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quarta-feira, dezembro 16, 2009

Casamento

Por Rafael Colombo, cronista convidado

















O período de preparação para um casamento é extremamente complicado. É muita coisa pra lembrar, marcar, provar, esquecer, desistir. Docinho, convite, música, etc.

Exige dos noivos fôlego de maratonista, elasticidade de ginasta e paciência de enxadrista. Eventualmente também o jogo de cintura do craque de futebol que dribla o mais temido dos zagueiros. Para escapar das enrascadas que vão surgir na longa trajetória até o altar. Situações que vão causar altas doses de constrangimento e vergonha como a que conto a seguir.

Minha angústia mais profunda era decidir logo onde fazer a festa. Afinal, queria um espaço bonito, charmoso, barato, acolhedor. Só isso.

Então, digitei no Google "locais para festa de casamento em SP". Apareceram umas mil respostas. De todos os buffets sugeridos, marquei visita em uns 20.



Mas, só fui mesmo em uns 5 ou 6. Deu uma preguiça imensa.

Entre os buffets que visitei, há um em que espero jamais aparecer novamente. Foi um caso de antipatia imediata. Sabia que aquele não seria o lugar assim que estacionei o carro na porta. Sei lá. Era só um sentimento que se confirmou assim que a porta abriu.

Fomos recepcionados, eu e minha noiva, por um rapaz muito educado. Mas muito educado mesmo. Sabem aquelas pessoas chatas, pegajosas, que pensam que estão agradando?

Era um desses.

Tudo o que eu não precisava àquela hora da noite, com fome e cansado após um longo dia de trabalho. Mal chegamos e o mala que guardava uma espécie de enciclopédia debaixo do braço começou a falar como uma máquina:

- Bem vindos à Vila Bizuki. A Vila Bizuki é um espaço que tem 80 anos. O piso é de madeira Batapuã, da Amazônia. Usamos no banheiro lavanda de rosas da França. Nossos funcionários são treinados no Centro de Treinamento da Vila Bizuki, de onde saem deliciosos quitutes.
Sem que pudéssemos respirar, ele olha para o teto e dispara:

- Vejam esse lustre. É uma espécie de talismã para nossa família. Era do meu tataravô, Giuseppe Bizuki, que veio da Europa...blá, blá, blá, blá.

Naquele instante, o único desejo que passava pela minha cabeça era ver aquele lustre desabar no chão.

-Vocês terão agora o prazer de conhecer a Vila Bizuki!

Novas portas foram abertas, observo dezenas de casais sentados em uma série de mesas. Era a chamada noite de degustação, em que todos os interessados em fazer o casamento são convidados para conhecer a casa. Ao mesmo tempo.

Pois bem.

Sentamos na nossa mesa. Docemente constrangidos sem saber o que esperar, quando o chato começa a falar sobre comida:

-Nossa cozinha possui o requinte da alta culinária do Mediterrâneo. Terão o prazer de conhecê-la. Depois de visitarem todos os nossos ambientes.


Com fome, passei uns 50 minutos visitando salões, corredores, sacadas. Vendo diferentes opções de decoração para cadeiras, diferentes formatos de velas.

-Vejam como fica a pista de dança com luz azul! Verde. Amarela. Roxa. Branca. Rosa.

Uma hora mais famintos, voltamos para a mesa.

-Agora vão conhecer as opções de serviço.
Começou a vir a comida. Salgadinhos, pratos quentes, doces.

- Enquanto degustam, vejam imagens de festas já realizadas aqui.

Ficaram na nossa mesa duas pequenas enciclopédias.
Com umas 500 fotos cada.

Terminamos a degustação.

O vendedor reaparece com um notebook.
Mas antes, diz em tom ameaçador:

-Daqui a pouco vamos testar a pista de dança.
O que será que ele quis dizer? Como será esse teste? pensei comigo.

-Vamos ver mais algumas fotos?

Recomeçou todo o sofrimento. Ele nos mostrou em um notebook dezenas de imagens de noivas saindo, noivas entrando, corredores com luz acesa, luz apagada, com flores jogadas no chão, sem flores jogadas no chão.

Bom, naquele dia conheci até o depósito de lixo da Vila Bizuki. Mas, o pior estava por vir.

-Vamos para a pista! – ele gritou um pouco empolgado demais.

Não acreditei no que estava vendo. Fiz duas ameaças de deixar o recinto, mas fui demovido pela minha noiva.

