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sexta-feira, julho 16, 2010

Elizas...

[Se quiserem me apedrejar – leiam até o fim]
Por Lilian Buzzetto

Sexo, violência, adultério, dinheiro. Um corpo desaparecido, investigação de filme americano, delegados altamente maquilados, assassino famoso e um bebê. Lá vem o caso Eliza para entreter, digo... revoltar o país. E a urubuzada da mídia transmitindo – quase em tempo real – todos os desdobramentos para seus urubuzinhos filhotes, digo... chocados telespectadores.

O país clama por justiça para mais uma tragédia da classe média, em um coro uníssono, porque – como num espetáculo de teatro – todos têm um texto pronto e o papel do público é unicamente se horrorizar e praguejar contra os assassinos. Particularmente, guardo minha compaixão para corpos que não pertencem ao rol dos exaustivamente procurados, para os que não tiveram uma vida “importante” e não terão justiça post-mortem. Das Elizas, Mércias e Isabellas da classe média, o Brasil inteiro já morre de dó. E suas famílias não precisam de discursos de apoio. Eu acho.

Falar da postura de vítimas é quase como mencionar corda em casa de enforcado*. É erroneamente visto como uma tentativa de justificar a violência ou exonerar os culpados. Preferimos tapar os olhos e beatificar aqueles que têm um injusto destino trágico.

Mas a história dessa vítima nos ensina e relembra de algo tão óbvio e importante: a humanidade não é uma raça completamente evoluída, composta de anjos de luz. O mundo continua cheio de filhos-da-puta apegados ao dinheiro e precisamos de cuidado com nossas atitudes para tentar não engrossar alguma estatística macabra.

Ainda assim, quantas vezes não escutamos que trouxas somos nós e que esperta é a moça que engravidou do cara certo? Tenho verdadeiro pânico dessa concepção de esperteza: golpe da barriga, golpe do seguro, golpe do baú, golpe, golpe, golpe. Está oficialmente instituída – e há tempos – a cultura da malandragem.

A Luciana Gimenez personifica a mocinha do conto-de-fadas moderno. Uma pessoinha mais ou menos, pouco competente, pouco inteligente, sem quase nada a oferecer, que ofereceu as partes de baixo à pessoa certa, no dia certo, e se valeu dos seus atributos femininos – mais especificamente, do útero – para ganhar a vida e a carreira. E que absurdamente é pintada como algum tipo de heroína genial.

Não avisaram às Elizas deste Brasilzão que, se tentarmos lucrar de uma forma que não seja o trabalho mal-remunerado de cada dia, podemos nos envolver com gente errada. Esta jovem encontrou o que há de pior e criou, de forma voluntária, um laço fatal com um monstro. E o mais assustador: havia um boletim de ocorrência acusando-o de tê-la agredido e tentado obrigá-la a abortar. Ou seja, ela sabia onde ela estava metida e teve a chance de se afastar com vida. Por que raios esta menina optou por voltar para a jaula do seu monstro? Por que mulheres bonitas, bem vestidas, minimamente cultas escolhem tal caminho sem atentar para os riscos?

Culpa de nossa cultura de busca cega por fama e dinheiro fácil que cria impressão de que gastar apenas uma noite para fazer um filho – sem precisar de anos de estudo e trabalho até uma aposentadoria que não virá – é uma atitude inteligente.

Morro de dó de mulheres casadas há anos com maridos violentos que nunca trabalharam e morreriam de fome se saíssem de casa. Tenho dó das que apanhariam do pai se voltassem para casa sem nada, com um filho a tira colo. Mas as Elizas, que têm uma condição bem acima da linha da miséria, podem fugir com, pelo menos, a vida. E se entregam em troca de uns trocos. Não estou comovida, estou perplexa.

Claro que sinto pena do fator individual e humano pelo que deve ter ocorrido com ela naquela noite trágica. Tenho dó porque ela deve ter percebido – tarde demais – que o preço de seu “seguro-de-vida” era sua vida. Deve ter sido aterrorizante: algo que ninguém merece passar, que não está certo e nem é justificável sob nenhum prisma.

Falemos das vítimas, sim. Como forma de alerta para todas as jovens mulheres que aprendem com novelas e revistas de fofoca que “o mundo é dos espertos”. Na vida, assim como no mercado financeiro, quanto maior a chance de ganho, maior o risco. E quem se mete com traficantes, bandidos ou tenta dar golpes está se aproximando voluntariamente da violência. E não há como prever se o desfecho será a lá Stephany Brito ou como o de Eliza.

Sei que estou estereotipando esta Eliza, esta Luciana, esta Stephany e até este monstro – e, como qualquer pessoa que vê a história de fora, posso estar completamente equivocada. E não é uma questão de achar que ela mereceu morrer por seu comportamento – porque NINGUÉM merece. Não há atenuantes – a culpa NUNCA será da vítima. NADA exonera os criminosos que merecem ser, como todos os assassinos brutais, apedrejados em praça pública amarrados pelo saco.

Não devemos condenar as Elizas porque a culpa é só de seus algozes. Só que esta é a oportunidade para gritar para aquelas que pensam em se submeter ao papel de chocadeira para ganhar a vida, que esse tipo de postura é perigoso. E, embora não devamos julgar comportamentos, devemos pensar nos nossos comportamentos, como proteção – porque dinheiro é dos mais antigos motivos para o crime. É nojento, não é certo, mas é real.

Acho que temos obrigação de tentar entender a dinâmica que levou a este resultado abominável, neste mundão que não é nada cor de rosa, como o mostrado nas revistas. E ao invés de ter pena – e até como forma de respeito – podemos aprender a lição: que pode ter sido o único legado que esta Eliza teve a chance de deixar.