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sexta-feira, maio 06, 2011

Sexo antes, comer depois

Por Silvia Pilz
A mulher desconhece o cara, o cara desconhece a mulher. Ele se interessa por ela e ela por ele. A grande maioria dos homens acaba convidando a mulher pra jantar. Faz parte do roteiro, do cerimonioso ritual que antecede o coito. Antes de chegar ao primeiro cenário [o restaurante] a mulher pensa na calcinha, se depila, passa horas escolhendo a roupa que vai vestir e tirar e vestir de novo, conversa com as amigas, escolhe o sapato alto, o perfume, faz as contas pra ter certeza de que não está ovulando naquele período [porque sabe que não vai usar camisinha] e vai.

O casal senta no restaurante. Normalmente, conversam sobre seus grandes e pequenos feitos e defeitos. A mulher inevitavelmente mexe as mãos, mexe nos cabelos e cruza e descruza as pernas algumas vezes. Enquanto isso, escolhem um prato e um vinho, que além de acompanhar o prato e realçar sabores, deixa o casal mais relaxado. Tenho aversão ao papo dos bebedores de vinho. Nada é mais brochante que um quase sommelier. E, eles se multiplicaram nos últimos anos. Me lembro do Renato Machado no programa do Claude Troisgros, estudando os vinhos que combinavam com os pratos e das histórias chatíssimas que ele gentilmente contava.

Eu corro dos caras que valorizam o vinhozinho e o consideram afrodisíaco. Eles me lembram filmes ruins, onde o vinho parece ser o único descontraído da cena. Eles me lembram as mulheres assustadoras daquele filme de terror, o Sex and the City I ou II.

Também me parece assustadora a idéia de ir pra cama com um cara sem antes ver os pés dele. Sendo assim, meu primeiro encontro perfeito [dos sonhos] seria regado a água mineral ou Steinhaeger, num ambiente em que as pessoas fossem obrigadas a usar Havaianas ou andar descalças. Num lugar descontraído, iluminado pela luz do dia. Sem maquiagem, sem talheres, sem script e talvez até com a cara borrada de protetor solar.

Me perdi no meu primeiro encontro perfeito. Esqueci o casal sensacional na mesa do restaurante. Bom, o prato chega e sem o menor constrangimento, ambos começam a mastigar e falar sobre o que mastigam. Por incrível que pareça, isso é considerado apropriado e romântico. A mastigação é uma coisa íntima demais e apesar de praticá-la em público, quase todos os dias, eu me controlo pra não sorrir depois de um almoço antes de escovar os dentes. Num jantar romântico, um micro pedaço de salsinha entre os dentes pode arruinar a noite. Enfim, depois de triturarem alimentos juntos, com os dentes ainda preenchidos por pedacinhos do que comeram, vão fazer o que fariam melhor de barriga vazia, com muita fome e sede de saliva: Sexo. Sem dúvida, uma inversão de valores.

>> A @SilviaPilz é do Rio de Janeiro. Na Playboy, escreve o blog ‘Sem Vergonha’, e também mantém textos em um site próprio que leva seu nome.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Sexo

Por Stella Benevides
Eu não compro revistas femininas. Aliás, odeio. Quando muito, folheio alguma na sala de espera do dentista. Ou passo os olhos pelas capas, na fila do supermercado. È fácil notar uma coisa em comum nas capas: em todas, sem exceção – repare! – há uma palavra, quase sempre em destaque: SEXO. Sim, porque quem faz essas revistas – assim como quem produz um volume imenso de literatura vagabunda e a maior parte dos programas vespertinos retardados de TV – ganha muita grana tentando convencer as mulheres de uma coisa: que transformar-se em eficientes engrenagens de fazer sexo é a melhor – e talvez a única – forma de ser feliz e, em muitos casos, de conquistar e segurar um macho.

Oh, Deus!
E isso vem desde cedo!

Olha lá aquela dona que fala sobre sexo pra adolescentes naquele programa de sábado à noite. Ela fala de tudo e pra ela tudo é bacana. Pode por cima, por baixo, pela frente e por trás. Na cama, na cozinha e em cima da árvore. Ela fala quanto tempo deve durar, quantas vezes se deve gozar e quanto devem medir os bingolins dos meninos. Pode menina com menina, menino com menino e, se der vontade, todo mundo com todo mundo. Desde que – claro – se use camisinha (porque ela não termina uma frase sem pronunciar essa palavra).

A moça só se esquece de mencionar uma coisa. É uma coisa que eu sei e ela sabe. E que muita gente sabe também, mas tem vergonha de dizer, porque não pega bem. Ela se esquece de dizer que esse sexo todo livre, todo permissivo, todo século 21, não é nada fabuloso, emocionante ou extasiante. Não, não é. Essa “coisa” pela qual ela ganha uma grana pra comentar é uma MERDA.

- Como assim, Stellinha?
Calma que eu vou explicar.
Ou vou tentar.

