Eu fumo. Fumo e defendo meu direito de continuar fumando, mas – além de sofrer com o julgamento de transeuntes e desconhecidos sobre a decisão pessoal de acabar com meu corpinho – tomo bronca por ser “da saúde” e questionar o consenso geral de que estou prejudicando inocentes. Minha postura é seguidamente taxada de LAMENTÁVEL. E ponto final.
- Ô moço, mas os estudos sobre fumo passivo não chegaram à conclusão alguma. Fui ler e vi que...
- HERESIA. Quem é você, garota?
Sou uma pessoa idiot
izada pelos donos da verdade. O coro é: a OMS falou e está falado. Escreveram no site do INCA e o Globo Repórter fez um programa sobre o assunto: é indiscutível. O governo tem órgãos e institutos que mastigam dados e refletem por você. Sim, o governo que, historicamente, sempre teve como foco o bem comum. Todos os dados são incontestes, porque saúde pública nunca foi moeda corrente para política, né?
izada pelos donos da verdade. O coro é: a OMS falou e está falado. Escreveram no site do INCA e o Globo Repórter fez um programa sobre o assunto: é indiscutível. O governo tem órgãos e institutos que mastigam dados e refletem por você. Sim, o governo que, historicamente, sempre teve como foco o bem comum. Todos os dados são incontestes, porque saúde pública nunca foi moeda corrente para política, né?Que raios eu fui fazer atrás de estudos originais?
Eu sou uma besta e ponto final.
Se eu entendi direito: a ciência e a sociedade evoluem exatamente quando todo mundo concorda. O homem saiu das cavernas porque todo mundo foi rés de boiada e, agora – finalmente – a humanidade chegou ao ápice da evolução e gente conhece a verdade! E ponto final.
Como pré-pro
jeto de pesquisadora, eu não engulo a ausência de questionamento e morro de medo da ciência que queima, metaforicamente, suas bruxas. Enstrom e Michael Siegel, não-fumantes e antigas lendas do combate ao fumo, foram execrados e boicotados pela comunidade científica por discordarem do exagero na interpretação de dados. Essa ciência aí lembra um pouquinho a Igreja na Idade Média e eu tenho medo.
jeto de pesquisadora, eu não engulo a ausência de questionamento e morro de medo da ciência que queima, metaforicamente, suas bruxas. Enstrom e Michael Siegel, não-fumantes e antigas lendas do combate ao fumo, foram execrados e boicotados pela comunidade científica por discordarem do exagero na interpretação de dados. Essa ciência aí lembra um pouquinho a Igreja na Idade Média e eu tenho medo.Se engolíssemos tudo o que vem de cima, ainda viveríamos num planeta achatado, morrendo de medo do inferno. Em minha opinião, que bom que alguns gatos pingados – certos ou errados – contestam o consenso geral. E sinto informar-lhes que sociedades passadas também acharam que sabiam das coisas. Na Antiguidade, já haviam descoberto a causa de TODAS as doenças: os “humores do corpo”. Não devíamos ter parado de investigar e contestar lá trás? Era tudo tão lógico! Convoquem o xamã para tirar o espírito mal do cara! É senso comum. É secular. E é o certo. E ponto final.
"Muitas pessoas fazem objeção ao cigarro. Pois eu também faço objeção a uma série de coisas: loção após a barba, adultos que andam de skate, crianças que falam francês ou pessoas com um bronzeado indevido. Mas não saio por aí desfraldando bandeiras ou tentando mudar a lei." Fran Lebowitz

Alguns (muitos) P.S.
1. Antes que algum energúmeno comece com o blábláblá-pesquisas-financiadas-pela-malévola-indústria-tabagista: nunca me iludi achando que a Souza Cruz se preocupa mais comigo do que com meu dinheiro. Mas devo acreditar cegamente na santa indústria farmacêutica? O remedinho pra parar de fumar não é de graça. Bem vindos ao mundo capitalista! O dinheiro move o mundo, para os DOIS LADOS, tá cambada?
2. E antes que outro energúmeno venha contar uma triste história pessoal: não me comovo com setores de oncologia porque, em minha opinião, existe um troço chamado Síndrome do Especialista. Minha dentista acha que devo perder metade do dia escovando os dentes, minha dermatologista quer que eu gaste meio salário para não ter câncer de pele e minha podóloga acha que meu dedão do pé é a parte mais importante do corpo e que posso morrer de septicemia se a unha encravada infeccionar. A clínica traz a proximidade com o indivíduo e, obviamente, perder um paciente ou um ente querido para uma “causa evitável” machuca, mas não justifica intervenções no mundo.
3. Decisões que atingem todos devem ser tomadas por riscos significativos a população e é para isto que existe a epidemiologia. Se enveredarmos pelo caminho dos causos pessoais, tudo deveria ser proibido! Bombeiros morrem resgatando pessoas que se meteram em enrascadas por prazer: vamos proibir o povo de se embrenhar no mato?
4. Coisas assustadoras não necessariamente são letais. Sabiam que – em uma idílica praia o risco de ser morto por um coco na cabeça é maior do que o risco de ser atacado por um tubarão? Mas nunca veremos documentários ou campanhas de conscientização sobre o perigo dos cocos. Cocos são criaturinhas de Deus. O tabaco e os tubarões se vestem de negro, usam máscaras e falam com aquela voz de Darth Vader.
5. Que o cigarro, gordura, açúcar, sol e sombra matam milhões por ano nossa ciência já mostrou. Mas o que ninguém ressalta é: mata com quantos anos? Nossa ciência é muito mais nova que o próprio tabaco e, incrivelmente, a população cresceu assustadoramente por milênios com o povo fumando por aí! Dá uma olhada só no século XX. Agora, onde é que pretendem colocar toda essa gente se as pessoas perderem o saudável
hábito de morrer?
6. Tenho uma expectativa de vida de 70 aninhos – talvez menos, porque fumo – e não posso esperar a evolução para “saber”. Não me rendo a intervenções com base no “achismo”. Quando provarem por A+B que estou matando os companheiros de planeta – TALVEZ, eu pare. Mas, não tentem me imprimir culpa com ameaças à la Idade Média porque não vai funcionar. Gostaria de tomar minhas próprias decisões quanto ao que fazer com essa pequena manchinha histórica que serei. E sonho que os quase sete bilhões de pentelhos façam o mesmo e cuidem de seus 70 anos.
E - ó, povo do movimento mundo desenfumaçado: NÃO disse no texto que EU estou certa e ponto final. Estou aberta ao debate e quem quiser os dados que tenho é só pedir, tá?
"Muitas pessoas fazem objeção ao cigarro. Pois eu também faço objeção a uma série de coisas: loção após a barba, adultos que andam de skate, crianças que falam francês ou pessoas com um bronzeado indevido. Mas não saio por aí desfraldando bandeiras ou tentando mudar a lei." Fran Lebowitz