Com as mãos no bolso e um peso imenso nas costas provocado pelo sentimento de derrota que me atingiu subitamente observo que todos os outros casais estão olhando pra mim.

De pé, no centro da pista, ficamos eu, o chato e minha noiva.
Ao nosso redor, uns 10 ou 15 casais com cara de "vergonha alheia".

O DJ começa a tocar um som de discoteca. E eu com as mãos no bolso. Pregado no chão. Olho para o lado e o chato está dançando com os ombros. Tive vontade de agredi-lo.

Pedi para parar. Disse que já estava bom, mas ele queria mais.

Me fez atravessar toda a pista para encostar a mão na caixa de som e sentir a "vibe". Caixas que também vieram da Europa, segundo o chato que, por misericórdia, me deixou voltar para a mesa.

Estava suado.
Como se tivesse sido submetido a uma sessão de tortura.

Para encerrar bem a noite, ele faz um orçamento equivalente ao preço de um apartamento. Mas disse que podia negociar. Claro, um cara tão legal, tão bonzinho. Prometi avaliar e entrar em contato mais pra frente.

Nunca mais apareci.

Mas, como bom chato passou a me ligar insistentemente.
Até um dia em que disse que não haveria mais casamento porque havia sofrido um acidente e o dinheiro reservado para a festa seria utilizado para comprar duas pernas mecânicas.

Nunca mais me ligou.
Chato!






Mais de Rafael Colombo no blog RETRATO PAULISTANO

sexta-feira, setembro 25, 2009

Eu estava lá

Por Vanessa Pinho


Eu estava lá. Mega produção. Esmalte. Chapinha. Perfume caro. Sorriso no rosto. Salto alto. Pretinho básico. Legal, tudo estava correndo bem. Festa. Amigos. Como diz o Lê: a gente precisa passar por todo tipo de emoção durante o dia, boas ou ruins. E eu, estava prestes a saber o que era isso.

- Eba! Ele chegou!

Mãos dadas. Beijinho no rosto. Combinamos a semana inteira sobre aquela festa. Eu estava feliz na condição de pseudo-namorada. Estava curtindo, tudo, intensamente. A festa começou a acontecer. Ele começou a acontecer mais do que a festa.

- Já falei pra você que tenho horror de gente que bebe demais e fica de olho vermelho, traumas de infância, já te expliquei isso.
- Mas eu não bebi.
- Bebeu sim.
- Quem vai levar o carro agora?
- Haaa, você!
- Suicida!

E enquanto eu ficava ali pensando que a noite tão esperada estava escorrendo pelo ralo feito meu xampu de salão caro, percebi aquele olhar vindo na minha direção. E não era um olhar vermelho. E não era um olhar desconhecido. Muito pelo contrário. Eu conhecia aquele olhar há pelo menos uns cento e quatro anos, e sentia, muita saudade dele. Era isso. Era como reencontrar aquele que foi par na quadrilha na 1ª. série, aquele que no dia da festa não vinha e você tinha que ficar de fora da dança. Era assim, um olhar que eu esperava. E tem mais: não era só um olhar. Era um cabelo sem a mínima pretensão de estar arrumado. Era uma conversa que poderia durar horas. Era um sorriso que parecia acabar com os problemas do mundo, com a corrupção, com as drogas, com a crise mundial.

Ele veio me cumprimentar. E eu fingia estar tudo sob controle. Eu já o conhecia, já tínhamos conversado um montão de vezes. Mas pra mim ele era imaginário, sabe? Ele já tinha me dito que existia, mas eu não acreditei. E pior que existia. Ou melhor. Não sei. Enfim, mil coisas.

Ele me abraçou e eu parecia ter sido transportada pro cenário da novela alma gêmea, da Globo:

- Nossa, que bom te encontrar aqui. [Clima de descontração é importante ainda que o coração esteja batendo no ritmo da bateria do Salgueiro].
- É verdade, tudo bem?
- Sim, tudo bem. [Haaa, claro, tudo muito bem, você tem alguma dúvida disso?]

E eu fiquei ali como se tivesse dado um stop no planeta, sabecomé? Eu queria que o mundo esperasse, vê se pode? Eu queria que todo mundo congelasse, que o som acabasse, só pra poder ouvir aquela voz que eu não conhecia. E nem que o palco caísse, eu sairia dali. O palco caiu.

- Hãinnnn Jesus! Se machucou?
- Não, tô bem, quase caiu em mim, mas tá tudo bem... [risos] - Então tá, vou lá. Bom te ver. [Ótimo te ver, maravilhoso, perfeito, mágico, inclusive].