Não acho que hoje, com essa liberdade e esse blábláblá todo, se faça MAIS sexo do que antigamente. Não mesmo. E tenho minhas razões pra achar, se é que me entendem. Acho que hoje se faz é muito sexo ruim, mecânico, protocolar, sem paixão. Muita mulher pagando de bem resolvida que não passam de umas frustradas carentes. Muito papo furado e muita vaidade. Muito teatro, muito personagem. Muita mulher exibida, muita bichinha narcisista, muito garotão bombado que enche o rabo de álcool pra conseguir achar alguma graça em algo, arrastar uma perdidinha pra cama e dar uma trepadinha mais ou menos – mas que ele dirá aos amigos que foi um espetáculo. Muita gente meia-bomba. E muita mulher sozinha.
Perdeu-se o mistério que envolvia a coisa toda.
A começar pelos meninos.

Bom, os homens sempre foram os desbravadores em tudo, né? Basta dar uma olhadela na historia da humanidade e constatar. E eu não concordo muito com o coro que afirma que foi a sociedade que impôs os papéis a homens e mulheres. Acho que antes da sociedade, foi a natureza. Lá nos primórdios os homens caçavam e as mulheres cuidavam da caverna. A sociedade veio MUITO depois disso. Agora os papéis todos se embaralharam e ninguém sabe quem é quem.

Garotinhos de 9 anos acham normalíssimo ver menininhas de 7 requebrando as bundinhas magrelas nos Rebolations e Boquinhas das Garrafas de festinhas familiares, num ato que elas entendem antes como exercício de “poder” e só depois como de “sensualidade”. Mas já vão treinando, desde pequenininhas, a arte de serem umas coisas facinhas.

Homens que viveram suas juventudes há apenas algumas décadas relatam que dificuldade era conseguir ver uma mísera mulher nua, mesmo que fosse numa revista! Hoje em dia, pivetes de 10 anos olham tudo na tal da internet e – assim que podem – saem por aí, com seus pintinhos a meia bomba, metidos em camisinhas frouxas, tratando a coisa como se fosse um vídeo game. E acham estranho – é, porque pela internet não tem cheiro, nem gosto, nem pêlos, nem suor, nem cansaço, nem dor nas costas. E como também não tem mistério, não tem a dificuldade, o imprevisto, a conquista, não demora nada pra que muitos deles concluam que – quem sabe – o vídeo game talvez seja um brinquedo mais estimulante.

Se a história toda sobre “igualdade”, que resultou nisso, é boa ou ruim eu não sei e nem é sobre isso que estou falando. Só estou falando que castraram-se os homens modernos de algo que lhes era imprescindível: o gosto pela conquista. E aí ficaram preguiçosos.

E as mulheres?
Ah, as mulheres ... Mulheres se arrumando para si mesmas e para outras mulheres, circulando pelos lugares, plenas e poderosas, com seus peitões de silicone e suas pós-graduações no exterior, se julgando interessantíssimas – mas que não interessam verdadeiramente a ninguém. E que terminam boa parte de suas noites sozinhas em casa, se entupindo de sorvete, reclamando do mundo e esperando por algo que nunca vai acontecer.

Mulheres falastronas que, com amigas, como fossem uns machos invertidos, contam vantagens de suas vidas amorosas. Só que, ao contrário deles, que sempre se gabaram de quantas presas abateram, adoram falar de quantos homenzinhos burros, feios ou de cantada ruim, desprezaram. Mas se esquecem de falar do medo da solidão, que vai aumentando a cada mês, a cada ano, a cada celulite, a cada ruga, a cada fio de cabelo branco.


- Ah, Stellinha! É que os homens de hoje em dia têm medo das mulheres independentes, sabe?
Ai, que puta besteira! Papo de consolar mulher encalhada!

Medo? Pode até ser que aconteça com um ou outro, mas, na maioria das vezes – acreditem – os homens não sentem “medo” das mulheres. Sentem outra coisa: sentem TÉDIO. Porque as mulheres, que há tempos atrás significavam para eles algo análogo ao que uma terra desconhecida significa a um desbravador, agora tornaram-se essas coisinhas fáceis desde novinhas, desfrutáveis, baratinhas e principalmente meio padronizadas pelas ditaduras de comportamento. Conheceu meia dúzia, conheceu todas.


Eu sei, eu sei: os homens, por razões parecidas, também ficaram desinteressantes. Mas aí é que está o X da questão: depois de uns bons anos de praia, rodando de mão em mão e de cama em cama, ao notar que nada há de tão excitante nessa “liberdade” toda, enquanto os homens se entediam, as mulheres se desesperam. Porque é a velha natureza – aquela, de muito antes de “a sociedade ter ditado papéis” – que grita. Mulher quer prole pra lamber, quer caverna pra cuidar. Né?

- Então como é que faz, Stellinha? Já cansei de tanta balada, tanta micareta, tanto peguete... Agora eu quero sossegar. Como faz?
Aaah, minha filha! E eu é que sei? Se eu soubesse a fórmula disso, engarrafaria e ficaria milionária. Vocês estudam tanto, dominam todas as tecnologias, inventam cada coisa. Criem uma máquina do tempo e vão perguntar isso pras suas ancestrais. Porque eu não sei de nada. Eu estou aqui só olhando, manejando a única máquina que domino, que é uma máquina de escrever, quieta aqui com meu uísque, meu cigarro e minhas memórias. Que são muitas e de outros tempos, graças a Deus.

A única coisa que sei dizer é que a tolice que atende por “sexo livre” é, para todos – mas MUITO mais para as mulheres – uma prisão.

Não era o que vocês queriam?
Bem feito.