Se vocês acharam que eu ia perder meu tempo falando sobre meninos esquisitinhos de hoje em dia que ficam FURIOSOS quando vêem uma menina de vestido curto, se enganaram. Eu não tenho estômago pra isso. Nem EU tenho!
Se acharam que eu daria continuidade às “lições” daquele último textinho despretensioso, chamado “O amor segundo Stella”, se enganaram também. E olha que, segundo me disseram as meninas, aquilo serviu de sessão de terapia pra várias pessoas! Elas me disseram, eu achei engraçado. Disseram também que, após lerem meu textinho, ficaram em pânico com medo da “reação” dos leitores – e discutiram longamente, durante dias, se deveriam ou não publicar! Elas me contaram, eu achei engraçado. Mas não estou com paciência essa semana pra bancar a terapeuta.
Sei que elas já estavam ligando pra me infernizar:
- Tem que entregar o texto até sexta-feira, Stellinha! Não esquece!!
Até hoje eu não sei como e porque vim parar nesse tal de “blog”. Mas resolvi que tiraria a noite de terça-feira para escrever. E que escreveria sobre um assunto bem sério! Sentei-me em frente à Remington, uisquinho de um lado, cinzeirinho do outro. Pedi que meus guias me enviassem bastante inspiração, respirei fundo, coloquei os dedos no teclado e ... BUM! Apagou a luz!
- PUTA QUE PARIU!
Apagou a luz no mundo! Durante um tempo ouviu-se algazarra, buzinas, gente falando e gritaria dos travestis lá do outro lado da avenida. Depois, fez-se um silêncio sepulcral. Só um ou outro carro, passando de vez em quando. Escrever à luz de velas, nem pensar! O assunto sério, eu esqueci. Restou o uísque e o cigarro. E o silêncio.
E passar a madrugada conversando com minha querida felina-filha.
Eu sei que alguns podem me achar uma velha doida, mas quem conhece gatos sabe o quanto é possível conversar com eles, às vezes só pelo olhar. Porque quando um gato te olha, ele vê “além”. E cabe a você também enxergar e ouvir “além”, se você quiser mesmo conversar com ele.
Um dia eu falo mais sobre isso.
Hoje eu só vou contar que ficamos conversando, ela e eu, sobre quando e como nos encontramos. Lembramos que ela estava escondida num buraco de muro, magrinha e suja, e que de lá não saía por nada. Durante dias eu passava por lá, lhe deixava algo para comer, mas nada dela sair, nada de querer vir pra casa comigo. Guardava o buraco como quem protege um tesouro. Só uma semana depois, conquistando um pouquinho sua confiança e com muito cuidado, eu descobri seu segredo. Eu já desconfiava. Ela tinha um bebê. Só um. Mas estava mortinho o filhinho dela. Estava mortinho já há uns dias. Durinho, sequinho já. Mas ela não queria sair de lá. Ela não queria sair de lá sem ele.
Não tive outra solução a não ser levá-la pra casa numa caixa de papelão, junto com o bebê morto. E foi com muita paciência que eu consegui, pouco a pouco, separá-la dele. E enterrei o pequeno no fundo do vazo grande de antúrios da área de serviço. Numa plaquinha de madeira escrevi “Stuart”. E desde então ela mora comigo, com o nome que eu já sabia que lhe daria: Zuzu.
Se você conhece u
m pouco da história recente deste país, sabe do que e de quem eu estou falando. Se não sabe, vou te contar que a Zuleika Angel Jones (foto) foi uma estilista de muito sucesso e que vestiu até peruas americanas e estrelas de Hollywood. Mas não foi por isso que ela entrou pra história. Quando eu a conheci, há mais de 30 anos, ela andava por aí, dizendo a quem quisesse ouvir, com coragem de leoa, que os militares tinham seqüestrado e matado o filho dela. Ela sabia até onde e quando. Ela sabia até de que forma o tinham matado, sufocado pelo escapamento de um jipe, arrastado pelo pátio de um quartel. Sabia até quem o havia matado. Ela só queria os autores responsabilizados. E ela queria o corpo, ela queria enterrar Stuart.Ela não sabia nada de política. Ela não queria nada com política. Ela mal entendia porque razões o menino dela tinha se envolvido naquilo. Ela só sabia ser mãe. E fez um barulho tremendo por aí, por muito tempo, na sua busca. Isso, naquela época em que muitas notícias de jornal eram substituídas por versos de Os Lusíadas ou por receitas de bolo.
Um dia, ela endereçou uma carta a um amigo dela, um moço bonito de olhos verdes, chamado Chico Buarque. Na carta, ela dizia que, caso ela aparecesse morta, teria sido obra dos mesmos assassinos de seu filho. Pouco tempo depois, quando ela despencou numa ribanceira com seu Kharman Guia azul, na saída do Túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, Chico, com a ajuda de outros amigos, fez sessenta cópias da carta, em máquinas de escrever diferentes, que depois foram jogadas fora para não deixar pistas. E despachou para jornalistas, de diferentes agências de correio. Não saiu nem uma linha, em nenhum jornal.
Só muitos anos mais tarde, a história verdadeira veio à tona. Ela foi assassinada. O corpo de Stuart jamais foi encontrado. E o Túnel Dois Irmãos, no Rio, foi rebatizado para “Túnel Zuzu Angel”.
O Chico fez uma canção linda, chamada “Angélica”, que fala de uma mãe que quer ninar seu filho, mas que ele mora na escuridão do mar. Porque era assim que os milicos se livravam dos cadáveres. Numa outra canção, chamada “Cálice”, ele incluiu um verso em que diz “quero cheirar fumaça de óleo diesel”. Quase ninguém entendeu, mas ele estava falando do Stuart, intoxicado até a morte.
A minha Zuzu-felina também não entende nada de política. Ela só entende de ser mãe. E, nesse nosso papo silencioso na noite do apagão, me disse que sente saudade do bebê dela. Mas disse também que agora ela entende o que aconteceu.
E você, jovenzinho que lê esses tais de blogs, que acha que ditadura é coisa do passado e lembrança de velho, olhe em volta e pense um pouco. Eu sei que às vezes dói, mas tente, você consegue! Pense em como seu comportamento, seus gostos e seus hábitos são “modelados” sem que você se dê conta. Pense em quantas regras idiotas você é convencido a respeitar. Quantas “verdades verdadeiras” você engole sem discutir. Pense nuns moleques – e molecas! – imbecis que, em bando, partem pra cima de uma menina, supostamente ofendidos por um vestido curto.
Pense.
Os monstros mudam de cara.
Apenas de cara.
Esse vídeo carrega um pouco de tudo: a comovente canção do Chico, imagens reais de Zuzu Angel e cenas do filme de Sérgio Resende ("Zuzu Angel", 2006). Stella quer muito que você o veja!

