Mostrando postagens com marcador mimimi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mimimi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, abril 15, 2011

Em defesa dos frascos e dos comprimidos

Por Lilian Buzzetto 

  
Tenho uma colega em depressão. Ela não está triste porque tomou um pé na bunda, o chefe é um boçal e a calça jeans não entra. Não, a moçoila foi clinicamente diagnosticada, farmacologicamente tratada e, de acordo com seu psiquiatra, apresenta o quadro clássico que segue cada linha do que está escrito nos manuais e tratados da especialidade. Para todos os fins e por todos os meios, ela está doente.

Meu lado racional conversa comigo, argumenta, expõe dados, fatos e fontes tentando fazer com que o lado negro da minha alma se compadeça da situação, mas eu não consigo. Opto por me afastar de pessoas deprimidas e depressivas, pois, no fundo, acho-as deprimentes. E isso parece ser mais forte que eu!

Sou um desastre para consolar pessoas – cada frase que eu digo, tentando ajudar, faz o ser afundar ainda mais e costuma resultar em berreiro. Sou potencialmente nociva aos oficialmente deprimidos que se acham inúteis, uma vez que, por mais esforço que faça, vou deixar transparecer que – no fundinho do meu coração – concordo com o fato de que a pessoa é um desperdício de espaço no planeta e uma involução da raça humana.

Eu + Sujeito em Depressão = tendência ao suicídio.
E – desconfio que – EU + Sujeito Suicida = O último pulando do prédio.
[Nota mental: não me voluntariar a posto no CVV].

Podem me apedrejar: EU CONCORDO, APÓIO E FORNEÇO AS PEDRAS. Longe de mim, pensar que estou certa na questão, mas é assim que meu subconsciente ou o que quer que me defina em camadas mais profundas encara a coisa.

Minha mente funciona de maneira turrona e obtusa para algumas coisas e encaro a Teoria da Evolução mais a ferro e fogo do que ela merece. Quando ouço que alguém se trancou em casa por causa da depressão, concluo que é melhor que este humano se mantenha recluso, com menos risco de se reproduzir. Cada vez que ouço que, num caso extremo, alguém se suicidou ou tentou o suicídio, a frase “o mundo não perdeu nada de útil” inunda minha mente antes que eu consiga racionalizar qualquer ponto.

Talvez eu pense assim porque os transtornos psiquiátricos e psicológicos estão banalizados. Tenho a ligeira impressão de que se somarmos o número de pessoas que alegam estar estressadas, estafadas, deprimidas, com síndrome de vai-saber-lá-Deus-o-que, excederemos 7 bilhões de pessoas.

- Meu filho tem hiperatividade. 

Não, peã, eu conheço teu filho desde que nasceu. O que teu filho tem são sete anos, aquela fase insuportável e mal educada, que parece ser causada pela perda dos dentes da frente: e que gerações anteriores de papais e mamães solucionaram com meia dúzia de tabefes, muito choro e zilhões de horas sem poder brincar lá fora. Mas controlar o pimpolho com Ritalina é mais fácil que educar, né? 

 A sociedade anda dando a todas as fraquezas humanas um nome bonito, uma explicação minuciosa e um remedinho - o que seria ótimo se fosse encarado como forma de melhorar, curar, tratar. Mas o que vejo é que toda vez que um sujeito fracassa, tem um especialista para explicar e justificar o erro.

Bebe demais e não tem um pingo de força de vontade: é doente. Chora o dia inteiro e não tem vontade de viver: é doente. Não consegue se relacionar com os outros seres humanos: é doente. Come demais e está obeso, é doente. Matou a mãe, é doente. Eu, tabagista, sou doente.

Aposquintodosinferno. Tudo agora é desculpa, tudo foi causado por alguém do passado ou por uma série de reações químicas em algum lugar obscuro do organismo. O que vejo é falta de gente querendo assumir sozinha e no peito, seus erros por suas decisões, fracassos e incompetências.  

Eu não consigo parar de fumar porque fui uma idiota em começar e agora tenho menos força de vontade do que o necessário. Ponto. Era minha culpa antes, continua sendo minha culpa agora. E o fato de eu não conseguir respirar quando subo quatro lances de escada é culpa minha – não da genética do meu pulmão, não do fabricante de cigarros.

A maior parte dos gordinhos que conheço está acima do peso por comer como um porco, não por algo inevitável, hereditário e do mal.

A existência de “tratamento” para alguma situação negativa, não necessariamente transporta a pessoa afetada para o reino dos injustiçados. Existe tratamento para cárie, mas se você não escovar os dentes e tiver que lidar com um canal – a CULPA é sua – não é de Deus, não é do mundo, não é da sua mãe, nem de seus coleguinhas de pré-escola. É sua.

RESPONSABILIDADE. As pessoas fogem dela como meu dinheiro da minha conta corrente. A análise excessiva das relações de causa e efeito que afetam a psicologia humana tem criado – a partir de agora advertidamente, porque eu estou advertindo – uma série de muletas.

Você não fracassa na vida por não ser normal – até porque, já dizia um sábio qualquer, de perto ninguém é. Você fracassa porque erra, porque faz escolhas equivocadas, porque não é competente.

Você fracassa porque é um bosta.
PONTO.

E todos nós somos um bosta em algum momento, em algum aspecto. [Eu, em vários]. Ou será que TODA A HUMANIDADE ESTÁ DOENTE E INCAPACITADA? Se sim, fracassamos como espécie. Assumamos e miremos a extinção.

E nem venha me dizer que as pessoas são incapazes de assumir suas falhas porque a sociedade de hoje cobra de mais a perfeição e blá-blá-blá – porque eu e você somos indivíduos com livre arbítrio para reagir às cobranças e intempéries como assim nos aprouver. E se eu der errado: a culpa é só minha.

