Por Stella Benevides
Foi mesmo uma desgraceira o que aconteceu na Serra Fluminense e não houve como a gente não se sentir tocada.
Ta certo que eu detesto o enfoque sensacionalista de alguns programas de TV, principalmente aqueles que a gente conhece bem, cujos produtores rezam todo dia por uma tragédia e por muita gente morta pra garantir altíssimos índices de audiência. Acho que tem uns editores que chamam o repórter num canto, antes do coitado sair pra fazer a matéria, e ordenam:
- Se não arrancar lágrimas do telespectador, ta na rua!
O diferente lá no Rio é que foi uma tragédia que não escolheu vítima pela classe ou pela cor. Foi todo mundo. Pobre e rico. Gente que morava nas tais das “áreas de risco” e gente que tava ali, passando férias, em casas bacanas.
Não foi um incêndio na favela. Não foi um terremoto no Haiti. Foi muito mais “perto”. E aí, a gente assim, urbana, do asfalto, meio classe média, olha e se comove mais. E nem adianta ser hipócrita e querer negar: a gente se vê lá, podia ter sido com a gente.
Mas não foi.
E a gente, pela TV, fica olhando o esforço dos que foram lá ajudar, dos que foram lá levar água, comida, remédio. Dos que resgataram gente do meio da lama ou debaixo de escombros. Dos que foram lá salvar cães perdidos. Dos voluntários e dos profissionais. A gente se admira com o trabalho dos profissionais militares, policiais, soldados, bombeiros, sempre eles, sempre anônimos, sempre se estrepando todos pra ajudar quem precisa.
Aliás, fazendo aqui um parêntese, quando algum miolo-mole de “esquerda” tentar te convencer do contrário, é bom você se lembrar das tragédias e entender que militares, muitas vezes, são heróis. Na hora do perrengue, do aperto, do perigo, todo mundo quer ter um militar por perto.
Mas ... como não poderia deixar de ser, teve algo relacionado ao assunto que andou me irritando muito. Se não houver sempre algo que me irrite nas coisas meu nome deixará de ser Stella Benevides, né? Sim, eu sei que foi isso que você pensou. Pois é.
Eu ouvi de um monte de gente, por toda parte, a mesma ladainha, com algumas variações:
- Ah! Eu queria ir lá ajudar também!
- Ah! Se eu pudesse, ia lá ajudar aquelas pessoas ...
- Ah! Que vontade de ir lá ajudar a resgatar os cachorrinhos!
- Eu queria estar lá!
Eu queria, eu queria, eu queria.
Vem cá, me conta: queria mesmo? Queria ir lá ajudar ou queria aparecer na televisão? Assim, feito um Big Brother, onde uma meia dúzia de abobalhados é escolhida para ficar lá dentro, exibindo sua idiotice para uma multidão de abobalhados aqui fora.
Aliás, fazendo aqui outro parêntese, Big Brother é uma espécie de masturbação mental para após o jantar. As pessoas ficam olhando e sonhando com o que não podem ter. As mulheres, sonhando em estarem trancadas numa casa com vários bombadinhos de cabeça oca. Os homens, que têm à disposição várias gostosas vulgares e facinhas. E os gays ... Bem, os gays sonham estar lá pra poderem passar meses de papo pro ar, só fofocando e se exibindo, já que aparentemente é só pra isso que servem os gays do Big Brother: pra serem os palhacinhos da história.
Mas o que eu quero dizer é o seguinte: quem quer ajudar não precisa esperar por uma tragédia pra ajudar. E muito menos precisa esperar por uma tragédia “midiática”. Ou você acha que os que foram lá ajudar, profissionais e voluntários, são gente que fez isso uma vez?
Você quer ajudar? Eu aposto que aí no seu bairro tem uma mãe que não tem o que dar de comer ao filho.
Você quer ajudar? Eu tenho certeza de que aí onde você mora, tem uma família morando num barraco todo detonado e que precisa de reforma.
Você quer ajudar? Eu sei que debaixo da ponte mais próxima há um morador de rua precisando de alguma coisa.
Você quer ajudar? Aí na sua cidade também há cães abandonados com as mesmas necessidades daqueles perdidos lá na Serra.
Você quer ajudar? Num hospital, num asilo, num orfanato, que estão aí pertinho da sua casa, há quem precisa da sua ajuda.
E eu não estou falando de ajuda material! Porque se você me falar “Ah, eu contribuo mensalmente com a entidade tal ...”, eu vou te dizer: ótimo, parabéns, mas você não está ajudando, você está pagando alguém para ajudar por você!
Tem muita gente papuda por aí com síndrome de herói de poltrona.
Aproveite que já é quase carnaval e dê um pulo na 25 de Março. Lá está cheio de fantasias de Batman e de Homem Aranha pra vender. Compre uma, vista e saia fazendo macaquice pela rua. Se você tiver sorte, é até capaz de a Globo te filmar.

