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sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Eu que sou chata??

Por Mercedes Gameiro, cronista convidada
Acordei, tomei café e seis comprimidos de coisas pra arrumar uma coisa e estragar outra -- um arruma a tireóide mas resseca a pele, outro salva a pele mas detona o bolso, outro não deixa reter líquido mas baixa a pressão ... Ta rindo de que? Eu tenho 49 anos! Você pensa que a gente não tem prazo de validade?

Bem...fui pro banho, me arrumei pra treinar - sim eu tomo banho antes do treino e treino todos os dias, porque se o prazo dos músculos vencer tudo está perdido. Liguei o computador, pra ver se tinha e-mail, etc.

Ai meu saquinho!

Porque será que mulheres que passam dos 40 agem como meninas que não chegaram aos 15?

Eu entendo uma menina mandando pra toda a lista dela uma corrente bonitinha que garante que pelo menos 15 pessoas no mundo te amam..."mas se você não mandar esse e-mail para 15 pessoas, nem duas vão lembrar que você existe". Será que o cérebro vence tão cedo?
Daí eu me pergunto: o que deu errado comigo?

Sim...porque alguma coisa deu errado. Eu não faço as coisas que as mulheres da minha idade fazem. Eu nem gosto das coisas que elas gostam!

Eu não faço nem tricot! Não costuro, não colo guardanapo na vela, não vejo Anamaria Braga, Silvia Popovik, Adriane Galisteu, Luciana Gimenez, Amaury Junior, Sex and the City (oops...desculpa!). Não faço idéia nem do nome dos seriados da Globo, acho o Tiago Lacerda uma caca, não vejo nada no Marcelo Antony e muito menos no José Mayer -- que tem cara de dono de padaria. Não copio receita, não faço lanchinho para as amigas, não compro toalhinhas bordadas, não tenho suportes de inox de margarina, requeijão, guardanapo, garrafa, azeite, etc etc etc... Minha casa não tem nada de feng shui, meu quarto não guarda "segredinhos místicos para o casamento perfeito".

E mais do que tudo: Eu não repasso arquivos pps.

O famigerado arquivo "pps" vai se transformar no ícone máximo da meia idade no início do século. Ainda vamos ver tratados sobre o comportamento de mulheres de meia idade relacionando o arquivo pps com uma existência miserável. "Depois dos 40. Do botox ao pps".

Por que elas lêm Lia Luft? Por que precisam de auto-ajuda? Por que precisam de filosofia barata? Por que precisam mandar slides de garotões musculosos? Por que precisam analisar o tórax de algum cara bem feio que joga futebol? O que deu errado comigo? Onde elas estiveram e eu não, pra acharem tão bonito e tocante um slide show brega com uma trilha péssima e um texto sofrível? Eu lembro que estudamos na mesma escola, fomos aos mesmos clubes, mesmas festas, vimos os mesmos filmes, tínhamos familias mais ou menos do mesmo padrão...mentira! Eu era pobre e elas não. Então...o que deu errado? Será que porque eu casei duas vezes a mais meu cérebro entrou em choque?

Será que porque eu fui trabalhar em publicidade eu reverti o processo da vida miserável? Será que lendo livros de cinema ao invés dos mais vendidos da Veja eu salvei meus neurônios da massificação do brega?

Ou eu que não sei viver? Ou eu que não sei dar valor para as coisas meia boca da vida e isso é falta de leveza e simplicidade? Hm...faz-me pensar!

Será que eu que tenho uma existência miserável por ter consciência do quão infeliz eu seria se tivesse? Acho que sim. Porque não é possível que elas tenham consciência da simplicidade básica, elementar, rasa, quase estúpida desse mal gosto global incrível!

Mas...acho que vi minha mãe penando com os mesmos assuntos, milênios antes da criação do primeiro PC. Lembro também de ver a revolta da minha irmã Bia, por ter escrito vários trabalhos sobre educação e pedagogia, mas só ter seu nome publicado numa Casa Claudia quando fez pátina azul num móvel antigo. Ela queria explodir um mundo que é fútil e raso. Mas de nada adiantou se revoltar... recebeu milhares de encomendas de restauro de móveis. É assim que se vive quando algo sai errado com a gente. Você não consegue combater o mundo da existência miserável, então usufrui dele e ainda ganha uns pilas.

Triste.

Não gosto de pensar que as mulheres da minha idade se perderam. Prefiro achar que eu bati a cabeça quando era neném.