. Mas muito educado mesmo. Sabem aquelas pessoas chatas, pegajosas, que pensam que estão agradando?

Era um desses.

Tudo o que eu não precisava àquela hora da noite, com fome e cansado após um longo dia de trabalho. Mal chegamos e o mala que guardava uma espécie de enciclopédia debaixo do braço começou a falar como uma máquina:

- Bem vindos à Vila Bizuki. A Vila Bizuki é um espaço que tem 80 anos. O piso é de madeira Batapuã, da Amazônia. Usamos no banheiro lavanda de rosas da França. Nossos funcionários são treinados no Centro de Treinamento da Vila Bizuki, de onde saem deliciosos quitutes.
Sem que pudéssemos respirar, ele olha para o teto e dispara:

- Vejam esse lustre. É uma espécie de talismã para nossa família. Era do meu tataravô, Giuseppe Bizuki, que veio da Europa...blá, blá, blá, blá.

Naquele instante, o único desejo que passava pela minha cabeça era ver aquele lustre desabar no chão.

-Vocês terão agora o prazer de conhecer a Vila Bizuki!

Novas portas foram abertas, observo dezenas de casais sentados em uma série de mesas. Era a chamada noite de degustação, em que todos os interessados em fazer o casamento são convidados para conhecer a casa. Ao mesmo tempo.

Pois bem.

Sentamos na nossa mesa. Docemente constrangidos sem saber o que esperar, quando o chato começa a falar sobre comida:

-Nossa cozinha possui o requinte da alta culinária do Mediterrâneo. Terão o prazer de conhecê-la. Depois de visitarem todos os nossos ambientes.


Com fome, passei uns 50 minutos visitando salões, corredores, sacadas. Vendo diferentes opções de decoração para cadeiras, diferentes formatos de velas.

-Vejam como fica a pista de dança com luz azul! Verde. Amarela. Roxa. Branca. Rosa.

Uma hora mais famintos, voltamos para a mesa.

-Agora vão conhecer as opções de serviço.
Começou a vir a comida. Salgadinhos, pratos quentes, doces.

- Enquanto degustam, vejam imagens de festas já realizadas aqui.

Ficaram na nossa mesa duas pequenas enciclopédias.
Com umas 500 fotos cada.

Terminamos a degustação.

O vendedor reaparece com um notebook.
Mas antes, diz em tom ameaçador:

-Daqui a pouco vamos testar a pista de dança.
O que será que ele quis dizer? Como será esse teste? pensei comigo.

-Vamos ver mais algumas fotos?

Recomeçou todo o sofrimento. Ele nos mostrou em um notebook dezenas de imagens de noivas saindo, noivas entrando, corredores com luz acesa, luz apagada, com flores jogadas no chão, sem flores jogadas no chão.

Bom, naquele dia conheci até o depósito de lixo da Vila Bizuki. Mas, o pior estava por vir.

-Vamos para a pista! – ele gritou um pouco empolgado demais.

Não acreditei no que estava vendo. Fiz duas ameaças de deixar o recinto, mas fui demovido pela minha noiva.

Com as mãos no bolso e um peso imenso nas costas provocado pelo sentimento de derrota que me atingiu subitamente observo que todos os outros casais estão olhando pra mim.

De pé, no centro da pista, ficamos eu, o chato e minha noiva.
Ao nosso redor, uns 10 ou 15 casais com cara de "vergonha alheia".

O DJ começa a tocar um som de discoteca. E eu com as mãos no bolso. Pregado no chão. Olho para o lado e o chato está dançando com os ombros. Tive vontade de agredi-lo.

Pedi para parar. Disse que já estava bom, mas ele queria mais.

Me fez atravessar toda a pista para encostar a mão na caixa de som e sentir a "vibe". Caixas que também vieram da Europa, segundo o chato que, por misericórdia, me deixou voltar para a mesa.

Estava suado.
Como se tivesse sido submetido a uma sessão de tortura.

Para encerrar bem a noite, ele faz um orçamento equivalente ao preço de um apartamento. Mas disse que podia negociar. Claro, um cara tão legal, tão bonzinho. Prometi avaliar e entrar em contato mais pra frente.

Nunca mais apareci.

Mas, como bom chato passou a me ligar insistentemente.
Até um dia em que disse que não haveria mais casamento porque havia sofrido um acidente e o dinheiro reservado para a festa seria utilizado para comprar duas pernas mecânicas.

Nunca mais me ligou.
Chato!






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