sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Carta

Por Vanessa Pinho


Eu pensei em começar escrevendo esse texto com alguma frase legal, de algum escritor legal, ou com algum trecho sem pé nem cabeça, desses que a gente lê e coloca no perfil do orkut só pra dar uma idéia de ser alguém muito cult. Mas achei bem mais justo começar escrevendo sobre o fato de que eu não tenho a mínima idéia de como começar. Eu não sei o que te dizer. E eu não quero te convencer. Porque eu to com preguiça de fazer isso agora.

Eu cheguei a pensar que seria pra sempre. Porque mulher adora esse papo de “pra sempre”. Mas eu sabia que a sua mania de falar olhando para os lados e de sorrir fazendo barulho, mas sem mostrar os dentes, ia acabar com o pouco de paciência que ainda me resta sobre as pessoas e as coisas. E você sabe como é... O tempo vai colocando cada coisa no seu lugar, como o vento, que vai empurrando uma coisinha pra lá, outra pra cá, e quando a gente vai ver...

Eu fiquei um certo tempo falando feito Glória Kalil. Me torturando pra não falar usando os braços porque você dizia que isso era coisa de pobre. E que era brega a mania que eu tinha de emitir sonoridades quando encontrava as amigas nas festas. E dizia que meu perfume de gente chique e meu anel de strass não combinavam com gente que fala com os braços e apertava as amigas na bochecha.

Eu ficava imaginando a tua família, a tua irmã, os teus pais que vão à missa, e o teu melhor amigo que eu adoro tanto. E fiquei pensando que eu queria tanto aquilo pra mim... Só por um tempo, até eu entender de novo que as coisas podem ser boas. Mas aí eu entendi que na verdade eu estava gostando muito, sabe? Demais mesmo.

Da sua família, não de você.
Era chegada a hora de sair.

Eu estava gostando de tudo que tinha ao seu redor, não de você. Eu gostava da padaria que tinha perto da sua casa, dos seus amigos, dos seus discos, não de você.
Porque você tem vinte e poucos anos, a idade ideal pra ser um cego surtado que acha que felicidade total é uma festa Open Bar no final de semana ou andar por lugares badalados com o carro do pai e os bracinhos ajeitados pra fora.

Porque você usa uma sunga branca que é de envergonhar e paga a conta no restaurante sem olhar pro garçom, e isso – honestamente? – me irrita demais. Sabe?

E é claro que agora você surta no domingo à noite, porque domingo a noite é dia de todo idiota surtar. E você sente um frio na barriga e uma total certeza de que é mesmo um idiota. E aí você me liga e eu atendo com uma voz de “agora morre, seu babaca” [eu sei fazer essa voz como ninguém!] e digo um alô estilo o “Boa noite” de Fátima Bernardes e você chega a esquecer o que ia falar. E falo com uma voz que te faz lembrar o quanto você é mesmo um idiota. O quanto você achou o que tanto procurava e não soube lidar.

E eu faço tudo isso, não porque sou uma idiotinha louca do mundo moderno, mas porque queria muito que você aprendesse de uma vez por todas que o mundo não é o seu umbigo e, que se fosse, a sua burrice não caberia dentro dele.

E eu nem deveria te dizer nada, porque você tem mesmo vinte e poucos anos, joga vídeo game e se despede dizendo “beijo no coração” e isso me irrita numa potência absurda e angustiante.

Eu queria te dizer que sinto muito. Eu só queria. Porque na verdade eu não sinto nadinha de nada. Pena serve? Eu sei que você não gosta que sintam pena de você. Mas foi só o que eu consegui sentir, só pra te irritar.

Que tal?

Que tal agora eu dar gritinhos quando encontro amigas por aí? Hã? Eu sei que você odiava essa minha mania que agora eu faço em sua homenagem. Na verdade eu nem queria escrever tudo isso, mas eu achei que seria bem divertido saber que você leu esse texto enorme, todinho, e no fim chegou a uma conclusão terrível e óbvia: o idiota que ela fala no texto, sou eu!






39 comentários:

  1. Da pra notar q "gosto" vc teve em escrever essa "carta". E o sujeito, com td certeza a essas horas deve saber q é com ele.

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  2. TEM MESMO MUITA SINCERIDADE,DEU SEU RECADO DIRETO NO ALVO.

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  3. Que textinho grande, mais tem muita sinceridade!
    Seu blog ta otimo!

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  4. Sinceramente, desconsidero esse tipo de mensagem (in)direta. Quando o fim chega, são poucos(as) os(as) que conseguem guardar para si apenas os bons momentos vividos juntos e seguir tranquilo com sua vida. Remoer esse sentimento de dor (e talvez culpa) acaba sendo muito mais satisfatório, afinal, quem não gosta de fazer um drama e mostrar com foi injustiçado(a) e que ótima pessoa "o(a) outro(a)" acabou de perder? ¬¬

    Permita-se um recomeço. Um novo encontro. Se já passou e a situação está resolvida entre as partes, pra que ficar expondo-se? Bola pra frente...

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  5. bellissimo texto
    muito sinceridade
    gostei .

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  6. Nossa, adorei mesmo. Muito gostosa de ser lida a sua linguagem. Indireta bem direta, e pra quem quer que seja que sua carta é (se é que é pra alguém), é bem feito. Não existe nada pior do que alguém que nos limite, nos imponha regras e com isso vá tirando nossa essência.
    Muito legal mesmo!
    Parabéns!!!

    http://tacadesabedoria.blogspot.com/

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  7. O texto está muito bom.
    Quando um relacionamento chega ao fim é que se percebe o quanto de idiota pode ter sido que de quem se gostava não era exatamente da pessoa mas das coisas que o cercam.

