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sexta-feira, setembro 25, 2009

Eu estava lá

Por Vanessa Pinho


Eu estava lá. Mega produção. Esmalte. Chapinha. Perfume caro. Sorriso no rosto. Salto alto. Pretinho básico. Legal, tudo estava correndo bem. Festa. Amigos. Como diz o Lê: a gente precisa passar por todo tipo de emoção durante o dia, boas ou ruins. E eu, estava prestes a saber o que era isso.

- Eba! Ele chegou!

Mãos dadas. Beijinho no rosto. Combinamos a semana inteira sobre aquela festa. Eu estava feliz na condição de pseudo-namorada. Estava curtindo, tudo, intensamente. A festa começou a acontecer. Ele começou a acontecer mais do que a festa.

- Já falei pra você que tenho horror de gente que bebe demais e fica de olho vermelho, traumas de infância, já te expliquei isso.
- Mas eu não bebi.
- Bebeu sim.
- Quem vai levar o carro agora?
- Haaa, você!
- Suicida!

E enquanto eu ficava ali pensando que a noite tão esperada estava escorrendo pelo ralo feito meu xampu de salão caro, percebi aquele olhar vindo na minha direção. E não era um olhar vermelho. E não era um olhar desconhecido. Muito pelo contrário. Eu conhecia aquele olhar há pelo menos uns cento e quatro anos, e sentia, muita saudade dele. Era isso. Era como reencontrar aquele que foi par na quadrilha na 1ª. série, aquele que no dia da festa não vinha e você tinha que ficar de fora da dança. Era assim, um olhar que eu esperava. E tem mais: não era só um olhar. Era um cabelo sem a mínima pretensão de estar arrumado. Era uma conversa que poderia durar horas. Era um sorriso que parecia acabar com os problemas do mundo, com a corrupção, com as drogas, com a crise mundial.

Ele veio me cumprimentar. E eu fingia estar tudo sob controle. Eu já o conhecia, já tínhamos conversado um montão de vezes. Mas pra mim ele era imaginário, sabe? Ele já tinha me dito que existia, mas eu não acreditei. E pior que existia. Ou melhor. Não sei. Enfim, mil coisas.

Ele me abraçou e eu parecia ter sido transportada pro cenário da novela alma gêmea, da Globo:

- Nossa, que bom te encontrar aqui. [Clima de descontração é importante ainda que o coração esteja batendo no ritmo da bateria do Salgueiro].
- É verdade, tudo bem?
- Sim, tudo bem. [Haaa, claro, tudo muito bem, você tem alguma dúvida disso?]

E eu fiquei ali como se tivesse dado um stop no planeta, sabecomé? Eu queria que o mundo esperasse, vê se pode? Eu queria que todo mundo congelasse, que o som acabasse, só pra poder ouvir aquela voz que eu não conhecia. E nem que o palco caísse, eu sairia dali. O palco caiu.

- Hãinnnn Jesus! Se machucou?
- Não, tô bem, quase caiu em mim, mas tá tudo bem... [risos] - Então tá, vou lá. Bom te ver. [Ótimo te ver, maravilhoso, perfeito, mágico, inclusive].

E eu fui, mas meu coração ficou ali, puxou uma cadeira, sentou ao lado daquele moço e pediu um café expresso e uma água, por favor! Nós ficamos conversando a noite inteira por músicas:

"Penso naquele menino a cada manhã... Penso nele todo dia ele é minha alegria, ôO, ÔO, ôO!" [Cala a boca Ivete, já chega!]

"Amor da minha vida, daqui até a eternidade, nossos destinos foram traçados na maternidade..." [Não me enche Cazuza, não tá vendo que o clima já está estranho?]

Meu “par na festa” aparecia de vez em quando, verificava se eu estava viva e ia ao bar. Não necessariamente nessa mesma ordem. Eu olhava pro menino do sorriso calmante, pro meu relógio e pensava em ir pra casa e ficar pelo menos meia hora olhando pro nada, nessa ordem. Eu queria tomar um banho também. Sempre resolvi todos os problemas da minha vida no banho. Mas dessa vez, eu queria mesmo era voltar pro útero e ficar por lá, mais uns seis meses, pra ver se me colocam os sentimentos que faltaram. Desapego. Onde vende isso? Como eu faço pra ter? Eu precisava me desapegar.

Deixe que digam, que pensem, que falem, deixe isso pra lá, vem pra cá, o que que tem? [Haaa, não, aí já é demais. Fala assim porque não é com você, Lulu]

A festa acabou, o meu pseudo namoro também. Mas a esperança de ver aquele menino de novo só crescia. Hã? Claro que eu fui batizada, fiz até a crisma. Mas não posso fazer nada se minha cabeça e meu coração entram em conflito.

