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quinta-feira, outubro 01, 2009

Diz que fui por aí

Por Karina Lima

Um bom expresso, casaco favorito, sapatilha, óculos, iPod, um livro daqueles bem leves. Quando esses elementos se combinam, coisa extraordinariamente boa está por chegar – é com essa indumentária e elementos que eu, geralmente, viajo por aí. Sou Turismóloga por formação, e viajante assumida por pura paixão. Ah, e quando o assunto é vespar, aqui tem amor pra uma micareta toda, e ainda sobra.

Minha relação magnética com o mundo das viagens começou cedo, mas reafirmei o prazer por essa escolha quando engatei na faculdade. Depois do parto pra agarrar o primeiro emprego nessa área, deitada eternamente no berço esplêndido da Legislação Trabalhista, confesso procês que passei por poucas e boas: horas a fio trabalhando de pé, gringos esquisitaços, escândalos de gente surtada, celebridades e subcelebridades, coque, gel de cabelo, salto alto, terninho, eventos, frenesi, sono acumulado, tropeços. Hotel, Congresso, Feira, Fórmula 1, Coletiva, Evento Social, Traslado, Helicóptero, Check-in. Turco, inglês, árabe, alemão, japonês, argentino, polonês, italiano [aahh, a Itália... tenho a síndrome da Sandra Bullock em ‘Enquanto Você Dormia’]. Sempre fui um centro gravitacional de desordem, acreditem vocês, e por isso estou no mercado certo, suponho. É divertido e, principalmente, vivo. De uma vivacidade louca e encantadora.

Vejamos... voltando à vaca fria [adoro expressões idosas], após uns bons mililitros de suor e esforço corporativo nessa época de sangue, batalha e lágrimas, eis que veio a primeira dádiva para essa escrava branca: ‘Karina, você vai para o Alaska a trabalho’. Aí, pensei: ‘Ah, é? Já que estou sonhando mesmo, aproveito e já peço um pônei, ou um urso polar, de quebra! Tô trabalhando na National Geographic e não sabia?’. Desse marco em diante, de Mossoró a Moscou, do Oiapoque ao Chuí, de Leste a Oeste, qualquer lugar é lugar, e todo lugar no globo é encanto. E um sorriso me escapa só em escrever isso.

Tudo porque essa tese é cientificamente comprovada: viajar renova, anima, instiga, encanta, seduz, inspira, carrega as (nossas) pilhas, enche o chip da câmera, lota o coração e a cabeça de memórias e novidades. Viagem é vida com V maiúsculo, hábito que não enjoa, sala de aula sem janelas, e nessa escola eu me orgulho em ser nerd convicta.

Entre uma filosofada e outra, reviso mentalmente o que pode me faltar – estou de malas prontas e coração palpitando – vou, a trabalho, para a casa dos nossos hermanos e do Tio Maradona. Embarco amanhã cedinho, antes mesmo do galo acordar pra cantar (galos contam o que pra dormir? Carneiros? Esquisito, isso).

Em algumas horas, enquanto vocês estiverem no décimo sono, estarei de bobeira após um bom café, com iPod em punho, pronta para taxiar na pista. Aí, será correr pro abraço: decolagem autorizada, força total...
FUÓÓÓSHHH!

E essa prosa continua. Na volta, é claro.
Conto tintim por tintim, e logo depois os detalhes. A vocês, tudo!







Fernanda Takai
"Diz que fui por aí"
(Zé Keti / H.Rocha)


sexta-feira, agosto 07, 2009

Me incluam (fora) nessa

Por Karina Lima

TIA: Mas ele é um partidão, sobrinha! Advogado bem-sucedido, com a vida ganha, vai te tratar do jeito que você merece, feito uma baronesa!
EU: Mas tia, por Nsa. Sra. da Rotatória, vou conhecer essa criatura de que jeito? Vou fingir que assaltei a doceria do bairro, dizendo que pago estupidilhões pra não ficar no xilindró?
TIA: Ah, e eu lá sei? Trouxe a pista, agora você que dê seus pulos... vão formar um casal lindo de do-er, certeza!
EU: Detalhe essencial: e se o cara falar tudo em juridiquês e for um chato de galocha?!
[tia bem-intencionada sai, impaciente, da sala de estar]Eis aí uma cena mais que corriqueira nessa minha vida-balaio-de-gato: todos, sem exceção, querem me agenciar (sem comentários maledicentes, por obséquio). Como solteira invertebrada e convicta, quase me sinto em uma galeria, em exposição -- falei galeria porque ‘feira livre’ ia parecer mambembe demais, mas essa segunda analogia caberia bem melhor, certeza.

Em um mundo no qual mulheres foram criadas para casar, solteirice deveria ser o exercício mais genuíno da aberração. Mas não: somos um exército cada vez mais denso e, cá pra nós, feliz e, com alguma sorte, bem-resolvido. Antes de sofrer retaliações, que fique bem claro: essa não é couraça de mal-amada -- é só uma questão de plena aceitação da própria realidade, oras bolas. Há quem corra a maratona da vida se culpando por não ser a tampa da panela de um outro alguém – vou bancar a Princesa Isabel, e libertar vocês agora: que aceitemos nossa condição, temporária ou não, de panelas panquequeiras. Tampa pouca, a essa altura do campeonato, já se tornou bobagem.

As vertentes que procuram encriminar o modo solteiro de viver a vida são pra lá de apocalípticas, e já fiquei besta de tanto ouvir essas ladainhas:

'Ah, você não se empenha o necessário!’‘Também pudera: tão lesada que só percebe o flerte se o bofe mandar um carro de som’‘ Use mais maquiagem, sua pata! Olha essa cara de tomei soro’‘Saia mais! Quer encontrar um pretendente dentro do balde de pipoca?’‘Ah, mas pra que ser tão seletiva, criatura?’‘Isso deve ser trauma: lembra que você recebia vários buquês de flores de pretendentes medonhos?’

Uma coisa é muito certa: se um dia eu levar a sério essas teorias, farei suco de Tang com muito Lexotan pra me suicidar, pra já.

[Ah, mas não se precipitem, vocês não se livrarão de mim assim, tão facilmente, rá!]

Falando sério: ainda creio que felicidade seja produto nascido de dentro de nós, individualmente, e que a graça de relacionar-se seja somar alegrias distintas. E mais, essa vida é muito boa para quem equipa a nécessaire de bom astral e perambula a passeio por esse mundo que pode, sim, ser cheio de encantos sem assinatura ou compromisso firmado e registrado em cartório – no fim, ainda sou da crença que paixão é feito chave do carro, minha gente: nunca se sabe onde ela está, efetivamente. Hakuna Matata, portanto.

[Enquanto isso, na Sala de Justiça, a sábia mamis me diz que essa ‘festa do caqui’ alternando paixonites, agitos e pretendentes-relâmpago vai cessar e que meu telefone vai tocar menos, cada vez menos, quando os famigerados 30 anos chegarem.]

Por hora, sinto muito, mas não sinto nada: deixem que o Sr. Príncipe Encantado venha, fabuloso e atrasado, em seu manco e preguiçoso jegue real. Alguém aí está ouvindo o galopar do tal bichinho? Eu, não...