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sexta-feira, abril 30, 2010

Devassa, eu?

Por Karina Lima
“Menina doida, criatura desvairada... vai ficar falada entre os vizinhos!” – é muito provável que você e eu já tenhamos ouvido essa frase e suas variantes por uma [ou uma penca] de vezes, com mamães e titias como possíveis narradoras. Fato: desde que uma menina se entende como gente, por mais distinta que seja, ela precisa aprender uma lição: a se ‘dar ao respeito’ na condição de mulher.

Mulher precisa ter compostura, tomar litros de tenência e ingerir bom juízo em doses cavalares. É assim nesse país em que a gente vive. Nesse lugar de tanta pompa e circunstância, mulheres não viram frutas voluptuosas, não rebolam ao som de não-músicas, nunca são chamadas de cachorras-bandidas-safadas pra todo mundo ver, nem tampouco são alvo de escândalos envolvendo vestidos pinks e universidades particulares. Não são potrancas, nem popozudas: são donzelas!

Nessa nossa terra, a indústria da dramaturgia é quase como a dos contos de fadas: as novelas são puras, alegres e saltitantes. Atores e atrizes não se ‘engolem’ no ar, eles só seguram nas mãos uns dos outros, e dão beijinhos estalados, aqueles que Xuxa nos mandava na infância. É, é essa Disneilândia toda. Reality shows, então... esses são ícones do bom-mocismo: tricô, críquete, bingo, bolinhos de chuva, Tang de Cajá-Manga, brincar de barra-manteiga.

Aos domingos, a TV aberta nunca veicula ensaios fotográficos femininos, faz melhor: faz provas da banheira! Sabão, homens, mulheres e sabonetes – aqui, o exercício é de cooperação e higiene, uma vez que banhos são excelentes hábitos para a saúde do corpo e da mente. Se você é dessas pervertidas que se insinuam, seduzem e que sensualizam por aí... pegue o primeiro avião pra outra vizinhança, porque você não orna e nem tem vez nessas bandas, em definitivo!

Uma prova concreta e real disso, eu vi na televisão no mês passado: o Conar, em nome da [boa?] regulamentação publicitária, vetou um comercial de cerveja com aquela acéfal..oops, socialite, a Paris Hilton. Luzes, câmera e ação, vou descrever a cena: uma jovem magérrima, linda e com cara de nojinho pro terceiro mundo faz poses sensuais e lança olhares lânguidos enquanto mostra as pernocas na sacada de um apartamento – situo que estamos na orla marítima carioca, senhores. Na mão, ela porta uma cerveja, e no corpitcho está um vestido tubinho bem justo.
Além de uma loira, um pouco de cevada e dois membros inferiores à mostra, há uma trilha de fundo, canção essa de Elmer Bernstein, super envolvente e imortalizada no filme “O Homem do Braço de Ouro” – para muita gente, é um hino para cenas de strip-tease. Nesse clima, Paris é clicada por um voyeur, que mais presta atenção na cerveja do que nela própria – vergonha pra nação, hein? Sem-vergonhice, meu povo – nesse instante, estou teclando de olhos fechados, até...

Para salvar o dia aqui na nossa Terra do Nunca, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, ligada à Presidência da República, considerou essa campanha desrespeitosa, indecorosa, sexista, ordinária, terrível e vil... e fez muitíssimo bem, não? Não!

As queixas feitas geraram processos que visavam defender a nós, pobres mulheres indefesas que atravessamos bosques obscuros por aí, todos os dias. Eu deveria dizer a eles... devassos! Esses produtores-monstros usam as modelos como objetos sexuais, apelam até o infinito, ferem olhos e ouvidos de uma população de bem. Da ofensa ao veto. Do constrangimento à denúncia.

Ah, vá.
Pataquada descomunal.

Para essa corja de desocupados, ousaria pedir um singelo favor: alguém pode ir ali, pra ver se eu estou na esquina? Ah, antes de ir, queria que esse alguém viesse aqui brindar comigo: dar um viva à nova era, de plena liberdade de expressão. Viva a modernidade, a sinceridade, a coerência dos valores. Ah, em tempo: viva o mundo da Poliana!

Relembre o 'indecente' comercial da Devassa clicando aqui.