PS: Peço aos que tiveram que lidar com casos extremos das supracitadas doenças, minhas sinceras desculpas – mas não me apareçam todos dizendo que têm um ou mais desses transtornos encavalados ou conhecem alguém ou tem. Não entra na minha cabecinha tacanha que quase a totalidade da população mundial não seja capaz de assumir o que faz, o que é e onde cagou no pau. Vai um papel higiênico aí? 


segunda-feira, dezembro 06, 2010

Outubro

Por Lilian Buzzetto
Dezembro chegou, finalmente. Fiz aniversário, envelheci, enruguei e desconfio que o creme anti-idade para minha nova primavera custe mais caro agora. (Parabenizem-me e digam-me que continuo linda, lisa e jovem, seus desalmados! Grata.)

Enfim, Dezembro chegou e, como em todos os anos, tenho a nítida impressão que esse mês horrendo vai durar uns noventa dias, no mínimo.

Como mal-humorada-clichê que sou, detesto – com todas as poucas forças que ainda me restam nessa altura do campeonato – o mês das festas e suas festas. Na minha humilde visão, o ano seria plenamente viável com apenas 10 meses – um número redondo, bonito, satisfatório e adequado para destrinchar impostos com base anual sem a necessidade de calculadora ou dois dedos do pé.

Se o fim fosse em Outubro, eu acho que ainda teria coragem de entrar num shopping/mercado lotado e encarar filas imensas para comprar presente para parente distante, roupa branca, peru, chester, tender e os mais variados galináceos. Sairia saltitante com sacolas cheias de Sidra Cereser, Espuma de Prata, uva, abacaxi, cereja, romã, lentilha, uma árvore de natal e muitas, mas muitas bolinhas.

Em Outubro, acho que veria alguma beleza nas luzinhas espalhadas por todos os cantos que – atualmente – só servem para me dar enxaqueca. E, talvez, eu nem notasse que os prédios estão parecendo varal de pobre com decoração em varanda sim, varanda não - nas piores combinações de cores possíveis. Com esforço, eu superaria essa total falta de simetria piscando aleatoriamente.

Lá atrás, por volta do dia 300 do ano, não ficaria tão incomodada com a programação monotemática da TV que, invariavelmente, alterna especiais de cantores do século III a.C. e filmes onde há um órfão, sofrimento, sofrimento, sofrimento, mais sofrimento, uma espécie de milagre bizarro e um final feliz surreal. Talvez, eu assistisse a vinheta de “Aprendendo a Contar com Esqueceram de Mim” sem pensar que – se os filmes tivessem a mais vaga relação com a realidade – os pais do Macaulay Culkin perderiam sua guarda por irresponsabilidade recorrente e pagariam uma fortuna em terapia pro moleque.

Em meados do dia-das-crianças, eu ainda não estou cansada e amargurada a ponto de sentir ganas de jogar na cara do Gordo-Barbudo-Vestindo-Vermelho do shopping que ele é um babaca preconceituoso que só gosta e só presenteia as crianças boazinhas, que têm pais com algum dinheiro. Não desejaria ter uma forma de obrigá-lo a dar uma bicicleta-com-cestinha-e-tudo para crianças menos favorecidas que se dedicaram na escola, não se meteram em encrenca e respeitaram os pais. Acho que eu não ficaria com a esmagadora impressão de que o Papai Noel só serve para mostrar – a filhotinhos de gente de só 4 anos de idade – que decência e honestidade compensam menos se você tiver nascido pobre.

Acima de tudo, se o ano fosse menorzinho e eu não estivesse passada, possivelmente, eu não teria tanta vontade de voar no pescoço daquela criatura que exalta “Espírito de Natal” – como se meia dúzia de histórias sobre caridade, amor, paz e luz redimissem a humanidade do descuido de ter largado a Caixa de Pandora escancarada nos 11 meses anteriores.

Se essa onda de amor de Natal não me soasse como a coisa mais hipócrita que já ouvi, não mandaria à merda meu aparelho de TV por dizer que a emissora me deseja tudo-de-bom-e-mais-meio-quilo no intervalo da Retrospectiva. Eu, provavelmente, não pareceria insana ao gritar com o âncora do jornal dizendo que ele foi um filho da puta que se deleitou com a audiência gerada por todo tipo de desgraceira e que agora não adianta tentar me animar com essa mixaria de fatos iluminados que sugerem que a humanidade tem jeito. [Ô âncora, anota aí: eu vejo você e seus amiguinhos jornalistas ignorando durante todos os outros meses, várias pessoas que fazem o bem sem o tal do Espírito Natalino cutucando-lhes a bunda].

Acho que, lá em meados de Outubro, eu não sentia tanta vontade de rasgar o jornal que, mês a mês, me rouba aquela renovada fé na humanidade que eu insisto em ter após as resoluções de ano novo. Onze meses de espera por esperança me deixaram imune a qualquer tentativa de ficar subitamente feliz balançando ao som do “disco” da Simone.

Faço apenas um pedido ao Bom Velhinho: eu quero cinco minutos, numa saleta à prova de som, com o energúmeno que teve a brilhante idéia de colocar o Natal somente a cinco dias do fim do ciclo. Sozinha e com um porrete, claro.

Mas, para não estragar a alegria de ninguém, parto agora para meu casulo “dezembrístico”, onde ficarei confortavelmente isolada, garantindo minha sanidade mental e a integridade do aparelho de TV. Em Janeiro, volto com novas indignações e mimimis – menos amargos, menos agressivos, menos melancólicos. Pelo menos até o próximo Outubro.

E, para você, que consegue – Boas Festas!