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  8. Bela sacada, a sociedade nos impede de tanta coisa, tenho tanta vontade de voltar a ser criança, as pessoas precisam tirar um pouco os sapatos e sentir a vida

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  9. Esse foi um dos posts mais sinceros que eu já li
    sabe, sincera ñ só com ele, com vc mesma, reconhecer isso tudo o que vc disse é extremamente difícil para alguém que "ama"
    ;D
    mt bom mesmo
    seguirei

    http://baudopascacio.blogspot.com/

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  10. Achei que o texto tem uma profunda intonação de uma mulher mal comida!!!
    A vida é longa a fila anda e perder tempo escrevendo texto para alguém que um dia passou pela sua vida prova que a sua fila não está andando o que da maior credibilidade a minha teoria expressa anteriormente.
    Tirando tudo isso o texto está excelente!!!

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  11. Os textos são muito bons. já está nos favoritos

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  12. Tem que escrever e por pra fora sempre quando achar necessario..Amei

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  13. vocês se odiavam desde o inicio e nem perceberam.. rssss



    mas eu prefiro dizer pessoalmente sabe. cartas ficam pra posteridade e pra posteridade eu só gosto de deixar coisas boas.. escrever cartas de amor, por exemplo... rsss
    o desamor eu falo na cara

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  14. Nooossa, muito bom meeesmo. Adorei . Muito bom mesmo, favoritei ja ;D

    http://infinityxpb.blogspot.com/

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  15. Muito bom, é uma bela carta que faz refletir em certo ponto parabén adorei. estou te seguindo

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  16. Eu acho muito chato isso de sair de um relacionamento falando mal do outro, com esse clichezinho batido de "vc não me mereceu" ou "não sabe o q perdeu". Bem coisinha de mulher isso. Desculpa a franqueza.

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  17. EEEE viva ela colocou para fora!!!!
    adoro essa pessoa horas braba e horas também braba hehehe
    bjs e é no coração pois tenho 33 e dou beijo onde quero hehehehe pois você merece beijos em cada cantinho de seu corpo!!!!!!!!

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  18. muito bom...belas palavras,,,um texto bom de ler...

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  19. Oi. Não é o lance da "corrente orkutiana". Vim aqui agradecer e invejar o brilhante comentário de uma de vcs a respeito de meu post das "Casas Vadia". Que resposta engraçada "Pelo menos ninguém vai dizer que ela saiu da casa sem porra nenhuma", gostaria de tê-la escrito.

    abç
    Pobre Esponja

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  20. Olá, vc comentou no meu blogger.. sobre o meu texto... Vc poderia me dar algumas dicas como eu posso melhorar akele texto...
    tbm acho q errei em algumas coisas... mas preciso de uma ajudiinha extra.. rs
    Beeeeijoos!'
    e Obrigada pelo toque..!'rs


    http://analiiceoliveira.blogspot.com/

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  21. Olá Vanessa,

    Gostei do texto, o legal é que o pessoal pensa que é autobiográfico.

    Vai que é e eu não sei. Estou meio intrigado.

    Beijos

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  22. Adoreii seu tom sarcastico , adoro isso , ameii o recaado , se eu foosse o cara , cavava uma cova cm palitinho de picole i mim jogava dentro , HAHA !
    Beijõos - to seguindo

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  23. Esse teu texto mostra que além de linda e inteligente, vc tem personalidade. Isso eu tb já sabia, mas quanto mais te conheço, mais tenho certeza da pessoa encantadora que você é.

    Essa conversa toda era na verdade, só pra dizer que eu te admiro muito.

    bjs.

    Edu

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  24. No inicio alisa, alisa, alisa e esmurra! Gostei!

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  25. Adorei esse texto! Muito sincero e verdadeiro.. Primeira vez que venho aqui, e concerteza virei de novo! bjs
    Gabi

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  26. No fim das contas, acho mesmo é que vc deveria estar grata por essa "liberação de compromisso". O cara fez-te foi um belissimo de um favor (à vc, à sua vida)em te liberar... agora resta a vc se libertar dessas lembranças e continuar trilhando o caminho... em busca de uma nova aventura... A busca daquela sensação das borboletas no estômago! rsrs

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  27. Como disse alguem ai acima,para textualizar basta um pouco de sinceridade.Pronto,já tens o inicio de alguma produção.Gosto muito deste blog.

    Espia o meu.Tem até canibalismo!
    http://oficinamissoes.blogspot.com/

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  28. Sensacional o texto, gostei mesmo.



    Visita,
    Http://futebolarisca.blogspot.com

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  29. EU garananto que essse Cláudio N. não leu nada do texto. Eu ao menos li as partes dos gritinhos. COntinue dando, eu vou dar!!!

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  30. sarcasmo total...
    e adoro isso!!

    muito bom
    muito inteligente teu texto!

    exelente!

    bjoks!

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  31. Esta certa de valorizar suas características, manias, costumes. São eles que junto vão compor nossa essência, aquela marquinha especial. Mas acho que foi muito dura. Vocês mulheres tem muito poder nas mãos. Aposto que o receptor dessa carta tenha se atirado na cama, e se arrependido muito.

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  32. Só posso ti dizer que tu é FODA guria!!!
    Show de bola o texto.. parabéns!!!

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  33. hahaha..
    Adorei.. muito engraçado...
    É amiga vc está apaixonada!

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  34. Acho que eu sou capaz de rir até passar mal desse texto se ler ele de novo. Vc pensa de um jeito parecido com o meu e pelo jeito adora desabafar, outra coisa que me faz um bem... Rsrs... ADOREI!

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  35. Aiii que saudadade da Vanessa, adoro ler o que ela escreve!

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