Eu deveria nesse momento procurar um padre, me confessar, algo assim. Mas vou deitar, ligar na Itapema, abrir um pouco a janela pra ver o vento balançar a cortina igual cenário de novela das oito e ficar ali, olhando pro bege da parede. Eu odeio a cor bege. Mas sobre isso eu falo depois.

Nunca me senti tão dividida, tão perdida. Estou me sentindo uma leitora da revista Capricho, enfim. Stella, só você pra me aconselhar.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Os opostos [não] se atraem

por Vanessa Pinho
Barco furado: essa é a expressão que define melhor a frase “os opostos se atraem”.

Na teoria, até que é fofo dizer que “aah, nós somos diferentes, por isso nos completamos”. Mas na prática isso dá um bocado de trabalho e algumas noites de sono perdidas. Olheiras? É tão legal ter...

Você conhece o cara, sabe? E acha o máximo aquele jeitão meio despojado que ele tem. Ele bebe e reclama que tem que acordar cedo. E você acha isso tão bonitinho, afinal ele só tem 24 anos, que amor.

Ele mora longe. Deve ser legal saber o que acontece lá no fim do mundo. Ele ODEIA aquela comidinha japonesa que você a-d-o-r-a! Mas e daí? Quando sentir vontade de um sashimizinho, convida uma amiga e vai.

“O legal do nosso relacionamento é isso, sabe? Essa diferença... Estamos nos conhecendo e eu tô tão feliz. Nos completamos. Incrível, né?”

E a vida segue, e ela segue, e ela continua seguindo... e você começa a achar um saco ter que aturar aqueles amigos dele, todos suados, falando abobrinhas na sua sala de jantar. E você começa a não achar mais graça em ir assistir Madagascar, e todos esses lançamentos bobos que ele adora. No inicio você fingia que gostava, eu sei, mas a ficha vai caindo, colega. Sua idade mental vai bloqueando certas coisas, um inferno.

Ir almoçar com a família dele, aos domingos, lá na PQP? Nem morta. Porque você já não agüenta mais ouvir a mãe dele dizer que você precisa ter paciência... que ele é assim mesmo... que ele é um filho querido e que você teve uma baita sorte em encontrá-lo.

E aí você sente aquela sensação de game over. E é nesse momento que aparece uma mãozinha, bate nas suas costas, e diz: ok, tudo muito bom, tudo muito divertido, mas está na hora de voltar pro corpo.
Somos seres curiosos e queremos sempre saber como é viver no mundo do outro. E é aí que a merda ta feita. Porque você entra no barco furado, aquele, que eu tinha dito lá no início, e depois não consegue voltar.

Eu adoro conhecer coisas novas, lugares novos, opiniões diferentes da minha. Mas isso em uma roda de amigos, certo? No dia a dia isso se torna tão impossível quanto manter sua unha e sua chapinha perfeita por três dias.

Eu namorei contra o Edu durante cinco anos, até que cansei total dessa coisa de fazer de conta... Eu tentei suportar o futebol na televisão, o futebol de sexta à noite e tentei, mais que tudo nessa vida, suportar o retardado do amigo dele, o Marcelo. Quero que o Marcelo se case e tenha oito filhos bem chatos, que ocupem todo tempo dele.

Quero que todos os amigos do futebol de sexta feira se lasquem, igual ao Flamengo. Cansei de namorar Dado Dolabella e tentar transformá-lo em Roberto Justus. Não funciona gente, vai por mim. Quero alguém que não saiba o que é “impedimento” e que não tenha a mínima idéia do que seja “tiro de meta”.

[Preciso dar a janta pro meu filho, já volto. Peraíí!!]
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... então, acho que essa coisa de ficar com o oposto, só funciona mesmo por um tempo. Depois você começa a ter crises, uma seguida da outra, cada vez que você pensa naquela camisa de time de futebol que ele não tira pra nada, por exemplo. Aquela, que ele estava usando quando vocês se conheceram e que você até achou engraçadinha e até pensou em virar flamenguista, lembra? Agora, você quer mais é que ela caia dentro de um balde de Kiboa. Sei bem como é.

Eu ando querendo encontrar alguém assim, como eu. Dizem que Deus não erra duas vezes, então, pelo menos alguém parecido. Dá pra ser? Não, não tô falando de alma gêmea... Alma gêmea, pra mim, é coisa de Vale a Pena Ver de Novo da Globo.

Longe de mim ter alguém que assine tudo que eu digo. Que concorde que meu cabelo é legal e que sou uma pessoa tranqüila. Até porque, se isso acontecer, ele será duas coisas: mentiroso e bobalhão.

Ele não precisa ir ao shopping comigo em dia de liquidação e achar isso o máximo. Mas também não precisa fazer aquela cara de cemitério maldito cada vez que eu pensar em provar alguma coisa. Ele só precisa estar na mesma sintonia, seguir a mesma direção, ainda que os caminhos, muitas vezes, sejam diferentes.