Por Stella Benevides

Felizmente o tal do partido político que tentou me convencer a ser candidata a alguma coisa, em alguma eleição, parece ter desistido dessa idéia cretina. Pelo menos não me procuraram mais. Devem ter se esquecido de mim. Ou a coisa não era séria. Vai ver me acharam uma pessoa tão “diferente”, tão estranha, que só me queriam para provocar um alvoroço. Um “factóide”, algo que chamasse a atenção de jornalistas, sei lá.
Essa gente de política sabe como ninguém do que o jornalismo atual se alimenta: de qualquer coisa que chame muito a atenção durante algum tempo e que, depois, seja rapidamente esquecida. E eles decidem, lá entre eles, não sei exatamente de que forma, qual será a pauta de todos os jornais, de rádio, de TV e de papel, por um determinado período. Eles decidem o que o povo vai ler, ouvir, assistir, durante o tempo que eles programarem. Eles decidem no que as pessoas vão pensar.
Semana passada, como todo mundo sabe, eles decidiram.
Sei que estava eu, sexta-feira passada, saindo pra cuidar da minha vida, quando cruzei com três velhotas aqui do bairro, que eu conheço de vista e dos bingos, do tempo em que eles existiam e eram uma boa alternativa pra gente inútil gastar seu tempo. Carregavam cestas térmicas e cadeiras de praia. Estavam esperando um taxi.
- Vem com a gente, Stellinha!
Ir com vocês pra onde, criaturas? Pra um pique-nique na praia? Em plena sexta-feira?
- Estamos indo pro Fórum. Hoje sai o resultado do julgamento. Vamos fazer vigília o dia inteiro.
E aí, uma delas desenrolou e mostrou, toda orgulhosa, uma cartolina com fotos da menina que morreu e escrito “justiça” com canetinha colorida.
Eu tive vontade de dizer algumas coisas a elas. De fazer um discurso ali, no meio da rua. Mas só consegui ficar olhando, muda, pra cara das velhas vadias, de um jeito que fez com que elas notassem que eu estava recusando o gentil convite. Graças ao bom Deus, o táxi chegou logo em seguida e elas sumiram da minha frente.
Olha, eu não sei quem é mais filho-da-puta, quem é mais urubu: se são os jornalistas que fazem espetáculo de uma coisa assim, tão triste, ou se são essas pessoas que embarcam na onda e passam a achar que têm alguma coisa a ver com o assunto.
Eu sei que os chefes de redação de praticamente todos os veículos da tal da “mídia”, devem fazer, todas as noites, antes de dormir, uma prece:
Essa gente de política sabe como ninguém do que o jornalismo atual se alimenta: de qualquer coisa que chame muito a atenção durante algum tempo e que, depois, seja rapidamente esquecida. E eles decidem, lá entre eles, não sei exatamente de que forma, qual será a pauta de todos os jornais, de rádio, de TV e de papel, por um determinado período. Eles decidem o que o povo vai ler, ouvir, assistir, durante o tempo que eles programarem. Eles decidem no que as pessoas vão pensar.
Semana passada, como todo mundo sabe, eles decidiram.
Sei que estava eu, sexta-feira passada, saindo pra cuidar da minha vida, quando cruzei com três velhotas aqui do bairro, que eu conheço de vista e dos bingos, do tempo em que eles existiam e eram uma boa alternativa pra gente inútil gastar seu tempo. Carregavam cestas térmicas e cadeiras de praia. Estavam esperando um taxi.
- Vem com a gente, Stellinha!
Ir com vocês pra onde, criaturas? Pra um pique-nique na praia? Em plena sexta-feira?
- Estamos indo pro Fórum. Hoje sai o resultado do julgamento. Vamos fazer vigília o dia inteiro.
E aí, uma delas desenrolou e mostrou, toda orgulhosa, uma cartolina com fotos da menina que morreu e escrito “justiça” com canetinha colorida.
Eu tive vontade de dizer algumas coisas a elas. De fazer um discurso ali, no meio da rua. Mas só consegui ficar olhando, muda, pra cara das velhas vadias, de um jeito que fez com que elas notassem que eu estava recusando o gentil convite. Graças ao bom Deus, o táxi chegou logo em seguida e elas sumiram da minha frente.