E eu fui, mas meu coração ficou ali, puxou uma cadeira, sentou ao lado daquele moço e pediu um café expresso e uma água, por favor! Nós ficamos conversando a noite inteira por músicas:

"Penso naquele menino a cada manhã... Penso nele todo dia ele é minha alegria, ôO, ÔO, ôO!" [Cala a boca Ivete, já chega!]

"Amor da minha vida, daqui até a eternidade, nossos destinos foram traçados na maternidade..." [Não me enche Cazuza, não tá vendo que o clima já está estranho?]

Meu “par na festa” aparecia de vez em quando, verificava se eu estava viva e ia ao bar. Não necessariamente nessa mesma ordem. Eu olhava pro menino do sorriso calmante, pro meu relógio e pensava em ir pra casa e ficar pelo menos meia hora olhando pro nada, nessa ordem. Eu queria tomar um banho também. Sempre resolvi todos os problemas da minha vida no banho. Mas dessa vez, eu queria mesmo era voltar pro útero e ficar por lá, mais uns seis meses, pra ver se me colocam os sentimentos que faltaram. Desapego. Onde vende isso? Como eu faço pra ter? Eu precisava me desapegar.

Deixe que digam, que pensem, que falem, deixe isso pra lá, vem pra cá, o que que tem? [Haaa, não, aí já é demais. Fala assim porque não é com você, Lulu]

A festa acabou, o meu pseudo namoro também. Mas a esperança de ver aquele menino de novo só crescia. Hã? Claro que eu fui batizada, fiz até a crisma. Mas não posso fazer nada se minha cabeça e meu coração entram em conflito.

Eu deveria nesse momento procurar um padre, me confessar, algo assim. Mas vou deitar, ligar na Itapema, abrir um pouco a janela pra ver o vento balançar a cortina igual cenário de novela das oito e ficar ali, olhando pro bege da parede. Eu odeio a cor bege. Mas sobre isso eu falo depois.

Nunca me senti tão dividida, tão perdida. Estou me sentindo uma leitora da revista Capricho, enfim. Stella, só você pra me aconselhar.

sexta-feira, julho 31, 2009

Quanto riso, quanta alegria... mais de mil palhaços no salão!

Por Vanessa Pinho

Estava em casa, pés enterrados em pantufas enormes. O telefone toca: era Maurinho. Um carinha meio, meio... um carinha meio sem opiniões pra ele no momento -- sabe quando a pessoa não te desperta nenhum tipo de impressão? Pois é. Ele era chato, essa era a única lembrança que tinha dele. Estudamos juntos no colégio e Maurinho era aquele tipo de palhaço que falava mal de todas as meninas com quem que ele NUNCA conseguiria ficar, por motivos bem óbvios. Mas o bravo Maurinho é meu amigo de Orkut. Sim, porque é para isso que o Orkut serve - para desenterrar esses seres com QI de ameba que não vemos mais nessa dura vida.
No entanto, quem diria: naquela noite fria e estranha, o poróprio ligou me convidando pra ir a uma festa muito massa de uma amiga, e eu pensei que ele, depois de tanto tempo, poderia assim, quem sabe, em um surto ou síncope, ter mudado um pouco e ter se tornado um cara engraçadinho. Confesso que estava querendo muito sair naquele dia - era sábado e eu não estava a fim de encarar Serginho Groisman até altas horas. No mais, eu tinha comprado um scarpin novo, azul marinho, e estava querendo muito me “aparecer” com ele.
Maurinho estava em seu dia de sorte - ei, por que raios estou falando igual ao cara do Linha Direta? Enfim...

Combinamos que ele passaria pra me buscar perto das onze e nesse horário eu estava pronta, linda, loira e lisa. Estava chovendo e eu esperava que, ao menos, aquele ser circense me buscasse em casa. Mas não, ele ligou dizendo que estava me esperando no fim da rua. E agora? Como iria colocar meus sapatos novos nessa chuva? E meu cabelo? Minha maquiagem? Desci a rua incorporada na She-ha, já pensando baixo: 'escuta aqui seu idiota, você por acaso sabe o quanto custou esse sapato? Sabe o que significa maquiagem borrada e cabelo molhado pra uma mulher no sábado à noite? Não, você não sabe, porque você é um palhaço, e palhaços como você...hm'.
Cheguei ao carro, e dei de cara com uma platéia dentro - claro, porque palhaço esperto anda sempre com o público junto, para assim garantir os aplausos. Frente a isso, guardei minha espada justiceira e fui obrigada a dar um suave e tranqüilo 'Oiiii, gentiiiii!'.

