Por Stella Benevides
Houve um tempo – e para quem tem minha idade parece bem pouco tempo – em que era proibido ter opinião. E isso acontecia aqui. É, aqui mesmo, nesse mesmo Brasil. Acontecia também, e ao mesmo tempo, em todos os países vizinhos. Mas, pra não complicar muito, vamos ficar só por aqui, na mãe gentil, pátria amada, Brasil.
Funcionava assim: havia o governo e ninguém podia ser contra. Quem era contra e cometia o absurdo de dizer isso em público, corria o risco de ser preso e levar muita porrada. Teve gente até, que de tanta porrada que levou, desintegrou, sumiu e nunca mais voltou pra casa.
Funcionava assim: havia o governo e ninguém podia ser contra. Quem era contra e cometia o absurdo de dizer isso em público, corria o risco de ser preso e levar muita porrada. Teve gente até, que de tanta porrada que levou, desintegrou, sumiu e nunca mais voltou pra casa.
E quem era contra o governo, mesmo que fosse contra bem caladinho, escondido dentro de casa, não estava livre de ser considerado um inimigo do Brasil. É, porque se a pessoa tivesse em casa, por exemplo, determinados livros que fossem considerados “subversivos”, e se algum x-9 denunciasse, os homens do governo podiam invadir a casa do infeliz e levá-lo pra interrogatório e pra porrada. O governo era tão bravo que não permitia que as pessoas sequer pensassem contra ele!
E música então? Nossa! Naquele tempo havia uns compositores que tinham a cara-de-pau de fazer músicas falando mal do governo! E uns, mais malandros ainda, que disfarçavam falando através de metáforas. Aí, quando as pessoas do governo percebiam, censuravam, proibiam, recolhiam os discos, não deixavam ninguém ouvir. E, se precisassem, também recolhiam o caboclo autor da música e sumiam com ele por uns tempos.
E políticos de oposição que tinham a coragem de criticar o governo? Ih, coitados! Esses, quando tinham sorte, apenas perdiam os mandatos. Eram cassados. Outros eram caçados mesmo. Alguns também sumiram para sempre.
Criaram até um slogan: Brasil, ame-o ou deixe-o!
É, porque era assim que a banda tocava: você tinha que concordar, era obrigatório. E ai de quem não aceitasse!
Então. Ainda bem que esse tempo passou. Hoje é tudo diferente. Que bacana. Hoje todo mundo pode pensar o que quiser. E tem toda liberdade pra expressar o que pensa. Democracia, né? Óh, que bacana! Como somos felizes. Viva, viva!
Mas esses dias aconteceu uma coisa pitoresca. Um grupo de teatro foi apresentar uma peça no Piauí. E um ator, de quem eu nunca tinha ouvido falar, escreveu uma gracinha na tal da internet: lembrando uma música muito antiga do Juca Chaves, disse, em outras palavras, que o Piauí é o cu do mundo.
Nossa! Foi um escarcéu! Alguns piauienses ficaram possessos e começaram a protestar. Logo, outros piauienses muito bravos aderiram à indignação e começaram a xingar o tal ator. Não demorou nada pra um político espertalhão perceber que o movimento era uma boa chance pra se promover e propôs que o tal grupo de teatro fosse proibido de se apresentar no Piauí!
Óia! Mas esse negócio de proibir quem fala mal não tinha acabado? Pois é, também estranhei.
Eu nunca fui ao Piauí, mas estou certa de que o povo de lá tem todos os motivos do mundo pra se orgulhar do estado que, afinal, é praticamente a locomotiva do Brasil, como provam todos os dados disponibilizados pelo IBGE: saúde pública e educação, por exemplo, primam pela excelência! Também tenho certeza de que os piauienses não têm nada mais pelo que protestar, porque seus honestíssimos e competentes políticos jamais dão uma bola fora, sempre trabalhando incansavelmente pelo bem comum. Né?
Pois é. Mas achei estranha essa gritaria ufanista. Proibir? Como assim?? Não seria muito mais sensato simplesmente – e democraticamente – boicotar a tal da peça? Simples: era só ninguém ir, pronto!