Olha, eu não sei quem é mais filho-da-puta, quem é mais urubu: se são os jornalistas que fazem espetáculo de uma coisa assim, tão triste, ou se são essas pessoas que embarcam na onda e passam a achar que têm alguma coisa a ver com o assunto.
Eu sei que os chefes de redação de praticamente todos os veículos da tal da “mídia”, devem fazer, todas as noites, antes de dormir, uma prece:
“Querido Deus. Por favor, faça com que amanhã aconteça pelo menos uma coisa bem trágica, com que haja pelo menos uma notícia bem sórdida. Pra gente poder explorar à exaustão e garantir a audiência e os patrocinadores. Não faz mal se alguém morrer. Aliás, se alguém morrer é melhor. Desde que não seja morte de gente pobre, claro. Muito obrigado. Amém.”
E aí, durante todo aquele dia, os programas vespertinos imbecis falaram do assunto sem parar, com seus “âncoras” de terno gritando do estúdio, com seus repórteres com cara de assustados entrevistando qualquer idiota, com helicópteros sobrevoando o fórum.
Alguns jornalistas, cínicos, manifestaram uma “enorme surpresa” pela multidão em clima de Copa do Mundo, se aglomerando no local. Como se eles não soubessem que eles mesmos tinham provocado aquilo e como se não soubessem que sempre haverá gente imbecil o suficiente para causar aquele espetáculo grotesco. Gente que, quando em bando – e apenas quando em bando – se acha no direito de exigir justiça, seja lá o que isso queira dizer pra eles. Se pudessem, desde que – claro – em bando, fariam eles mesmos justiça, promoveriam um linchamento ali, no meio da rua. E voltariam alegres e satisfeitos às suas vidinhas idiotas logo em seguida.
Lá pelo meio da noite, então, sai a sentença que todo mundo já sabia qual ia ser. Pronto! Gritos. Aplausos. Comemoração! Heim? Comemorar o que? Gente rindo, gente pulando, gente se abraçando. Foi gol de quem? Que merda é essa? Gente soltando rojão! O que é isso?? Repórteres meio despenteados falando de lá, com um bando de gente morrendo de rir atrás, querendo aparecer na TV, feito uns papagaios de pirata. Que nojo, que horror! Ih, olha lá, as três velhotas do meu bairro, pulando atrás do repórter, sacudindo as banhas e o cartaz todo amassado, rindo feito umas palermas!
Chega. Parei. Desliguei a TV antes de ter vontade de vomitar.
Uma imprensa feita por gente leviana e um povinho de miolo mole, dá nisso.
Se houvesse um tiquinho de bom senso, esse caso todo deveria ter sido tratado com muito mais respeito, quase em segredo. Porque não é do interesse de ninguém, além dos envolvidos e das autoridades.
EU não tenho nada com isso!
E você, acha que tem?
Ninguém tem NADA com isso.
Será que esses corvos de microfone na mão jamais pararam pra pensar que estavam contribuindo pra arrasar duas famílias, gente que não cometeu crime nenhum? E eu não falo só de pai e mãe, não. Imaginem vocês o que deve estar significando pra alguém, ter o mesmo sobrenome dessas pessoas? Sim, imaginem um tio, um primo. Sei lá, um parente deles que carregue o mesmo sobrenome, o constrangimento essa pessoa está passando? E os filhos deles, que têm os DOIS sobrenomes, como vai ser a vida dessas crianças?
Ah, mas esses carniceiros não ligam pra isso, não. Vão continuar rezando por umas tragédias sanguinolentas, que garantam os índices de audiência e os patrocínios. E as velhotas inúteis do meu bairro, que devem ter se divertido muito com seu pique-nique na frente do Fórum, vão continuar atentas, a espera do próximo programinha vespertino.
Esse mundo está se tornando um lugar muito estranho. Às vezes eu tenho vontade de ser cega, surda, muda e de desligar meu cérebro, só pra não ter que tomar conhecimento de certas coisas e não me revoltar com elas.
Na próxima encarnação, eu vou pedir pra ser um pé de couve. Uma jabuticabeira. Ou uma samambaia, talvez.
O mundo deve ser mais agradável para uma samambaia.