O carro do Maurinho era daqueles modelos enormes o suficiente pra caber o ego dele e todos aqueles eletrônicos que só um idiota põe em seu carro. A música variava entre aquela que diz 'Fada, Fada Querida' e uns pagodes do momento. E eu já estava começando a sentir saudade, mas muita saudade mesmo do Serginho...


Chegamos à festa. Era um ambiente enorme, cheio de carros enormes estacionados. Uma luz vermelha vinha lá de dentro quase que imitando um inferninho e, lá fora, uns garotos de cabelos revirados de propósito (sabe o Fresno?) se divertiam ao som que vinha de um dos carros enormes e escuros, igualzinho àquele que matou a protagonista da novela “A Próxima Vítima”. Medo. Se aquilo não era o inferno, era a sala de espera dele.
Maurinho me apresentou uns amigos com codinomes estranhos que já tinham bebido muito, dando mesmo a impressão de que a festa estava no fim. Aqueles seres pareciam ter bebido álcool direto da bomba do posto. Meninas dançavam se contorcendo como se estivessem em aulas de alongamento, e vestiam roupas tão justas que pareciam estar embaladas a vácuo. Elas se divertiam batendo fotos de si mesmas em celulares rosas ou vermelhos com pingentes de Hello Kitty. Sabe, o pior nem é você ser mané... pior mesmo é quando você deixa de ser mané. Porque você acaba não topando mais essas pessoas e isso fode com a tua vida social, sabe?

Mas eu estava lá, e tudo precisava melhorar.
Maurinho não saía do meu lado, dando a entender que estava me pegando, mesmo sabendo que isso não tinha a ínfima possibilidade de acontecer. Sabe o cachorrinho que faz xixi no cantinho pra marcar território? Maurinho sempre teve essa mania feia de iludir todo mundo, vendendo umas verdades mentirosas. Acredita que 'o legal não é estar namorando e sim parecer que está namorando' e gente assim, tem aos montes. Ô, se tem. E eu sorria, e bebia uma coisa verde, e eu usava umas pulseirinhas em neon, e bebia uma coisa verde, e dançava ao som de umas músicas sem refrão, e bebia uma coisa verde, e estava começando a achar que aquilo tudo pelo menos me renderia um texto para o blog quando a pessoa mais inteligente da festa disse 'Aiii, vamos né, galera?' Uhuuuu, agora sim! Devo tudo pra essa pessoa, ela sabe o que diz.
No carro, aquele clima estranho. Maurinho, enquanto falava sobre os dois carros que tinha, da lancha do pai, das casas de praia e do sítio, me perguntava sobre tudo e aquilo estava parecendo uma entrevista, não uma conversa. Já estava com medo, achando que ele perguntaria o tamanho do meu O.B. quando ele soltou a pérola: 'mas você ganha quanto? Porque eu tô ganhando...' Pra quem não conhece, esse é o famoso Palhaço IBGE - ah, eu confesso que teria achado esse cara mais legal se ele tivesse perguntado sobre o meu O.B., entende? Porque aquela pergunta fez com que eu o achasse mais idiota do que de costume e fez com que eu tivesse dado minha noite como perdida.
'Meu querido, não costumo dizer o quanto eu ganho pra qualquer um' - parêntesis: homem é como tapete, de vez em quando temos que dar uma sacudida. Ele ficou muito sem graça (sim, mais ainda) e eu estava finalmente em frente à minha rua. 'Deixa eu te levar até sua casa? Está chovendo'. Eu pensei: 'Sim, agora que eu tô a cara da Elba Ramalho você pensa em me levar em casa? Não precisa'. 'Amanhã vou viajar a trabalho, mas posso te ligar?' - o circo, quando é bom, se apresenta em várias cidades. 'Huum... pode!'. 'Então tá, até amanhã!'.

Subi minha rua pensando que não se deve nunca, mas sob hipótese alguma, tentar salvar um sábado... e concluí que homem é realmente tudo palhaço. E palhaço que é palhaço não muda nunca, apenas troca de espetáculo, de cenário e de figurino. Deitei na minha cama, liguei a TV. Serginho, mas que saudade de você, colega!

Status do meu celular nesse momento: fora da área de serviço ou desligado.