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sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Greta quer ser sozinha

Por Karina Lima

O metrô paulista pode ser uma experiência infernal, dos diabos. Nele, nesses dias de calor, eu me sinto feito uma peça de quebra-cabeça devidamente encaixada, sem nem um mísero milímetro pra me mover pra onde quer que eu ameace, e amarrada a quatro odiosas peças-vizinhas. Contatos físicos indesejados, impaciência, calorão... e eis que de repente, como num milagre, chego à estação e salto do vagão assim, como quem vai redescobrir a América: não creio, estou livre!

[Sempre faço dramalhão. É.]
A maratona da escadaria rolante vai começar, mas antes me juntar à multidão afoita para subir os degraus me deparo com um obstáculo irresistível: uma banca de livros. Vários, muitos deles, baratos, com aquele cheiro que adoro, bem ao alcance das mãos. Não deu outra: fiz a melhor aquisição da semana, e ainda estou em processo de degustação dela, aliás. Uma biografia – sim! De quem? Greta Garbo. Confesso que dela, eu só recordava de um trecho de música na qual Gwyneth Palltrow cantarolava: “She’s got Greta Garbo's standard size/ She's got Bette Davis eyes!” Nada familiar, mesmo... mas segui pro test drive literário – sorte grande persistir.

Num momento ‘oásis metroviário’, vi que a grande mulher da capa atendia pelo nome de Greta Lovisa Gustafsson – sueca de nascença, de 1905, atriz consagrada e conhecida como "A Divina". Divina, pra mim, é nome de vizinha fofoqueira, mas logo saquei que a coisa era bem mais ‘celestial’. Vanguardista no cinema e em seu tempo, Miss Garbo era de dar raiva: rosto irretocável, fotogenia incrível, aquele ar blasé todo. Órfã de pai, ela deixou a escola para trabalhar bem cedo. Quando foi descoberta por olheiros, ascendeu rapidamente no cinema, que ainda era mudo, arrematou prêmios, brilhou.

[Comprei o tal do livro, lógico.]

Sabem aquela patacoada que nós repetimos nos nossos acessos de mulherice? “Eu sou puro mistério, eu sou enigmática, complexa, nasci sem manual”... tudo herança da maneira Garbo de ser – a mulher era fria, reservadíssima, depressiva... e na mesma medida tinha personalidade marcante, era sofisticada, narcisista, inteligente, espirituosa. Um mito real. Chegada num whisky e numa cigarrilha a ponto de fazer bela dupla com a tia Stella, vejam só.

De paixões doidamente complicadas, ela nunca se casou -- houve quem dissesse que ela era bissexual, até. Procurou, em seus romances, a figura do pai falecido ao lado de homens mais velhos e dominadores. Ela era absoluta, famosa, influente... e ao mesmo tempo queria alguém que tomasse rédea de sua vida, alguém de personalidade ainda mais forte e inequívoca. Por ser tão Greta-vai-com-as-outras, perdeu boas oportunidades de trabalho, e não construiu uma vida afetiva plena: sempre se deixou levar pelo barulho alheio, em todos os sentidos.

[Devoro as páginas - os céus estão caindo em São Paulo!]

Atenção, mulheres alteradas: ela tinha absoluto pavor de fracasso, era aficionada pelo perfeito. Opinião de outros era veneno. Negativa, então... vish! Ela tinha tanto medo do ridículo que saiu de cena muito cedo: nem sua vida corriqueira se manteve sã depois do arrebatador estrelato. Supermercado pra comprar pipoca ou Sazon? Jamais. Deu ‘gentefobia’ nela – contato com outros humanos era coisa rara.

Essa gigante sofria demais com qualquer crítica. Por ser tão arisca e tão ET, Greta afastou de si vários diretores – o que ficou foi um híbrido entre a devoção à diva misteriosa e o escárnio de uma mulher covarde e amedrontada, perdida justamente porque havia chegado lá. Ela ‘pediu pra sair’ no auge da fama... dá pra imaginar? A mulher do momento queria chorar num cantinho, como costuma dizer a nossa querida Vanessa Pinho em momentos de conversa fiada.

[O papagaio de estimação assobia feito um peão de obra: estou em casa]

O peso de ser tão bela, famosa, pop, rica e glam fez com que Greta Garbo perdesse o rebolado [fui chula agora, dou a mão à palmatória]. Guardadas as proporções, abri vagarosamente o portão de casa pensando que dá pra se sentir assim às vezes: com um baita medo do palquinho, ou querendo deixar o chuveiro da vida sempre na estação morna pra não arriscar todas as fichas e tombar de vez, tombar geral.

Mais que tudo, o cair daquela tarde me lembrou que uma infinidade de heróis e de ilustres desconhecidos já sangraram, ou se deixaram apagar quando suas fogueiras incandesceram, de fato. E ali perto, me jogando de corpo todo na poltrona, eu fiquei imaginando o que vou fazer da vida se um dia deixar de ser um simples fósforo e pegar rabeira num fogareiro.