Amiguinhas e amiguinhos do Mulherices. Não sei se vocês sabem, mas a Tia Stella já viveu um pouco mais do que a maioria de vocês. E chega um ponto na vida de uma pessoa – e isso vocês ainda não sabem – em que a gente é capaz de olhar para trás e avaliar com isenção as decisões que tomou no passado, assim, como se estivesse vendo um filme. A gente já se sente longe e desapegada o bastante do passado para isso.
Eu já fiz um monte de coisas nessa vida. Já entrei e saí de histórias, de trabalhos, ocupações, relações. Tantas que precisaria de um livro muito grosso pra contar. Tantas fases diferentes que, quando lembro, parece que estou lembrando a vida de várias pessoas. Comigo foi sempre assim: de repente, tudo muda. Quando vou ver, já estou em algo que jamais imaginei estar. Como agora, aqui, escrevendo pro tal do “blog”, sem nem saber direito que diacho é isso.
Mas uma coisa boa eu sempre consegui: só fazer o que eu quis e pelo tempo que quis. Só me manter dentro dos capítulos do livro da minha vida enquanto houvesse justificativa. Mas não pensem que foi assim por “sabedoria”, não. Foi muito mais por instinto, por temperamento. Ou por causa do meu gênio ruim mesmo. Ou pura sorte. O que eu sei é que posso até sentir saudade de coisas, épocas, eventos, pessoas. Mas frustrações eu não carrego, não.
Ultimamente eu me peguei pensando muito numa história acontecida há uns 50 anos atrás, numa cidade industrial da Inglaterra.
Era uma vez um mocinho chamado Randolph, que era bem amigo de um outro garoto chamado John Winston. Os dois ficaram amigos de outros dois meninos, chamados James Paul e George Harold. Os quatro gostavam muito de música, eram super fãs do Elvis e resolveram montar uma banda. E foi aquela coisa bem “anos 60”, rock and roll em botequins esfumaçados, jaquetas de couro, muita farra e pouco profissionalismo.
Pelo menos no começo.
Logo, como acontece em qualquer coisa que se faça em grupo, as cabeças mais privilegiadas começaram a se destacar. E assim, John Winston e James Paul tornaram-se líderes naturais da banda e, acreditando naquilo que faziam, conduziram o sonho deles rumo a algo maior. George Harold, embora mais discreto, era um sujeito dedicado e talentoso.
Mas o garoto Randolph era meio bola-murcha. Não que não fosse bom no que fazia. Dizem até que era muito bom. Mas, sabem aquele tipo que não se dedica, que está sempre ausente, que não participa, não se envolve, chega sempre atrasado? Que está sempre na aba, esperando pra ver o que acontece? Que não está nem dentro e nem fora? Pois é. Dizem que ele era assim. Pelo menos a versão mais aceita da história conta que o problema do Randolph era falta de uma coisa fundamental em tudo que se faça em grupo na vida: comprometimento.
E foi assim que um dia, quando a bandinha de rock já tinha até arrumado um empresário e um produtor fodão, concluiu-se que com ele não daria pra continuar. Randolph foi convidado a se retirar.
No mesmo dia, foram bater na porta de outro baterista, um sujeito que talvez nem fosse tão bom, mas era reconhecidamente profissional. Esse cara já era conhecido pelo apelido de Ringo Starr e a partir daquele dia, formou ao lado de Paul, John e George a maior banda de rock de todos os tempos, vendeu mais de 1 bilhão de discos, foi protagonista de uma revolução cultural jamais vista, ficou planetariamente famoso e estupidamente milionário.
Enquanto isso, Randolph Pete Best entrava para a história como aquele que poderia ter sido e não foi, símbolo daqueles que não aproveitaram as oportunidades que a vida lhes deu. Deprimido, fodido e desempregado, três anos depois, enquanto os ex-colegas explodiam no mundo inteiro com o histórico disco “Help”, tentou se suicidar, fechando as janelas e abrindo o gás. Mas nem isso o desgramado conseguiu. Alguém chegou e o salvou.
Depois seguiu sua vida de anônimo, com empregos comuns e pouca grana no bolso. De vez em quando aparece em algum evento, lançou um livro, dá umas entrevistinhas. Hoje, que já é um senhor grisalho, bem distante do dia em que perdeu a chance de ser um Beatle, costuma dizer que é muito feliz e que não se arrepende de nada. Talvez até seja verdade. O tempo tem esse poder. Mas dá pra calcular o tamanho da frustração que esse sujeito deve ter arrastado por décadas de sua vida?Se a historinha da besta do Pete Best tem algo a ensinar é que, enquanto se está dentro de alguma coisa, ou deve-se dar o melhor ou que se caia fora, com convicção e por conta própria. Não espere pelo cartão vermelho. Se é pra fazer, que se faça com tesão. Ficar meia-bomba, meio aqui e meio ali, fazendo corpo-mole, esperando pra ver o que acontece, não é e nunca vai ser atitude que se preze.
E isso vale pra quase tudo.
Vale pro seu emprego, pra sua faculdade, pro seu grupo de teatro, pra sua banda. Vale pra tudo que se faça junto com mais gente. Vale pro seu namoro. Vale pro seu casamento. Vale até pra Tia Stella no Mulherices. Se for pra estar que se esteja por inteiro. Quando a coisa não valer mais a pena, quando você deixar de acreditar, quando um treco te causar mais aporrinhação do que prazer, pegue suas tralhas e se mande. Mas não espere levar um pé na bunda pra ficar de mimimi depois, se arrependendo pelo que não fez.
Serviu pra você?
Ótimo.


