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sexta-feira, outubro 23, 2009

Assunto

Por Stella Benevides

Eu sei: andei meio ausente do tal do “blog”.

As meninas já estavam me infernizando e, para me incentivar, até inventaram de novo que um monte de gente leu as melecas que eu escrevi há algumas semanas e que já tem um bando de insensatos querendo saber quando é que eu vou começar a sessão “Stella Responde”.
Meu sumiço não teve motivo algum, não.
Não viajei, meus oito felinos-filhos exigem dedicação integral.
Não fui seqüestrada, não há seqüestrador tão burro.
Não fiquei doente, embora os pentelhos do bom comportamento adorariam saber que caí de cama, vitimada por um enfisema, uma cirrosezinha ou, pelo menos, uma súbita manifestação alérgica a pêlos de gato que me fizesse espirrar até meu nariz se transformar numa alcachofra.
Nada disso.
Só andei mesmo sem assunto.
Aliás, estar sem assunto, aparentemente, é uma epidemia nacional.
Assim, no dia-a-dia, na padaria, no ponto de ônibus, na rua, não se ouve das pessoas nada que preste. Nada de original. Ninguém pensa mais. O povo por aí se limita a replicar os assuntos inventados na TV. Sim, porque isso para mim está claro: virou e mexeu, um assunto nacional foi inventado. Pode ser o diabo de uma lei idiota feita para proibir alguma coisa. Um político de quem, como que por encanto, descobrem-se uns podres e o malandrão, que está enfiando a mão na cumbuca há 50 anos, vira o Judas da vez. Ou um novo bordão de novela (“Hare, Baba”, puta que pariu, não agüentava mais ouvir a empregada da vizinha repetindo essa merda!).
Mas o que dá Ibope mesmo é doença!
Ah, que maravilha! Quando inventam uma gripe nova, as velhotas têm assunto pra semanas, cada uma com uma informação inédita que só ela tem, cada uma com um tratamento ou uma forma de prevenção mais eficiente que só ela viu num desses programas de inutilidades que passam à tarde.
Como isso enche o saco!
Eu não estou aqui para explicar.
Eu não entendo de muita coisa. Eu só vejo, ouço e falo.
Mas isso aí eu consigo entender.
As pessoas que trabalham na fábrica das notícias sabem do que o cliente gosta! E doença vende bem porque esse povinho fricoteiro morre de medo de morrer! Haha!
Um dia, lá no escritório da fábrica de notícias, alguém chegou com a idéia:
- Vou inventar uma gripe!- Ta louco, isso não vai vender, quem tem medo de gripe?- Vai dar certo!- Inventa outra coisa, um bacilo, um vírus, umas abelhas africanas.- Não, gripe. Vai dar certo.- De gripe ninguém tem medo, inventa uma coisa mais suja. Uma caganeira! Isso! O povo morre de medo de caganeira, imagina todo mundo cagando por aí, pânico total. Inventa que é por causa de um lote de maionese!- Não, uma gripe. Gripe é legal, todo mundo pega. A gente faz uma gripe suja. Uma gripe de bicho sujo.- O que? Gripe de macaco?- Não, macaco é fofo. Tem no circo, criança gosta. Mico-leão-dourado, bichinho em extinção, o povo acha bonitinho. Mais sujo.- Gripe de urubu?- Não, do porco!- Hã?
No dia seguinte, já tinha uns imbecis andando na rua de máscara cirúrgica e outros lavando as mão com álcool setecentas vezes por dia. E um bando de especialistas dando entrevista em tudo que é canto. O que mais tem nessa merda é especialista.
O defeito dos assuntos que saem lá da fábrica das notícias é que eles duram pouco. O povo enjoa. Então tem que tirar de circulação e inventar outro. Se um dia a fábrica fechar, acho que o povo vai ficar mudo.

Tá todo mundo meio burro.
Olha pra essa pessoa que está do seu lado.Pode olhar, eu espero.Viu? Cara de parvo.
Eu não sei direito o motivo. Vai ver é porque não se lê nada que preste. Só ficam passando os olhos rapidinho pelas telas desses computadores. Ouve-se músicas cretinas. Assiste-se coisas cretinas na TV. Li em algum lugar que o vocabulário médio do brasileiro está diminuindo. Com essa tio Darwin não contava: um dia vamos subir de volta nas árvores e nos comunicar com meia dúzia de grunhidos.
Já estou até vendo o primeiro esperto a levantar o braço e falar: a culpa é do governo! É, do governo, que não incentiva a cultura do povo e blábláblá. Aquela ladainha de sempre. Não é! Povos idiotas não são feitos por governos idiotas. Desde que se possa votar nesses caras, é o contrário! Então, toda vez que você falar que seu governante é idiota, ladrão ou as duas coisas, olhe primeiro no espelho.
Alguns, apesar de idiotas, têm uma certa dose de malandragem. Ou têm assessores bons, o que dá quase no mesmo. Feito esse presidente bizarro. Essa coisa toda de “o governo dá”, “o governo cuida”. Um papaizão zeloso, carinhoso, bonzinho. O povo adora, ele sabe. Ajudou a infantilizar um pouco mais essa merda. Os outros olham, notam que faz sucesso e imitam. Proíbe isso, obriga àquilo, regras pra todo lado. Quem manda, obriga, proíbe fica famosão. O povo resmunga, mas no fundo adora. Quanto mais regra, menos é necessário pensar. Todo mundo obedece e pronto. Se algo der errado, eles ligam pra fábrica das notícias e encomendam uma doença nova. Fica todo mundo com medinho. Com medinho é mais fácil obedecer. Tomara que da próxima vez inventem um surto de acefalia. E que todo mundo note, finalmente, que está sem cérebro.
Que foi?Tá fazendo essa cara enjoada por quê?Eu não avisei lá no começo que estava sem assunto?