Nem sei como acabou o caso. Nem sei se a peça aconteceu ou não. Mas achei essa história muito esquisitinha. Tudo por causa de uma brincadeira idiota. Provavelmente vão lançar em breve o slogan “Piauí, ame-o ou deixe-o!”. E aí o Juca Chaves e o tal ator fanfarrão estarão exilados e jamais poderão pisar em terras piauienses. Coitados. Devem estar arrasados.
Mas caso pior foi todo o bafafá sobre as declarações do deputado-milico, naquele programa de TV onde uns humoristas de segunda categoria acham que fazem jornalismo. O curioso é que ele não falou nada de novo, nada que já não ande falando por aí há séculos. Curiosa é a reação das pessoas de miolo mole. Gente que não nota que está reagindo exatamente da maneira que quem montou aquele circo esperava que reagissem! Gente que se comporta como gado.
Também não posso acreditar que o deputado caiu numa armadilha e que, coitadinho, acabou massacrado pela tal da “opinião pública”. Ele é um pilantrão, sabia o que iria acontecer e está morrendo de rir com a promoção que está tendo.
Nem vou entrar no mérito da questão. Vocês já sabem o que eu penso sobre isso. Faz mas de um ano, escrevi “Vespeiro” aqui no Mulherices. Vai lá e lê, se você quiser.
O que me deixa estarrecida é a legião de gente por aí pedindo punição para o sujeito. Exigindo sua cassação. Gritando “fora fulano”. Pedindo cadeia.
Heim? Heim?
Calma aí! Eu já vi esse filme!
Quem agia assim era a ditadura militar. Pensou diferente? Prende, cassa, expurga, some com o cara! Cala a boca dele, não deixa ele falar. Se possível, não deixa ele pensar!
Onde é que nós estamos?
Em que tempo estamos vivendo?
Acho muito curioso que justamente aqueles que passaram tanto tempo se colocando no papel de “vítimas”, agora estejam se tornando agressores. Não querem mais conquistar direitos: querem vingança!
“Gay”, palavra que originalmente era sinônimo de alegria e que remetia a uma idéia de transgressão e rebeldia, agora se tornou outra coisa. Viraram um povo chato, ranheta, ranzinza, uns raivosinhos sem nenhuma graça, mais parecendo uns fundamentalistas que querem fazer os outros engolirem à força a idéia de que eles são uma espécie de super-humanos ou de super-cidadãos. Sempre prontos a te esfregarem os “direitos” deles na sua cara e a falarem sobre uma tal “lei”.
Lei, aliás, que nem existe.
Imagina o que vai acontecer nesse país se ela um dia existir?
Claro que os donos do circo e dos holofotes é que comandam o espetáculo, enquanto uma imensa manada de bobos apenas faz o que deles se espera, mugindo feito gado.
Querem ser aceitos à força? Querem ser amados pela via legal? Vocês realmente acham que isso pode dar certo? Debaixo desse arco-íris vamos acabar conduzidos para um tempo de trevas de fazer inveja às piores ditaduras.
Para os patrulheirinhos de plantão, um aviso da tia Stella.
Pensem dez vezes antes de saírem por aí colando rótulos nas testas das pessoas e antes de xingarem os outros a torto e a direito de “racista”, “homofóbico” ou sei lá mais o quê. Porque enquanto tem gente muito poderosa fazendo vocês de massa de manobra, eu vou te dizer de um crime que já existe: é o crime de injúria. E a hora em que gente séria se sentir ofendida e começar a processar vocês, de onde é que vocês vão tirar grana pra pagar indenizações?
O aviso é pra vocês pensarem bem em que tipo de coisa, em que tipo de “movimento” estão se metendo.
E isso vale pra você, se você for um piauiense rabugento, mal humorado e orgulhoso ou se for um militante-ativista-raivosinho do movimento GLTBWXYZ² e, tanto em um caso quanto em outro, resolveu um belo dia que deveria usar o cu como bandeira.
(*) A figura no alto da postagem é de uma formação rochosa no Parque das Sete Cidades, no Piauí. Dona Stella Benevides disse que nada ilustraria melhor o texto...
(*) A figura no alto da postagem é de uma formação rochosa no Parque das Sete Cidades, no Piauí. Dona Stella Benevides disse que nada ilustraria melhor o texto...


